Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Olhar ‘verde’ une escola e profissão

Pós-graduações ajudam profissionais a lidar com questões de sustentabilidade no dia a dia

Luciana Alvarez, especial para o Estado

16 Janeiro 2018 | 06h00

SÃO PAULO - Questões ambientais complexas, como mudança climática e aumento da geração de resíduos sólidos, demandam profissionais que ajudem a criar estratégias de risco e a encontrar soluções. Esses profissionais têm ganhado espaço no mercado e hoje estão em diversos lugares: nas grandes empresas de todos os setores, governos, ou como consultores externos.

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Formada em Pedagogia e professora de ensino fundamental, Carla Marum é também coordenadora desde 2015 do grupo gestor de sustentabilidade do Colégio Miguel de Cervantes, em São Paulo. “Antigamente os projetos eram isolados e, portanto, não frutificavam. O objetivo do grupo é criar uma nova cultura, para que a preocupação ambiental faça parte do cerne da escola”, afirma. 

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Durante o primeiro ano foi feito um diagnóstico da realidade e, a partir dele, começaram as ações concretas: instalação de composteira e minhocário, cultivo de ervas, plantio de bosque de frutas nativas da Mata Atlântica, melhora na separação de lixo para reciclagem. “O próximo passo é incluir a sustentabilidade no currículo.” 

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Mas antes de assumir a nova função, Carla se preparou com uma pós-graduação em Gestão Estratégica da Sustentabilidade, da Fundação Instituto de Administração (FIA). “O curso me deu uma boa visão do mercado, mostrou o que as empresas estão fazendo para diminuir o impacto ambiental. As escolas também são empresas, embora nosso produto seja diferente.” 

Competências

Assim como o Colégio Cervantes, que passou a incluir a preocupação ambiental na sua cultura institucional, cada vez mais empresas vêm ampliando sua atuação com foco em sustentabilidade ambiental, social e econômica, garante Helen Camargo de Almeida, docente da área de Meio Ambiente do Senac São Paulo. 

“O mercado demanda competências em várias vertentes, que vão desde adequar a atividade produtiva à legislação ambiental, passando pela redução de impactos, até a melhoria do desempenho ambiental por meio do uso mais eficiente dos recursos”, afirma Helen.

Por ser um tema transversal, o trabalho com sustentabilidade agrega profissionais de diferentes áreas. Na equipe da companhia de cosméticos Natura, atuam juntas pessoas com formação em Biologia, Farmácia, Engenharia Florestal, Agronomia e Química, entre outros. “Temos um economista, que cria metodologias para valoração das nossas atividades de sustentabilidade”, cita Keyvan Macedo, diretor de sustentabilidade da Natura, formado em Engenharia de Alimentos.

Segundo Macedo, entre as características mais importantes para ter sucesso na área estão a visão sistêmica do negócio, e a capacidade de estabelecer bons relacionamentos. “Trabalhamos sempre em parceria com outras áreas e com parceiros de fora”, explica. 

Mas ele garante que o essencial é estar sempre atento a possíveis conexões entre desafios ambientais e oportunidades de negócios, algo que pode ser feito por profissionais de todos os setores e formações. “Não é porque você não trabalha no setor de sustentabilidade, ou porque sua empresa não tem esse setor, que você não pode exercer sua função estabelecendo conexões com os aspectos da sustentabilidade” , diz Macedo. 

 

Mudanças

O crescimento da preocupação ambiental pode ter aberto novas portas para o profissional de sustentabilidade, mas isso não significa que seja um mercado com emprego garantido. “Há 18 anos, quando entrei na faculdade, era uma aposta”, diz Felipe Zacari, sócio da consultoria em sustentabilidade Multiprest, que se formou na primeira turma de Gestão Ambiental do Senac. 

Se na época em que Zacari começou o grande empregador eram as indústrias, que buscavam seguir a legislação, hoje o leque abriu para setores como comércio e serviços, que já tentam fazer logística reversa dos produtos ou se preocupam com a produção de seus fornecedores. “A demanda cresceu, tanto por cobrança social, porque as pessoas têm mais facilidade para acompanhar a origem dos produtos, como pela legislação, como pela Política Nacional de Resíduos Sólidos. E também há mais concorrência”, diz Zacari. 

Outra mudança na área é que atualmente o impacto ambiental é tratado de forma conjunta com o social e o econômico, segundo Fernanda Gabriela Borger, coordenadora da pós-graduação em Sustentabilidade da FIA. Fernanda diz que ninguém deve esperar um crescimento extraordinário do setor no curto prazo, mas garante ser uma área em que há muitas opções. 

Mesmo com a concorrência, a complexidade do trabalho e os momentos de crise, Reinaldo Canto, diretor da Associação Brasileira dos Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável (Abraps), acredita que o mercado tende a crescer nos próximos anos, porque o desafio ambiental é imenso e não dá sinais de melhora. “Podemos destacar as mudanças climáticas, o gerenciamento de resíduos, as crises hídricas e as consequências do desmatamento e a perda da biodiversidade”, exemplifica o especialista. 

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‘Possibilidades na área variam de acordo com a região’

Líder da empresa de recrutamento ChaWork afirma que profissional deve observar vocação da cidade antes de investir

Entrevista com

Liliane Fernandes, CEO da empresa de recrutamento ChaWork

Luciana Alvarez, especial para o Estado

16 Janeiro 2018 | 07h00

SÃO PAULO - A CEO da empresa de recrutamento ChaWork, Liliane Fernandes, vê tendência de crescimento do setor de meio ambiente, com ampliação de oportunidades para pessoas formadas na área. 

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Liliane lembra, no entanto, que as vagas, por enquanto, estão restritas a empresas grandes e médias. “Nas pequenas e micro, que são as que mais empregam no Brasil, não há”, diz. Para evitar decepções, ela recomenda que se pesquise o potencial de cada região.

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Como a preocupação global com o ambiente reflete no mercado de trabalho?

Existem muitas oportunidades novas, funções como gestor de resíduos, que pode ser engenheiro ambiental ou químico. Mas as oportunidades estão restritas a empresas grandes e médias - nas pequenas e micro, que são as que mais empregam no Brasil, não há. 

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Quais formações mais tendem a crescer?

A principal é a de engenheiro ambiental. A Gestão Ambiental também avança, mas é um curso de Administração mais focado e mais curto. Os formados em Gestão tendem a ser menos valorizados e menos remunerados. E há muitas outras carreiras que podem atuar na área, como biólogos, químicos, engenheiros agrônomos, civis ou de energia.

Há regiões com mais oportunidades?

Elas são diferentes. Em algumas cidades, o único emprego para um químico é dar aulas. Mas, em uma zona industrial, ele pode trabalhar com destinação de resíduos, desenvolvimento de novos materiais. Um engenheiro de energia pode se dar bem no centro-norte do País, mas vai ter dificuldades na Região Sul. 

Raio X

61% dos profissionais do setor são mulheres, de acordo com a Associação Brasileira dos Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável (Abraps).

39 anos é a idade média dos profissionais da área. 

25% dos formados têm mestrado e 84% possuem formação superior completa. 

 

 

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