JF DIORIO/ ESTADÃO
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Pela 1ª vez, maioria dos matriculados na Unicamp é de escola pública

Universidade adota sistema de bonificação; meta de alcançar 35% dos ingressantes autodeclarados pretos, pardos ou indígenas não foi alcançada

Isabela Palhares, O Estado de S. Paulo

03 Abril 2017 | 20h21

Pela primeira vez, o número de alunos matriculados na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que estudaram em escola pública é maior do que os de escola particular. Após a última chamada para o preenchimento das vagas oferecidas pela instituição, o índice de ingressantes que estudaram na rede pública foi de 50,3% - no ano passado, era de 47,6%. A Unicamp não adota cotas, mas um sistema de bonificação, o Programa de Ações Afirmativas e Inclusão Social (PAAIS).

É a primeira vez que a universidade matricula mais da metade dos candidatos vindos de escola pública e assim alcança a meta que havia estipulado para 2017. A meta aprovada pelo Conselho Universitário da Unicamp (Consu), em 2013, também previa alcançar neste ano 35% dos ingressantes autodeclarados pretos, pardos ou indígenas (PPI), o que não ocorreu - eles foram apenas 22% dos matriculados, porcentual inferior ao de 2016, que foi de 22,4%. 

Apenas cinco cursos da Unicamp conseguiram matricular mais de 35% de alunos PPIs: Ciências Econômicas, Engenharia de Controle e Automação, Licenciatura integrada de Química e Física, Química Tecnológica e Geologia. Neste último, o porcentual de PPIs foi de 45%. 

É o segundo ano em que a Unicamp aumenta a bonificação no vestibular para os alunos de escola pública e PPI. A mudança ocorreu depois de a instituição obter, em 2015, o pior resultado de inclusão social, com a proporção de oriundos de escolas públicas de apenas 30,2% e 15,7%, de PPIs. Em 2014, a taxa havia sido de 36,9% e 18%, respectivamente. 

À época, a avaliação interna da Unicamp foi a de que seriam necessárias políticas mais agressivas para atingir o objetivo de inclusão.Com a mudança, os candidatos passaram a receber o bônus nas duas fases do vestibular - antes ela só ocorria na segunda etapa. "Após as mudanças no PAAIS, é possível perceber o impacto positivo para a inclusão social", disse Edmundo Capelas de Oliveira, coordenador executivo da Comvest, responsável pelo vestibular. 

Desafio. Alex Paulo Conrado, de 20 anos, começou a estudar a partir dos 10 anos em escola pública depois de ter repetido de série. Ele foi um dos aprovados no curso de Midialogia - o terceiro mais concorrido da Unicamp, com 47 candidatos disputando uma vaga, e fica atrás apenas de Arquitetura e Urbanismo e Medicina. 

Conrado trabalhava na prefeitura de Sumaré, onde mora com os pais, das 8h às 17 e depois viajava para Campinas, onde estudava na rede Emancipa, cursinho popular, gratuito, que tem estudantes universitários como professores. "Foi um ano muito difícil, era só trabalho e estudo. Qualquer tempo que tinha livre, no ônibus e os finais de semana, eram só para estudar", contou.

Mais novo de três irmãos, ele foi o primeiro da família a entrar em uma universidade pública. "Meus pais ficaram muito felizes e orgulhosos. Foi uma surpresa muito grande até pra mim, eu fui aprovado também na Universidade Federal da Integração Latino-Americana [Unila, em Foz do Iguaçu] e na USP", disse. Ele decidiu pela Unicamp porque conseguiria continuar morando com os pais e teria menos gastos. 

Ele disse estar muito feliz por estudar na Unicamp, mas criticou que a instituição não consiga garantir bolsa e auxílio para todos os estudantes de baixa renda. "Na minha sala, muitos vieram de escola pública e nem todos recebem auxílio. Eu ainda consigo me virar, trabalho em peças de teatro aos finais de semana, mas, para quem vem de outras cidades, é bem puxado", disse. 

A Unicamp tem uma moradia estudantil, em Campinas, que conta com 958 vagas para estudantes de baixa renda. Para os alunos que não conseguiram vaga e os que estudam nos câmpus de Limeira e Piracicaba, oferece bolsa de auxílio moradia, um valor que podem utilizar para aluguel. Também oferta outras 6 bolsas para alimentação, transporte, pesquisa, etc. O valor máximo é de R$ 876,81.

Revisão. A Unicamp iniciou neste ano um debate em suas unidades sobre a adoção de cotas. A instituição também avalia o uso do PAAIS, já que a medida pode ter beneficiado alunos de escolas técnicas e federais, que já tem um vestibulinho e, portanto, têm alunos que não são de famílias de baixa renda. Marcelo Knobel, que venceu a última consulta pública para reitor - e aguarda a nomeação do governador Geraldo Alckmin -, disse que vai analisar o programa e estudar a possibilidade de incluir novos critérios aos beneficiados.

"Até o presente momento, o quesito renda não se encontra vinculado ao PAAIS. A definição de escola pública não distingue as escolas, diferenciando-as de 'elite' ou 'não elite'. Já foram elaboradas várias simulações que incluem não só renda, mas número de séries cursadas na rede pública", disse Oliveira. Qualquer mudança no programa deverá ser aprovada no Conselho Universitário, órgão máximo da instituição. 

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