Paulo Liebert/Estadão
Paulo Liebert/Estadão

Poli e São Francisco dividem o poder de SP

10 prefeitos foram da Politécnica e 8, da Faculdade de Direito da USP; entre eles, Kassab e Haddad

Bruno Paes Manso, de O Estado de S. Paulo,

08 Dezembro 2012 | 23h03

Em 1984, Fernando Haddad ainda era um universitário com rosto de adolescente quando, aos 22 anos, assumiu a presidência do Centro Acadêmico XI de Agosto da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Era conhecido como Terceiro – apesar de cursar o último ano da “Sanfran”, não tinha barba e alguns brincavam que estava no 3.º colegial.

 

No mesmo ano, Gilberto Kassab, aos 24, liderava o centro acadêmico da Politécnica. Sua chapa se chamava Tempos Modernos. A de Haddad tinha um nome mais dialético: The Pravda, mistura de cultura americana e soviética.

 

No XI de Agosto, Haddad estava a poucos metros da Sé, onde ocorriam os lotados comícios das Diretas. Kassab ficava na Cidade Universitária. Ele e seus colegas certinhos, de cabelos curtos, haviam conseguido importantes vitórias políticas contra os trotskistas cabeludos da Liberdade e Luta (Libelu).

 

Apesar das diferenças, na Sanfran e na Poli eles seguiam dois cursos que se consolidariam como os principais formadores de prefeitos de São Paulo. Um em cada quatro dos últimos 113 anos vieram de uma das duas faculdades: 10 cursaram a Politécnica; 8, a São Francisco. Três administraram a cidade duas vezes em períodos distintos. No regime militar, por exemplo, o engenheiro Paulo Maluf foi indicado entre 1969 e 1971. E foi eleito entre 1993 e 1996. “A administração Maluf foi quase um clichê do que se espera de um engenheiro. Ele governava pensando nas obras, fazia túneis, pontes e avenidas”, diz o professor Marco Antonio Carvalho Teixeira, da Fundação Getulio Vargas.

 

Teixeira afirma, contudo, que não se deve enquadrar em uma mesma categoria as diferentes administrações de politécnicos. E cita as gestões de Mario Covas (1983–1985), bastante voltada à discussão de direitos humanos e sociais, e a do próprio Kassab, vinculada à regulamentação e à fiscalização – o criador da Lei Cidade Limpa também proibiu camelôs no centro, tentou diminuir o barulho à noite e regulamentou lotações. “Pode-se dizer que a gestão Kassab se parece com a de um advogado.”

 

Estadistas

 

A São Francisco foi fundada em 1827 para formar a elite nacional. Deu certo: 14 presidentes brasileiros se formaram ali. Dois deles também foram prefeitos. Na República Velha, Washington Luís administrou a cidade em 1914, voltou em 1917 e virou presidente em 1926. O outro foi Jânio Quadros, prefeito em 1953, governador em 1955 e presidente em 1961. Renunciou em agosto do mesmo ano e voltou à política em 1986, novamente como prefeito.

 

“A faculdade não é voltada à formação de políticos, mas aqui há espaço para debate. Muitos estudantes que escolhem o Direito também se interessam por política e debate”, explica Antônio Magalhães Gomes Filho, diretor da faculdade.

 

O diretor da Poli, José Roberto Cardoso, também acredita que a forma como o engenheiro aprende a pensar e ver o mundo acaba ajudando na política, por oferecer ferramentas intelectuais para enfrentar problemas. “Aqui estudantes aprendem a ver o horizonte e onde querem chegar. Dependendo do cenário, isso define e projeta as ações que pretendem realizar.”

 

Quando assumiu a Prefeitura, Kassab precisou criar quadros para administrar São Paulo. Acabou chamando colegas da Poli para compor as secretarias. Pelo menos 14 ocuparam cargos importantes em sua gestão. Agora, parte deles voltará a dar aulas na Politécnica.

 

PARA LEMBRAR

 

113 anos com prefeitos

 

Fernando Haddad será o 70.º prefeito de São Paulo em 113 anos. O cargo foi criado dez anos após a Proclamação da República, em 1899. Antes, a cidade era administrada por intendências ocupadas por vereadores, como as de Justiça, Polícia, Higiene e Saúde Pública, Obras Municipais e de Finanças.

 

O posto de prefeito centralizou a administração. Antonio da Silva Prado foi o primeiro e o que ficou mais tempo na função: 12 anos.

Dos 113 anos, 57 foram administrados por prefeitos não escolhidos pelo voto. O primeiro eleito diretamente foi Washington Luís. Após as Revoluções de 1930 e 1932, a cidade passou 23 anos sem votar. Eleições só voltaram em 1955 com Jânio Quadros e seguiram até Faria Lima, em 1965. Em 1985, após o regime militar, Jânio voltou a reiniciar o ciclo democrático.

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