Plano de cotas das universidades de SP propõe curso como opção ao vestibular

Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior Público Paulista (Pimesp), que Alckmin anuncia hoje, sugere criação de colégio comunitário de 2 anos como porta de entrada para USP, Unicamp e Unesp; meta é incluir 4.520 alunos da rede pública até 2016

SERGIO POMPEU, PAULO SALDAÑA, CARLOS LORDELO E CRISTIANE NASCIMENTO, ESPECIAL PARA O ESTADO,

20 Dezembro 2012 | 01h54

O governador Geraldo Alckmin (PSDB) anuncia hoje a proposta mais ousada já feita para mudar o acesso à USP, Unicamp e Unesp. A principal inovação é a criação de um colégio comunitário que será opção ao vestibular e principal porta de entrada para o ensino superior de alunos de escolas públicas - em especial os de baixa renda e, em menor escala, pretos, pardos e indígenas. O colégio é o diferencial da proposta em relação à Lei de Cotas federal, que provocou o debate em São Paulo.

Com essa estratégia, o Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior Público Paulista (Pimesp) prevê chegar a uma “cota” de 50% de vagas para estudantes de escolas públicas até 2016. Dentro desse universo, o Pimesp vai propor critérios de renda e raciais.

A proporção de 50% deverá ser alcançada em cada curso e turno. Para se atingir as metas, são necessários mais 4.520 estudantes oriundos de escolas públicas, de acordo com cálculos das universidades realizados com base no número de matriculados em 2012. Desses, 2.543 seriam autodeclarados pretos, pardos e indígenas.

Os alunos da rede privada continuam prestando a Fuvest normalmente. Já os candidatos da rede pública têm a opção de se valer da bonificação das universidades no vestibular tradicional, com acesso direto, ou disputar um vaga no colégio comunitário, pela nota do Enem ou do Saresp (avaliação estadual ). A partir daí, em até dois anos, eles terão um cardápio de caminhos a seguir na USP, Unesp, Unicamp e até no Centro Paula Souza (veja infográfico).

Quem se formar no Pimesp, inspirado nos community colleges americanos, poderá: 1) tirar um diploma de curso sequencial de 1,6 mil horas, já previsto em lei, que permitirá disputar concursos públicos; 2) com um ano adicional de estudos, sair com diploma de tecnólogo; 3) escolher vaga nos cursos tradicionais, mesmo os mais disputados, como Medicina, abatendo créditos de algumas disciplinas; 4) fazer parte de uma reserva qualificada para ocupar vagas ociosas.

O embrião do colégio comunitário é o Programa de Formação Interdisciplinar Superior (Profis), criado pela Unicamp, cuja primeira turma se forma agora (mais informações nesta página). Os 50 concluintes tiveram aulas presenciais e online.

“Eles fizeram um curso superior abrangente, na linha dos cursos de liberal arts de colleges americanos. Tiveram aulas de matemática, química e biologia, mas também de ética e filosofia”, diz o pró-reitor de Graduação da Unicamp, Marcelo Knobel, membro da comissão que concebeu o Pimesp. “É um currículo muito interessante para o mercado de trabalho, que pede pessoas com formação ampla.”

O reitor da USP, João Grandino Rodas, foi além. “Será uma formação até melhor que a de muitos cursos de Administração que se vê por aí.” O conteúdo online será produzido pela Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp). Segundo Rodas, a carga horária a distância vai representar 50% do curso.

Outra característica que o programa estadual deve herdar do Profis é o sistema de bolsas. Na Unicamp, o aluno recebe no primeiro ano do colégio comunitário uma bolsa da universidade. Quem passa para o segundo ano é obrigado a fazer iniciação científica, cultural ou artística, com bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Debate. “É importante ressaltar que o projeto que será apresentado é uma proposta de grupo de trabalho para abrir uma grande discussão interna nas universidades, até para respeitar a autonomia. Aqui na Unicamp essa discussão será feita por unidade”, diz Knobel. Rodas disse que a discussão será descentralizada também na USP. O programa precisa ainda ser aprovado nos conselhos universitários de cada instituição.

No Profis, a oferta de vagas depende de cada faculdade. Medicina, por exemplo, destinou 5; Física abriu 10. Hoje, a relação candidato/vaga no vestibular da Unicamp em Medicina é de 126 para 1.

Para os alunos do Profis é de 5 para 1. “Queremos buscar os melhores talentos. Dos 67 mil candidatos do vestibular, 70% são de escolas privadas. Dos egressos do ensino médio no País, 85% são de escolas públicas. É preciso mudar essa lógica”, diz Knobel. “Com o programa, vamos passar uma mensagem de que os bons alunos têm lugar nas nossas universidades, ainda que seu ensino básico tenha sido deficiente.”

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