Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Pós em Gestão Cultural atrai profissionais de perfis diversos

Domínio de leis e finanças é exigência para setor; cursos já recebem formados em outras áreas como Direito e Economia

Júlia Marques, O Estado de S. Paulo

30 Junho 2015 | 03h00

As filas na entrada de teatros e museus não param de crescer: a sede de cultura é uma das marcas da sociedade contemporânea. Mas, para trabalhar nessa área, apenas vontade e prática não são mais suficientes. Com a demanda do mercado por profissionais especializados, cursos de pós-graduação em Gestão Cultural se expandem e se reinventam.

Profissionais que já trabalham em gestão da cultura e até mesmo artistas procuram os cursos para aprimorar as práticas e realizar projetos. Conhecer leis e finanças é o caminho para conseguir investimentos. “A capacidade criativa do artista no Brasil é extremamente forte. Por outro lado, a de gestão é deficitária”, diz Laura Haddad, coordenadora do curso de pós-graduação em Produção da Arte e Gestão da Cultura, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

“Antes de você ter conhecimento, projetos de lei assustam, mas depois você vê que não são bicho de sete cabeças”, conta a fotógrafa Carolina Zibetti, de 24 anos, que faz a pós na PUC-PR. Para ela, saber de gestão tem reflexo no bolso. “O custo para produzir uma exposição, por exemplo, diminui porque sou artista e produtora ao mesmo tempo e tenho mais autonomia para negociar.” 

No curso de pós em Produção e Gestão Cultural da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), que abre a primeira turma em setembro, disciplinas sobre legislação cultural e direitos autorais estão na grade. “Nas leis de incentivo, o profissional trabalha com documentos jurídicos. Tem de saber o que significa um contrato e conhecer um pouco o vocabulário de direito autoral e de imagem”, diz o coordenador do curso de Produção Cultural da Faap, Marcos Moraes.

Formada em Hotelaria, Gilana Magalhães Sant’Ana, de 29 anos, procurou a pós-graduação em Gestão Cultural no Senac depois que começou a trabalhar na organização de eventos culturais. “Queria ter mais conhecimento da parte de gestão. O curso me deu mais base na organização.”

Gilana aproveitou as aulas sobre políticas públicas e captação de recursos para criar um projeto. “Não é fácil entender editais, requer muito trabalho. É uma matéria cansativa, mas a gente sai com a ideia de que é possível participar.” Com a proposta de mostrar a cidade de São Paulo além das atrações consagradas, Gilana busca, com a ajuda de professores, a parceria da Prefeitura.

O estudo sobre a cultura das comunidades locais é uma das tônicas do curso no Senac. “É uma tendência mundial dos projetos e uma grande expectativa para países que não têm a indústria criativa como foco”, explica a coordenadora da pós, Soledad Galhardo. Para ajudar os alunos a tornar viáveis esses projetos, o curso tem uma rede de contatos com empresas interessadas em participar. 

Os alunos também fazem visitas técnicas a espaços de cultura. “Fomos ao Tom Jazz, ao MAC (Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo), ao novo estádio do Palmeiras. Quando você está dentro, tem uma ideia melhor. Não é só glamour. Tem toda uma técnica”, conta Gilana.

Sem crise. A formação sólida é uma saída para se reinventar na crise. A área de cultura é quase sempre uma das primeiras afetadas pelo orçamento reduzido de governo e empresas, mas profissionais bem formados têm mais chances de achar alternativas. Para a presidente da Associação Brasileira de Gestão Cultural, Kátia de Marco, em época de crise, empreendedorismo e criatividade são matérias-primas importantes para novos modelos de negócios e os cursos ajudam a dar esse tipo de formação.

“Aprender a lidar com as contingências e ser capaz de criar nos momentos de escassez talvez sejam alguns dos maiores desafios atuais”, explica Bernardo Buarque, que coordena o MBA em Bens Culturais: Cultura Economia e Gestão, da Fundação Getulio Vargas (FGV).

O módulo de Economia Criativa é um dos mais importantes na grade da FGV. Os alunos estudam casos, nacionais e internacionais, de superação de crises econômicas. Saber capitanear formas alternativas de conseguir recursos - como os financiamentos coletivos - também é uma habilidade estimulada pelas especializações.

Os cursos ainda ajudam a criar uma rede de contatos para parcerias. “Foi essencial conhecer pessoas que atuam tanto na esfera privada quanto na pública. Já trabalhei com três colegas”, diz a arquiteta e produtora cultural Melanie Graille, de 26 anos. Durante a pós no Senac, ela abriu uma empresa de produção de exposições. 

De fora. Sem medo da crise, até profissionais com outras formações, como Economia, Ciências Contábeis, Administração e Direito, aventuram-se em cursos de pós-graduação em Gestão Cultural. Para especialistas, com a ampliação do mercado de cultura, a chegada de gente de fora é uma tendência. “Existe uma vontade de se relacionar com arte e cultura de forma mais intensa”, diz a coordenadora do curso da PUC-PR, Laura Haddad. 

Formada em Economia, Ana Carolina Asatsuma, de 29 anos, resolveu cursar a pós em Bens Culturais na FGV. “Minha perspectiva com esse curso é migrar para a área de economia da cultura. Outro objetivo é entender um pouco mais para entrar em um mestrado.

O diálogo com artistas e produtores é o caminho para quem vem de fora. “Como estudo com pessoas do mercado cultural, uma das vantagens de fazer o MBA é entrar em contato com essa turma. É como você consegue oportunidade de emprego”, diz Ana Carolina. 

DEPOIMENTO 

Fábio Gabriel Aguiar, aluno da pós em Gestão Cultural no Senac

'Você não muda sua vida sozinho'

“Trabalhei em um banco por sete anos, mas sempre gostei da área cultural e artística. Aí chegou aquela crise dos 30 anos: ‘Preciso decidir o que fazer da vida, não estou feliz onde estou.’ Pensei em redirecionar minha carreira e hoje quero trabalhar com arte e cultura. Pelo fato de tocar e fazer composições, pretendo dar um gerenciamento mais profissional para a carreira e retomar essa parte adormecida em mim.

Quando entrei no curso, soube de pessoas que trabalham desenvolvendo projetos. Existem poucos profissionais nessa área. Como sou artista, pretendo montar projetos para mim e para outras pessoas. Isso é muito rentável. Minha formação como economista, mesmo que não seja próxima da área da cultura, pode me ajudar muito. 

Você não muda sua vida na sua casa, sozinho. Tem de buscar conhecimento. No curso, já conheci outras pessoas, artistas, empreendedores. É uma vida diferente. É bom sempre buscar algo mais moderno, mais para frente, de acordo com a nossa geração, que é inquieta e vai atrás do que está a fim de fazer.”

SERVIÇO

Fundação Getulio Vargas 

MBA em Bens Culturais

Inscrição: A partir de outubro

Início: 1º semestre de 2016 

Duração: 21 a 24 meses

Preço: 25 x R$ 1.097

Senac

Gestão cultural (a distância) 

Inscrição: Até 4/8

Início: 12/8 

Duração: 360 horas

Preço: 18 x R$ 231,16

PUC-PR

Produção da Arte e Gestão da Cultura

Inscrição: Até 24/8

Início: 14/9 

Duração: 360 horas

Preço: 19 x R$ 541

Faap

Produção e Gestão Cultural

Inscrição: Enquanto houver vaga

Início: 14/9 

Duração: 416 horas

Preço: 24 x R$ 1.141,48

Mais conteúdo sobre:
Gestão Cultural pós-graduação FGV Senac

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