MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO
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Para bolsistas, a busca é por cursos no País

Institutos oferecem programas de orientação profissional para alunos sobre o mercado de trabalho e a área acadêmica

Isabela Palhares, O Estado de S. Paulo

14 Setembro 2015 | 07h40

SÃO PAULO - Enquanto os colégios buscam mostrar como são as faculdades no exterior, institutos que oferecem orientação profissional para alunos bolsistas têm a preocupação de mostrar todas as possibilidades de cursos e instituições brasileiras. É o caso do Ismart, um instituto que identifica jovens de baixa renda de 14 e 15 anos e os concede bolsas em colégios de elite. Ao todo, o programa tem mil alunos bolsistas em São Paulo e no Rio de Janeiro.

"Eles convivem com alunos que vivem outra realidade social, mas o seu referencial de profissão e escolha de universidade é diferente. Por isso, nosso trabalho com eles é de mostrar todas as possibilidades acadêmicas e do mercado de trabalho", contou Inês França, gerente do Ismart.

O trabalho de apresentação dos cursos com os alunos começa no 1.º ano do ensino médio, tendo o foco inicial na descoberta de suas habilidades e principais interesses.

"Queremos mostrar que eles devem fazer o que gostam e não o que as outras pessoas esperam deles, mas também nos preocupamos em mostrar a diferença entre o que querem como hobby e como profissão", afirmou.

O instituto também reforça as palestras e encontros com profissionais de várias áreas para conversar com os alunos. "As áreas mais procuradas pelos alunos ainda são as mais tradicionais, como Medicina, Direito e Engenharia. Mas sinto que eles estão abrindo mais a cabeça para novas opções. Eles querem deixar a sua contribuição para a sociedade, causar um impacto e não só ter uma profissão", disse Inês.

Medicina. Paulo Ricardo Martins, de 16 anos, estuda no colégio Objetivo com bolsa do Ismart e conta que desde os 12 anos dizia que queria ser médico. No ano passado, ainda no 2.º ano do ensino médio, ele teve nota suficiente para ser aprovado em duas universidades federais para Medicina. No entanto, disse ter descoberto que não quer seguir a profissão.

"Nós fizemos uma atividade com alunos de escola pública e eu fui me interessando cada vez mais pelo lado social, em como poderia contribuir mais para a sociedade. Foi aí que descobri o curso de Administração Pública e decidi mudar", contou.

Martins disse que seus pais - ele mecânico de refrigeração e a mãe dona de casa - ainda não aceitaram por completo a mudança. "Eles dizem que, sendo médico, eu vou ter mais segurança profissional. Acho que eles têm razão, mas essa escolha não depende apenas da questão econômica, mas do que eu quero para mim."

Desinteresse no Brasil entre elite tem motivo profissional. Para especialistas em Educação, o desinteresse dos alunos de colégios de elite pelas universidades brasileiras é causado mais pela busca de diferencial profissional do que necessariamente por um ensino de melhor qualidade. 

Rodrigo Travitzki, doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), disse que com a maior oferta de vagas em instituições públicas nos últimos anos é “natural” que aqueles que têm melhores condições econômicas busquem um diferencial. “Todo profissional quer um diferencial, e as elites podem pagar por isso. Há 10 anos estudar na USP ou Unicamp, as mais reconhecidas do País, era um grande diferencial, hoje não é mais o suficiente, já que há uma maior oferta de vagas e políticas de acesso para alunos de escolas públicas”, disse o pesquisador.

Silvia Colello, professora da Faculdade de Educação da USP, também disse acreditar que o desinteresse não se deve exclusivamente à procura por um curso de melhor qualidade, mas por uma valorização dos estudos. “Os cursos nas melhores universidades brasileiras não perdem para as do exterior em qualidade, mas vemos que nossas faculdades sofrem com a falta de recursos, professores e isso acaba dominando a visão dos nossos jovens.”

Para Silvia, o contexto político e econômico do País também pode influenciar a decisão dos jovens, mas ela alerta para que pensem no futuro das carreiras, já que há uma dificuldade em conseguir a validação de diplomas estrangeiros.

“Há uma soma de fatores, as famílias estão desencantadas com o Brasil, preocupadas com a crise financeira e a experiência de viver em outro país é uma possibilidade de enriquecimento cultural. Mas esses jovens precisam pensar também na carreira, na validação do diploma para depois não terem dor de cabeça extra”, disse Silvia.

Currículo. Para os especialistas, as universidades brasileiras deveriam pensar em formas de flexibilizar os currículos dos cursos para ajudar os alunos na escolha da profissão, como ocorre em instituições no exterior. “Ter um ciclo básico de disciplinas para cada área é interessante para que o aluno esteja mais seguro, mais entendido e maduro quanto à escolha da sua profissão”, disse Silvia.

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