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Pílulas de depressão

Viram moda no Twitter os perfis 'da depressão', nos quais alunos zombam da rotina universitária

Cedê Silva, Especial para o Estadão.edu

27 Setembro 2011 | 02h53

Esta história começa com uma taxidermia mal-feita. Para quem não se lembra, taxidermia é o ofício de empalhar animais. Pois a foto de um cão toscamente empalhado inspirou em 2009 a criação do site americano DepressionDog.com, que publica frases como “Chama-se sonho porque nunca vai acontecer” e “Você não disse que a amava. Agora é tarde demais.” A ideia ganhou uma versão brasileira, o twitter 'Cão da Depressão'. E se até o sertanejo tem uma versão universitária, o Cão também tem, já que sua imagem é reproduzida em inúmeros perfis semelhantes: USP da Depressão, PUC-SP da Depressão, Medicina da Depressão (aqui, uma cabeça reptiliana substitui a canídea) e muitos outros.  Frases como “não trate por pré-requisito quem te trata por optativa" e "mãe de biólogo é igual Google. Quando você foi fazer a inscrição da Fuvest ela disse: 'você quis dizer Medicina'"? viram hits instantâneos.

Os perfis 'da depressão' são quase todos administrados por pessoas que preferem não dar entrevistas, mas o Estadão.edu conseguiu conversar com quatro deles. São os donos das versões depressivas de ESPM, Uniban, Unesp e Unip. Se os três primeiros são escritos com a tecla da galhofa, a administradora da quarta julga-se hoje a ouvidoria da universidade. Eis suas histórias.

ESPM da Depressão. "As aulas já voltaram. Você ainda não" e "Espere sua nota. Espere. Espere. Espere" estão entre as mensagens mais republicadas deste twitter. O administrador diz ser um aluno de Publicidade de 21 anos, e procura candidatos para substituí-lo. "Não fará sentido seguir com o perfil depois de me formar", conta. "Sempre fui muito fã do Cão da Depressão, e achei que poderia me inspirar na vida acadêmica pra transmitir todos aqueles momentos "depressão" que vivemos no dia-a-dia da faculdade", afirma. E vende o peixe: "me preocupo apenas em mandar tweets de humor seletos, sem poluir a timeline. Não estou preocupados com números, e sim na diversão da galera que se identifica com as publicações".

Uniban da Depressão. Pouco depois de anunciada a compra pelo grupo Anhanguera, este perfil começou a falar em "crise de identidade", que aliás é sua atual descrição. Apesar dessa situação bem específica, os seguidores preferem as mensagens compreensíveis por qualquer estudante: "normalmente os tweets mais republicados são sobre algo que toda faculdade tem em comum, como semana de provas e a sexta-feira quando todo mundo mata aula e vai para o bar, enquanto meia dúzia de gatos pingados (incluindo eu hahaha) estão por lá estudando", diz o administrador, que se identifica como Marcelo Enrique. No início, uma panelinha de dois homens e duas mulheres cuidava do Twitter, mas hoje Marcelo toca o barco sozinho. Ele diz jamais publicar ofensas à instituição, e conta que conversa bastante com os seguidores, tendo realizado até um sorteio. O vencedor levou uma das maiores ferramentas universitárias: um baralho.

Unesp da Depressão. "Não fique esperançoso, a chance do satélite cair na cabeça daquele professor que vc odeia é quase nula". O @unespdepressao é um dos perfis mais ligados no noticiário. "Tento me manter o mais informado possível, não só de coisas da Unesp mas de assunto gerais também. Se consigo garimpar alguma piada de alguma notícia do mundo universitário, twitto", revela o aluno 'Matheus', que diz cursar Engenharia Mecânica em Bauru. Para ele, "o que mais diferencia o Unesp da Depressão dos outros perfis é ser uma universidade multicâmpus, na qual os alunos se veem todos em raros momentos, como nos jogos InterUnesp". 

Perfis como o dele devem ser encarados com bom humor, diz: "as pessoas pensam que por ser um perfil “da depressão” vai lançar só tweets que depreciem a imagem da universidade. Na verdade é apenas uma forma cômica de expressar nosso dia a dia, amor e apreço por nossa instituição de ensino".

Unip da Depressão. Formada há mais de um ano, a ex-aluna que administra este perfil até hoje não conseguiu seu diploma. Após um bate-boca com um professor que fala muito palavrão e uma sequência de dores de cabeça com o atendimento da Unip, foi ali, na fila da secretaria mesmo, que ela decidiu criar um perfil no Twitter, com o qual se tornou, em suas próprias palavras, "a ouvidoria da universidade". A maior parte das mensagens não é piada, mas reclamações, do tipo "Hoje fui mudar meu horário de aula. Fiquei 40 minutos esperando ser chamado. Quando fui atendido, não dava p mudar o horário" e "Parabens @unipdepressao por me convocar pro #enade e inexplicavelmente ter cancelado minha matricula. Como fazer o exame?".

Uma vez que a administradora não frequenta mais a faculdade, quase todas as mensagens são republicações dos mais de 800 seguidores. De acordo com ela, janeiro e julho - épocas de matrícula - são as épocas com mais críticas e xingamentos à universidade. Este perfil é o que menos se parece com todos os outros. Que o diga este ex-aluno: "Esse mês foi minha colação de grau na @unipdepressao!! Acho que eu já teria ficado doido se eu ainda estivesse lá!!".

Outro lado. A assesoria da Unip disse que não irá participar da reportagem, "porque acabamos de ter conhecimento sobre o que você nos relatou". A ESPM informou que, como qualquer instituição, monitora o que acontece nas redes sociais, mas não interfere. A Uniban também preferiu não comentar sua versão depressiva no Twitter. A Unesp lembrou que, enquanto a versão 'depressão' ainda não chegou a 3 mil seguidores, o perfil oficial, @unespreitoria, tem mais de 9 mil.

Por falar nisso, 'Matheus', aquele da Unesp da Depressão, publicou nesta segunda-feira: "O @UNESPdepressao foi entrevistado pelo @estadao. Ninguém vai ler a matéria."

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