Por que avaliar projetos sociais

Os jovens participantes do Programa Educação e Trabalho, da Fundação CDL Pró-Criança, em Belo Horizonte (MG), tiveram aumento significativo em seu rendimento após a aprendizagem profissional oferecida pela organização. No Instituto Ballet de Santa Teresa, localizado no bairro carioca de mesmo nome da instituição, as mães de alunos tiveram elevação de escolaridade, a renda familiar aumentou e os estudantes melhoraram seu desempenho escolar após integrar as atividades do programa Complementação e Embasamento Cultural.

Ana Beatriz Patrício, especial para o Estadao.com.br,

17 Maio 2009 | 21h49

Os dois projetos sociais mencionados têm algo importante em comum: os gestores das organizações executoras empenharam-se para mensurar o seu impacto nas comunidades atendidas e, com isso, obtiveram informações fundamentais para calcular o custo-benefício das ações, aprimorar a gestão e a utilização dos recursos.

Avaliar é uma condição imprescindível para a gestão de programas sociais, pois gera conhecimento sobre a ação que se realiza, fornece dados para verificação da efetividade do caminho escolhido e permite aprimoramento e correção de rotas, quando necessário. A prática possibilita verificar a pertinência, consistência, coerência e viabilidade dos programas sociais.

Contudo, saber que avaliar é importante não é suficiente para efetivar a prática da avaliação. Dados da pesquisa Ação Social das Empresas no Brasil, realizada em 2006 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mostram que entre mais de 599 mil empresas ouvidas, apenas 16% afirmaram que possuem avaliação documentada de suas ações sociais.

Isso ocorre porque a avaliação de projetos sociais esbarra, na maioria das vezes, no desconhecimento de metodologias e ferramentas adequadas e também na ausência da cultura de avaliação. Assim, essa continua sendo uma atividade residual, não institucionalizada na gestão dos projetos e desarticulada com os momentos de tomada de decisão. Outras vezes, limita-se ao acompanhamento de atividades, raramente estendido à mensuração de seus resultados efetivos.

Nesse contexto, ganha ainda mais relevância a avaliação de impacto, que se diferencia na metodologia e nas finalidades. Seu objetivo é mensurar os efeitos do projeto sobre os beneficiários, isolando-os dos efeitos de outros fatores do contexto. Por exemplo, responde em que medida o aumento observado da renda de um grupo de beneficiários é devido a ações de capacitação profissional feitas pelo projeto e em que medida deve-se à melhora generalizada do quadro macro-econômico.

A Fundação Itaú Social iniciou em 2004 o programa Avaliação Econômica de Projetos Sociais, com o objetivo de avaliar os próprios programas sociais e de instituições parceiras, além de investir na disseminação dessa prática, promovendo cursos e seminários gratuitos em todo o Brasil.

A metodologia utilizada pela Fundação conjuga dois tipos de avaliação que se complementam: a avaliação de impacto e o cálculo de seu retorno econômico. A primeira tem como principal objetivo investigar a causalidade entre o projeto ou programa e os resultados obtidos, ou seja, responder o que teria ocorrido aos beneficiários, caso eles não tivessem participado do trabalho. Já o retorno econômico compara o investimento empregado com os benefícios gerados ao longo da vida de seus participantes. Trata-se, portanto, do retorno social, uma medida econômica relevante para a gestão e comparação de resultados entre projetos sociais, que contribui nas tomadas de decisão, aprimoramento, ampliação ou redução de determinadas ações. Além disso, os resultados podem orientar a adoção de ações de programas sociais em políticas públicas quando, comprovadamente, analisando aspectos micro e macro sociais, houver ganho substantivo para os cidadãos.

Toda avaliação de projetos sociais deve oferecer informações relevantes para alterar os processos que determinam a eficiência e eficácia das políticas e programas sociais. Tal princípio coloca a avaliação como um importante instrumento de decisão política em seu sentido pleno de garantia dos direitos dos cidadãos, não restrito à verificação e análise de dados que demonstram o quão eficiente e eficaz foi determinado programa.

*Ana Beatriz Patrício é pedagoga, especialista em Gestão do Conhecimento e Gestão do Terceiro Setor e diretora da Fundação Itaú Social

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