‘Os cursos a distância vão se impor agora’, diz ex-reitor Hélio Guerra

Professor foi reitor da USP entre 1982 e 1986

Bárbara Ferreira Santos,

24 Janeiro 2014 | 03h00

Antonio Hélio Guerra Vieira foi um dos pesquisadores que liderou a construção do primeiro computador brasileiro, o Patinho Feio, em 1972. Foi reitor da USP entre 1982 e 1986, presidiu a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e o Instituto de Engenharia de São Paulo. Na entrevista ao Estado, falou sobre a construção do primeiro computador do Brasil e sobre a gestão da universidade no período de abertura democrática após a ditadura.

O senhor foi um dos pesquisadores que liderou a equipe que construiu, em 1972, o Patinho Feio, o primeiro computador brasileiro. Como ocorreu a construção desse computador?

A Politécnica, de uma maneira quase sistemática, atualiza seus currículos. Na segunda metade dos anos 60, a engenharia elétrica começou a se digitalizar. Foi iniciado um programa de reformulação de uma parte do currículo para tornar os cursos digitais. Eu participei desse processo. Comecei a fazer uma proposta de um curso de engenharia elétrica opção digital, fiz muitos contatos com a Alemanha, França e com EUA, com Stanford e MIT. A gente estava meio que na mesma orientação e na fronteira da evolução. Todos estávamos preparando currículos para ensinar engenharia elétrica digitalizada. E fizemos com que os professores aprendessem engenharia elétrica digital, tivemos que aprender. A melhor maneira era fazendo coisas. A gente comprou um computador da IBM, que custou caro: 11 milhões de dólares. A nossa ideia era instalar periféricos que não eram originais da IBM e que tinham que ser desenvolvidos, como sistemas de entrada e saída usando máquinas de escrever elétricas. Com esse processo a gente foi aprendendo a lidar com a parte interna do computador, que era um tabu. Naquela época só se tinha acesso ao software e passou a se ter acesso a hardware também, saber como era por dentro. Entre outras iniciativas, a gente começou a trazer especialistas do exterior. Como exercício de um dos cursos, a gente sugeriu e eles toparam fazer um modelo de computador pequeno e esses alunos fizeram. O computador recebeu, depois, o nome patinho feio. Nessa época eu era professor titular, catedrático, da Politécnica. Nessa época eu que liderei esse processo todo, a criação do novo curso, a internacionalização do curso, o desenvolvimento da competência dos professores.

Por que patinho feio?

Naquela época a gente estava disputando grande contrato com a marinha para desenvolver computadores para equipar fragatas que a Marinha tinha comprado na Inglaterra e que eram todas automatizadas por dentro, que eram chamados de ferrantes. A marinha queria ter um fornecedor local desses computadores. Então na disputa por esse contrato a gente estava de olho no que a Marinha queria fazer e a Universidade Estadual de Campinas queria fazer. Eles pegaram um Rio de Janeiro que era do ramo. Chamaram o projeto deles de Cisne Branco, que é o hino da marinha. A gente achou meio esquisito, e a gente estava fazendo um computador. Então os meninos para contrapor uma alternativa e fazer um pouco de quase que gozação, fez o exercício do fim do curso de Arquitetura de Organização de Computadores, de projeto ‘Patinho feio’. E não deu outra. O reitor, que era Miguel Reale, convidou o governador, que convidou vários almirantes. Foi uma cerimonia muito grande, badalada. A essa altura do campeonato, a Marinha era “nossa”. Nós fizemos um projeto enorme para a época, que envolveu 60 profissionais de ensino superior e custou na ordem de 15 milhões de dólares, que valia mais que vale hoje. Foi um projeto que teve sucesso. Dois anos depois de iniciado, estava tudo pronto. A Marinha transferiu a receita usada para fazer esse computador para uma firma que existia no Rio de Janeiro e produziram séries desse computador, chamado G10. O Patinho Feio hoje está na antessala do diretor da Politécnica. O G-10 está no almoxarifado da marinha.

Que desafios o senhor encontrou na reitoria?

Foi uma época muito interessante. Eu digo sempre que reitor é bom ter sido porque enquanto a gente é, é sofrido demais. Enfrentei problemas interessantes. Eu tive que administrar aquela ‘caixa de ressonância’ no período de redemocratização do País. Havia várias iniciativas dos militares que comandavam e a abertura estava iniciada e havia um grupo que queria criar problemas para que a redemocratização não ocorresse. Então, criavam dificuldades. Os próprios alunos provocavam muito e queriam provavelmente que aparecesse uma pessoa ferida ou quem sabe um cadáver, porque isso ia complicar o processo de abertura. Deu para administrar tudo e a USP não atrapalhou o processo de abertura. Pelo contrário, acho que ajudou. Tive dificuldade financeira porque o governo do Estado, a essa altura era o (André Franco) Montoro era um pouco sitiado pelo pessoal da Unicamp. Então tive dificuldades orçamentarias grandes. Mesmo assim foi possível por para funcionar 100% o Hospital Universitário, sitiar o Clube dos Professores.

Quando chegou na reitoria, o senhor se deparou com a Assessoria Especial de Segurança e Informação, um órgão da ditadura e foi acusado de queimar documentos da época...

