JF DIORIO /ESTADÃO
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Ocupação de escolas em São Paulo será tema de trabalho escolar

Para reduzir prejuízo ao calendário letivo, professores decidiram usar manifestações em colégios como estratégia pedagógica

Isabela Palhares e Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

16 Dezembro 2015 | 03h00

SÃO PAULO - Para reduzir os prejuízos ao calendário escolar causados pelas ocupações nas escolas estaduais, uma das unidades decidiu usar o momento como estratégia pedagógica. Professores da Escola Estadual Silvio Xavier, no Piqueri, zona norte de São Paulo, cobrarão dos alunos, que tomaram o colégio por três semanas, um memorial da reorganização proposta pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB) e dos protestos que se seguiram. Até a tarde desta terça-feira, 15, 57 colégios seguiam ocupados.

A reestruturação da rede, que previa que as escolas tivessem ciclo único, além do fechamento de 93 colégios, foi revogada no dia 4 pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), após uma série de protestos. A promessa é que a medida volte a ser discutida no ano que vem para ser adotada em 2017.

A proposta da Silvio Xavier é aproveitar a “polarização” criada entre alunos que ocuparam a escola e os que ficaram contra para debater o assunto nas aulas de História e Geografia. A escola foi desocupada na última quinta-feira. No primeiro dia de reposição, foi feita uma roda de discussão entre estudantes e docentes sobre o tema. 

Os estudantes terão de produzir um trabalho com relatos pessoais, textos explicando a reorganização, recortes de reportagens sobre as ocupações e fotos feitas no colégio. Farão também um grafite em uma área externa do colégio. A pesquisa vai compor parte da nota final das turmas nos anos finais do ensino fundamental e médio. Com o calendário apertado, a maior parte das salas não terá provas.

Para os alunos que não participaram da ocupação, a reclamação é por ter de ficar tempo a mais na escola. As reposições de aula devem durar até o fim do ano, incluindo sábados e até um domingo. “Foi ruim perder aula e repor agora, nas férias”, disse a estudante do 7.º ano Natiely Ferreira dos Santos, de 15 anos. Mas o resultado do processo foi comemorado. “Pelo menos não vai fechar mais a escola. No geral, acho que foi positivo”, comentou Laís Cristina de Carvalho, de 13 anos, também do 7.º ano. A unidade estava entre as que seriam fechadas.

Prejuízos. De acordo com a Secretaria Estadual da Educação, dos colégios que foram desocupados, em 42 foram registradas depredações e furtos de autoria ainda desconhecida. Os alunos têm afirmado que criminosos aproveitaram a fragilidade das ocupações para cometer crimes. Em 26 escolas os prejuízos já foram estimados em R$ 566,8 mil. Nas demais, os danos ainda estão sendo avaliados, segundo a secretaria. 

A Escola Estadual Coronel Antônio Paiva de Sampaio, em Osasco, na Grande São Paulo, é a que custará mais aos cofres públicos. Com o telhado destruído, todas as portas arrombadas, dezenas de vidros e lâmpadas quebrados, além de impressora e micro-ondas danificados, a reposição destes materiais deve ficar em R$ 350 mil. 

A Escola Presidente Salvador Allende Gossens, na zona leste, também terá prejuízo alto: R$ 70 mil, de acordo com a secretaria. Foram vandalizados salas de aula, laboratório de informática, salas da direção e coordenação, cozinha, banheiros e cantina. Também foram quebrados portões, portas, carteiras e cadeiras, que ficaram espalhados pela unidade. 

Outra unidade cuja reforma será custosa é a Francisca Lisboa Peralta, também em Osasco. A pasta estima os gastos em R$ 50 mil, pela perda de holofotes e 200 lâmpadas estragadas, bomba de água danificada, além de materiais furtados. 

Além disso, a reportagem apurou que na Escola Moacyr Campos, em Aricanduva, zona leste, dois computadores foram furtados da sala de leitura e algumas fechaduras, quebradas. O prejuízo é de cerca de R$ 4 mil.

Ocupadas. Em unidades que seguem ocupadas, como a escola Caetano de Campos, na Consolação, os alunos planejam evitar desgaste ao movimento estudantil. Eles querem pintar as paredes do colégio com tintas doadas. “As paredes estavam com pichações antes de tomarmos a escola. Queremos deixar melhor do que quando entramos”, disse o aluno Lucas Kaoka, de 18 anos. 

Já na escola Fernão Dias, em Pinheiros, zona oeste, primeira a ser tomada na capital, alunos querem fazer uma faxina e reparos, principalmente nas salas de aula. “Se decidirmos realmente sair, precisamos montar um projeto de saída para continuarmos nossa luta e estratégias para termos mais voz e poder de decisão. Quando sairmos, a escola não vai ser mais a mesma, vai ser melhor tanto na estrutura como pedagogicamente”, disse o aluno Heudes Oliveira, de 18 anos. 

Na Escola Estadual Maria José, na Bela Vista, os alunos disseram que manter a unidade ocupada tem sido cansativo, mas que não vão desistir. Os estudantes de escolas ainda ocupadas defendem que a reorganização seja “cancelada” e não apenas suspensa, como anunciou o governador. 

“Não temos pressa em sair porque não estamos preocupados com a reposição. Quando ocupamos, há três semanas, as aulas já tinham praticamente acabado. Quando teve greve por três meses, nós tivemos reposição em apenas 5 dias. Não nos preocupamos com isso”, disse a aluna da escola Maria José, Letícia Sousa, de 18 anos.

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