Wilton Júnior/Estadão
Wilton Júnior/Estadão

Ocupação da Uerj entra no segundo dia

Aulas estão paralisadas pela reitoria desde 23 de novembro, por causa da falta de limpeza e de segurança, e voltariam nesta terça

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

02 Dezembro 2015 | 03h00

RIO - Em protesto contra a falta de pagamento de bolsas a estudantes cotistas e a funcionários terceirizados, como os encarregados da limpeza e da segurança, alunos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) entram nesta quarta-feira, 2, no segundo dia de ocupação do câmpus do Maracanã, na zona norte, e de São Gonçalo, cidade na região metropolitana. Eles dizem que só irão embora depois que o dinheiro sair.

Os manifestantes prometem ocupar também o plenário da Assembleia Legislativa na votação do orçamento da universidade para 2016, no próximo dia 16, como forma de pressionar os deputados a votarem contra uma possível redução do valor destinado à instituição. As aulas já estavam paralisadas pela reitoria desde o último dia 23, por causa da falta de limpeza e de segurança, e voltariam nesta terça, o que não ocorreu por causa da invasão.

Os cotistas estão com a bolsa de R$ 400 atrasada em um mês. Os terceirizados não são pagos há dois. O governo do Estado não fez os repasses porque está em dificuldades financeiras, creditadas à queda brusca de arrecadação de royalties de petróleo e da arrecadação de impostos, sustenta o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB). Nesta terça, ele disse que está travando "uma luta diária" para honrar o pagamento dos servidores e dos terceirizados, e que a situação da Uerj está sendo observada de perto.

"Fizemos a primeira bateria de pagamentos. A gente vai ver o que não entrou, ver o que pode fazer. É uma luta diária. O problema é no Estado inteiro, mas na Uerj as coisas se intensificaram mais, desde os servidores até as empresas de limpeza", disse.

Pezão informou que espera pagar o restante dos salários do funcionalismo de novembro até o dia 9 e honrar a segunda parcela do 13ª salário até o dia 17 (a primeira foi paga em julho), mas disse não ter certeza se será possível. Os servidores que ainda não receberam o salário de novembro ganham mais de R$ 2 mil. Os que têm rendimentos inferiores a R$ 2 mil estarão sendo pagos até o fim do dia desta quarta, assegurou o governo. Para tentar aumentar a arrecadação, o governador vem se reunindo com o empresariado para que os impostos sejam recolhidos. 

A Uerj é a maior universidade estadual do Rio, com 28 mil alunos, dos quais cerca de um quarto é cotista (negros, indígenas, egressos da escola pública, pessoas com deficiência). A ocupação no Maracanã começou na noite desta segunda-feira.  Cerca de 30 estudantes levaram barracas de camping e dormiram no Pavilhão Reitor João Lyra Filho. Na manhã desta terça, chegaram mais cerca de 200. À tarde, o movimento cresceu ainda mais.

Os estudantes fizeram duas assembleias e decidiram continuar no local por tempo indeterminado. Na hora do almoço, eles conseguiram a liberação do bandejão para que todos almoçassem de graça, com a apresentação da carteirinha da universidade. Quem tentava entrar no prédio para trabalhar tinha de negociar com os alunos que faziam um cordão de isolamento nos portões.

Houve discussões, mas a ocupação se manteve pacífica. 

O reitor Ricardo Vieiralvez se manifestou sobre o movimento na página da Uerj, com apenas uma frase: "A manifestação pacífica dos estudantes é legítima e motivada". Na nota que emitiu no dia 23, ele dissera que a Uerj ficaria fechada por uma semana por estar "em situação de insalubridade por conta da descontinuidade dos serviços terceirizados, que afeta a segurança das pessoas e do patrimônio". Nesta terça, funcionários da limpeza e segurança continuavam trabalhando, e contaram que estão pedindo dinheiro emprestado para pagar as contas. Quanto aos professores, parte apoia os estudantes, parte se ressente deles, por preferir terminar o semestre letivo. 

Segundo a presidente do centro acadêmico da Faculdade de Engenharia, Glória Paixão, a intenção da ocupação e da suspensão das atividades é não privar os cotistas de aulas e provas. "Eles não têm dinheiro para vir à Uerj e não podem ser prejudicados. Os terceirizados não podem continuar fazendo trabalho escravo", disse.

"Esses cortes do governo têm classe e cor. Quem sofre são cotistas e terceirizados. A Uerj é a universidade mais popular do Brasil, a primeira a aceitar cotas para afrodescendentes (em 2003)", criticou Graziele Monteiro, diretora da União Nacional dos Estudantes (UNE) para universidades públicas. Aluna da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ela participa da ocupação.

A estudante de pedagogia Andressa Oliveira, cotista da Uerj, contou que a bolsa de R$ 400 mal dá para pagar o transporte. "Moro em Duque de Caxias (município da Baixada Fluminense). O bilhete único que o Estado dá (carregado com o valor de 75 passagens) só serve para uso dentro do município do Rio. Minha mãe é auxiliar de serviços gerais e luta para me manter aqui. Eu me matei de estudar para passar no vestibular para isso?", reclamou.

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