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80% dos estudantes dizem sentir muita ansiedade durante provas

Dados fazem parte de questionário, com foco no 'bem-estar' de alunos de 15 anos, aplicado pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes em 72 países

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Isabela Palhares ,
O Estado de S.Paulo

19 Abril 2017 | 06h00

Oito em cada dez estudantes brasileiros dizem sentir muita ansiedade para uma prova, mesmo quando se prepararam para ela. Os dados fazem parte de um questionário, com foco no "bem-estar" de estudantes de 15 anos, aplicado pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês), em 2015 em 72 países e divulgado nesta quarta-feira, 19, pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

O Brasil é o segundo país com o maior porcentual de estudantes que dizem ficar ansiosos durante as avaliações, 80,8% - atrás apenas da Costa Rica (com 81,2%). A taxa brasileira é muito superior a média dos países da OCDE, que foi de 55,5%. 

Para 56% dos alunos brasileiros estudar também gera muita tensão - na média dos países da OCDE, 36,6% dos estudantes se sentem tensos quando estudam. 

De acordo com o relatório, a ansiedade com as atividades escolares, como lições de casa e provas, está relacionada com uma pior performance em ciência, matemática e leitura. Em geral, 63% dos estudantes com os menores rendimentos em ciências e 46% dos que têm maior rendimento dizem sentir ansiedade para as provas não importa quanto tenham se preparado para elas. 

A estudante do 1º ano do ensino médio Rebecca Deslandes, de 15 anos, aluna do Colégio Mopi, no Rio, conta que a ansiedade aperta na hora de fazer provas e que isso atrapalha a sua organização ao fazer os exercícios. “Na minha turma costumo ser uma das últimas a terminar”, conta. Para evitar que isso prejudique seu desempenho acadêmico, a aluna conta que tenta se organizar para estudar mais nas disciplinas que tem mais dificuldade. O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que ela fará só daqui dois anos, também já é uma preocupação. “Isso (a ansiedade) vai me prejudicar em relação ao tempo necessário para fazer a prova”, diz.

Cultura. Para especialistas, a cultura avaliativa das escolas brasileiras contribui para que os estudantes se sintam pressionados e, portanto, ansiosos durante as provas e momentos de estudo. "A cultura das escolas brasileiras (privadas ou públicas) se volta predominantemente para duas finalidades: a classificação dos alunos em relação ao restante da turma e sua aprovação (ou reprovação). Aprende-se e ensina-se para a prova e para passar de ano", disse Antônio Gomes Batista, coordenador do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).

Para Simone André, gerente-executiva de Educação do Instituto Ayrton Senna, a valorização da avaliação e sua função "punitiva" para o aluno que não sabe o conteúdo cobrado podem levar à ansiedade. "Os currículos brasileiros e nossas escolas não valorizam o erro. Errar é imprescindível como forma de aprendizado, de desenvolvimento de competências. Precisamos ajudar professores e estudantes a entender a importância do erro".

Segundo o relatório do Pisa, a ansiedade diante das provas não parece estar ligada a um excesso de avaliações, já que os porcentuais de alunos ansiosos foram parecidos em países que fazem avaliações padronizadas com frequência e aqueles que as realizam menos. "Não é a frequência dos exames, mas a percepção dos alunos sobre essas provas serem mais ou menos ameaçadoras."

O relatório afirma que os professores podem reduzir o estresse ao ensinar regularmente métodos eficientes de estudo, revisar o conteúdo normalmente cobrado em provas e fazer simulados. "A forma como os professores se comunicam com eles sobre as tarefas e as provas também é importante. Sob pressão para melhorar o desempenho dos alunos, os professores tendem a enfatizar que eles precisam se sair bem nas provas para conseguir um bom emprego ou vaga na universidade, mas essa abordagem pelo medo dos alunos pode fazer com que se sintam ameaçados e muito mais ansiosos", diz o estudo.

Para Batista, nas escolas brasileira há ainda uma "forte crença" na reprovação do aluno como um recurso pedagógico para que ele aprenda a se esforçar mais. "Pois a reprovação seria unicamente resultante de sua irresponsabilidade e falta de esforço. Nunca um problema do modo de ensinar e da ausência de intervenções precoces para corrigir distintos ritmos de aprendizagem."

Bullying. O relatório também mostrou que 17,5% dos estudantes brasileiros disseram já ter sido alvo de algum tipo de bullying na escola. O porcentual é menor do que na maioria dos outros países (a média dos países foi de 18,7%), como a China, que aparece com o maior índice de alunos que se dizem vítimas de bullying (32,3%), Tunísia (28,2%) e Nova Zelândia (26,1%). 

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