Quando o reitor anterior se despediu, ele pegou o paletó e foi embora para Portugal. Eu não tive nenhuma orientação de qualquer natureza. Descobri que tinha uma sala onde havia um general chamado general Franco, que era funcionário do Goldemberg [José Goldemberg], que era presidente da  Cesp (Companhia Energética de São Paulo). O general mantinha um grupo que dava parecer pelo qual passavam todos processos de contratação da USP, tanto de professores quanto de funcionários. Quando, por uma razão política, eles não queriam uma contratação, eles simplesmente guardavam o processo e não repunham no caminho normal. Eu soube que funcionava assim e sabia que não era um processo previsto na hierarquia da USP. Consultei algumas pessoas, como o delegado (Romeu) Tuma, que por razões particulares era amigo meu. Ele falou para eu conversar com o comandante do 2º Exército. Eu fui e disse que o serviço não nos interessava mais. Eu disse para o general Franco voltar para a Cesp. Eu disse que se eu precisasse dele, mandava chama-lo. Ele me fez uma exigência: que um carro fosse busca-lo. Eu nunca chamei. As oito ou dez pessoas a partir daí sumiram, cada um voltou para a posição de origem. Deixaram a sala com os arquivos. Eu fui lá olhar. Os arquivos tinham processos pendentes. Eram cerca de 12 processos de contratação. Eram processos aprovados internamente na USP, então mandei contratar todo mundo. Eram 12 e, na época eu brinquei: ’12 comunistas a mais ou a menos na USP não vai fazer diferença nenhuma’. Eles nem eram comunistas. Alguns já estavam com a vida resolvida fora e outros foram contratados. Um em particular era a contratação de uma engenheira para a Escola Politécnica, esposa de um colega meu. O que estava prejudicando o andamento de processo dela é que ela teria sido irmã de um perigoso anarquista que tinha vindo da Itália no século 20. Quando encontrei o marido dela, ele me explicou que o parente era, na verdade, dele e que não era anarquista e nem era militante político.

E houve queima desses documentos?

O chefe da consultoria jurídica, Humberto Filgueiras, descobriu um decreto que dizia que quando um executivo da administração pública encontrava documentos na área dele que estavam carimbados como secretos e que não quisesse mais utilizar, tinha a obrigação de mandar queimar. Eu não tive dúvida, mandei queimar. Depois disso eu sofri uma tentativa de enquadramento durante toda a gestão do André Montoro, me acusaram do crime de obedecer a lei. Só quando mudou o Procurador geral do Estado e mandou arquivar, porque não encontraram nada, nenhum crime, para me indiciar. O que houve é que eu desmontei a triagem ideológica que era feita no processo de contratação de pessoas na USP, tanto de professores e de funcionários. Tenho orgulho disso. Eu contei recentemente isso quando fui entrevistado pela Comissão da Verdade da USP, há uns dois meses. Ela existe e estava curiosa para saber quem tinha montado esse sistema de triagem ideológica da USP. Fora da USP a gente sabe, mas dentro da USP a gente não sabe quem foi o reitor que começou. Eu falei que encontrei pronto e não sei qual o início do processo, mas sei o fim. 

Professor, e sobre o futuro, é possível aumentar a produção científica da USP?

O crescimento da produção científica é natural e está acontecendo. Não tem como forçar o crescimento. Você pode criar condições para isso e isso está ocorrendo na USP e está bom. Você pode valorizar, para a evolução na carreira, o currículo científico. A prestação de serviços é outro critério é outro critério que deve ser considerado, até um pouco mais, dentro da evolução da carreira. O que me dá medo é que existem novidades no cenário educacional e essas novidades acho que deverão impactar muito a USP nos próximos anos. O aparecimento do computador já foi uma grande novidade. Eu me lembro que eu anunciei uma vez e implementei a compra de 800 computadores para uso de professores da USP, para uso dos professores, na primeira metade dos anos 80. Era o começo da era dos computadores pessoais, que são poderosos e cabem em cima de uma mesa. E depois não parou mais, foram comprados cada vez mais até uma grande central de computação eletrônica. Isso foi um primeiro impacto da digitalização em todos os cursos da USP. O segundo impacto vamos ter agora e vai ser muito grande, que são as consequências da internet. A internet vai mudar o perfil das escolas. Daqui a dois anos ou quatro anos o curso ortodoxo como eu assisti e como eu também lecionei, que é aquela sala cheia de carteiras, com alunos tomando nota e um professor falando mais ou menos com competência e mais ou menos com erudição, acabou. Esse tipo de curso vai acabar mesmo e em prazo muito curto. Eles serão substituídos por cursos a distância. Os alunos da USP não serão de São Paulo e dos arredores, mas vão ser alunos de todo o Brasil, quiçá do mundo. A gente vai ter muitos de família brasileira, que falam português e sabem a importância da USP e de suas faculdades e vão escolher fazer um curso na USP. Cursos à distancia vão impor, queira ou não, uma nova formulação da graduação. Os cursos de graduação serão oferecidos à distância, eventualmente com algumas aulas presenciais. Isso é a previsão mais séria que se pode fazer sobre a evolução da USP nos próximos anos, a revolução da graduação via uso muito grande das facilidades da internet. É uma oportunidade que o próximo reitor que o próximo reitor, que toma posse no dia 25, vai ter na gestão dele. O processo é inexorável, vai acontecer queiram ou não queiram as pessoas.

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