Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Para o futuro, pesquisas de impacto

Manter a dianteira exige aumentar a relevância internacional. As perspectivas são boas: 23% da produção científica do País veio de lá em 2013

Paulo Saldaña, O Estado de S. Paulo

24 Janeiro 2014 | 03h00

O diagnóstico existe: aumentar o impacto das pesquisas é o maior desafio científico da USP para as próximas décadas. Mas dar o próximo passo e fazer o que é preciso para a universidade figurar na vanguarda mundial da ciência é o mais difícil.

Em termos de condições, a USP tem as melhores do País. No ano passado, 23% da produção científica brasileira veio de lá, índice que se mantém praticamente estável nos últimos anos. A universidade é a instituição que mais forma doutores no mundo e responde por 20% dos doutorados do Brasil. Há dez anos, esse índice era ainda maior, de 25%. Entretanto, a quantidade nem sempre é sinônimo de relevância - e a própria comunidade científica tem se questionado sobre os novos rumos da pesquisa.

Artigos publicados em revistas de renome e quantas vezes esses estudos são citados por outros pesquisadores são alguns índices de medem esse impacto. A obtenção de novas patentes também é quesito analisado.

Para o físico Luiz Nunes, pró-reitor de Pesquisa da universidade entre 2001 e 2005, há condições financeiras na USP, mas os pesquisadores precisam "ousar mais". "A gente segue muito as linhas já desbravadas. Precisamos de novas frentes criadas por nós", diz. Nunes cita como exemplo o número de publicações na Nature e na Science, duas das revistas científicas mais renomadas do mundo.

No ano passado, oito trabalhos da USP foram publicados - de um total de 28 do Brasil. Mesmo comparando com universidades estrangeiras que não estão entre as mais importantes, o resultado deixa a desejar: a americana Rutgers teve 26 publicações nas duas revistas e a de Copenhague, 38, por exemplo.

Internacional. O pesquisador Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), também aponta para a necessidade de a USP se colocar "mais perto da fronteira da ciência".

"É preciso ter mais interação com os melhores do mundo, mais interação internacional", diz. O que significa, sobretudo, mais professores estrangeiros na USP e mais intercâmbio de alunos e pesquisadores.

Especialista em análise de produção científica, Rogério Meneghini lembra que o País é limitado para criar estímulos, o que pesa no contexto geral. "E a colaboração internacional ainda é fraca no Brasil, em torno de 20% dos trabalhos publicados, contra índices de 50% a 60% em países da Europa", diz.

O professor Júlio Cesar Batista Ferreira, de 33 anos, sentiu os benefícios durante sua permanência na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, onde fez parte do doutorado e o pós-doutorado. "A ideia de desenvolver a ciência com um propósito é muito forte. Questiona-se sempre se a ideia serve para algo ou é só para fazer um artigo", diz ele, que desde 2012 é professor do Departamento de Anatomia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP.

Ferreira pesquisa a deterioração do sistema cardiovascular e desenvolveu uma molécula, em parceria com Stanford, que pode reverter processos celulares degenerativos. Esse tipo de interação é apontado como um dos caminhos para melhorar a relevância da ciência.

Críticos questionam ainda a baixa participação de empresas na USP. Dados da Fapesp mostram que, na universidade, o dinheiro privado responde por 5,1% do financiamento de pesquisas - menor do que na Unesp e Unicamp, mas próximo da média dos EUA, de 5,8%. Nesse sentido, Luiz Nunes diz que há um ciclo, que deve ser quebrado. "A universidade não consegue fazer o que quer e a empresa nem sabe como se aventurar nesse campo."

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