Os PMs da FFLCH

Para policiais-alunos, objetivo de operação na USP foi defesa do Estado de Direito

Bruno Paes Manso,

29 Junho 2009 | 13h09

Eles são policiais militares e, mesmo depois de a PM deixar ter deixado a Cidade Universitária, vão continuar ocupando as dependências da USP, mais precisamente as salas de aula da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), reduto do movimento grevista entre os estudantes. Levando a vida dupla de alunos de Ciências Sociais da USP e de oficiais da PM, eles conversaram com a reportagem sobre como enxergam a greve e como viram a presença de policiais no câmpus. No ápice da crise, no dia 9 de junho, quando integrantes da Força Tática do 4.º Batalhão entraram em confronto com alunos no câmpus, a capitã da PM Tania Pinc, de 42 anos, aluna de doutorado do Departamento de Ciência Política, postou um desabafo para o grupo de discussão da FFLCH na internet: "Nesses momentos parece que carrego a pedra de Sísifo", escreveu, em referência ao mito grego condenado a empurrar eternamente uma pedra até o cume de uma encosta e vê-la rolar para baixo. "Quando o nível das discussões parecem melhorar, ocorre um episódio como esse e o debate volta a ficar complicado", diz. No mestrado e no doutorado, a capitã estuda o uso da força pela polícia. Ela defende os procedimentos adotados pelos policiais no dia do confronto como um exemplo do que deve ser feito pela polícia moderna. A Força Tática foi chamada depois que quatro policiais foram cercados por alunos e funcionários. Uma medida extrema, que ainda não havia sido tomada quando grevistas bloquearam entradas e ruas da USP. Cercados, em vez de reagirem ou usarem armas, eles chamaram o reforço pelo rádio. Para o resgate, o comando decidiu pela intervenção da tropa especializada em lidar com tumultos com armamentos não letais. "Foi uma decisão tecnicamente correta que seria usada tanto em Harvard como na USP. O problema é que poucos estudam a polícia na universidade e essa discussão acaba não sendo feita." O tenente João Henrique Martins, de 33 anos, graduou-se na faculdade de Ciências Sociais, defendeu em março o mestrado em Ciência Política e já participa do processo seletivo para o doutorado. No dia seguinte aos conflitos, viu nos jornais uma foto de um estudante usando um livro como escudo diante dos policiais. Martins considera aquela imagem, que o fez viajar de volta aos tempos do regime militar, como um símbolo de todo o episódio. "A cena é irônica porque eu já havia lido aquele livro que o estudante segurava no curso de ciência política. Além disso, a polícia seguia a Constituição de um regime democrático e cumpria uma ordem judicial. A corporação mudou, mas os manifestantes parecem que pararam no tempo, agindo como se a polícia fosse representante de uma ditadura e não do Estado de Direito." Os cinco oficiais/estudantes da FFLCH com quem a reportagem conversou concordam em pontos importantes em relação à manifestação. Todos fazem juras de amor à USP e à PM; defendem o direito à greve e a legitimidade das reivindicações dos grevistas; discordam da maneira como os protestos foram feitos, com piquetes que danificaram equipamentos da USP, ameaçaram professores que queriam dar aulas e bloquearam acesso dos estudantes à universidade. Defendem a PM como a única instituição com o papel de usar a força para garantir direitos, tipo de ação, eles argumentam, que foi feita. "Reivindicações com uso da violência estão ultrapassadas e poderiam ser reavaliadas pelos movimentos. Fico preocupado porque isso leva a acirramento tanto à esquerda quanto à direita na USP", diz o capitão Emerson Massera, de 36 anos, estudante de Ciências Sociais. Massera é um aluno empenhado do 3º ano, com média geral de 7,9, em busca do 8. Trabalhando no setor de Comunicação da PM, foi o encarregado de fazer contato com toda a imprensa, além de escrever notas durante a greve. Na noite do confronto, quase não dormiu. "Apesar da tensão, nunca tive problema em ser policial e estudante. A maioria dos alunos se cansou do excesso de greves, porque todos saem prejudicados. O movimento precisa encontrar outros caminhos para protestar." Com graduação em Direito no Largo São Francisco e aluno do doutorado em Ciência Política, o major Glauco Silva de Carvalho acredita que hoje existem cinco visões diferentes na USP no que diz respeito à presença da polícia. Os mais à esquerda, influenciados por ideias marxistas, enxergam a corporação como instrumento de opressão de classe. Os mais à direita, defendem a opressão à qualquer manifestação. Pouco há o que dialogar com eles. Um terceiro grupo, os elitistas, acham que a polícia não é para quem estuda na USP, mas para os outros. Ainda existem aqueles com uma visão autárquica, que defendem a autonomia da USP mesmo quando isso leva à desordem. "Eu me incluo em um quinto grupo. Defendo que a universidade deva ter autonomia e que é o locus da diferença e dos debates. Mas a partir do momento em que direitos são desrespeitados, é preciso intervir", diz Carvalho. "Se houver excessos dos policiais, devem ser apurados. Mas o Estado de Direito deve ser resguardado." 

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