Arquivo/Estadão Conteúdo
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O progresso da ciência nunca saiu do radar

Contribuições vão dos primeiros transplantes realizados no País ao projeto Genoma

Giovana Girardi e Mônica Manir , O Estado de S. Paulo

24 Janeiro 2014 | 03h00

A USP nasceu de um sonho e de uma necessidade. O sonho: fundar a primeira universidade de São Paulo. A necessidade: promover uma reforma profunda no ensino superior, diagnóstico feito já em 1925 pelo jornalista Julio de Mesquita Filho, então diretor de O Estado de S. Paulo.

Quase dez anos após, em 25 de janeiro de 1934, a Universidade de São Paulo tornava-se realidade, com a criação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e a junção a outras já existentes. Jovens professores foram trazidos da Europa, especialmente da França. Claude Lévi-Strauss, Fernand Braudel e Roger Bastide, entre outros, deram o tom do que seria a USP: uma universidade de vanguarda. Seu lema, Scientia Vinces (pela ciência vencerás), estampado no brasão, norteou o caminho percorrido até aqui. O legado científico espalha-se por diversas áreas, do primeiro computador desenvolvido no País ao projeto Genoma.

Hoje, 80 anos depois, a USP é a melhor universidade da América Latina, além de figurar entre as 200 principais do mundo. Enfrenta desafios, como a necessidade de voltar-se para o mundo e a urgência em manter relevantes as pesquisas desenvolvidas. Desafios que exigem a frequente renovação dos ideais de sua fundação.

Ciência. Está lá, no decreto de fundação de 25 de janeiro de 1934, como fins primeiros da universidade: "a) promover, pela pesquisa, o progresso da ciência". A Universidade de São Paulo, em 80 anos, não fugiu à sua letra "a". O empenho em investir na ciência perpassou as décadas e a manteve sempre no topo da pesquisa de vanguarda na América Latina.

Shozo Motoyama, historiador das ciências e estudioso (para não dizer biógrafo) da USP, lembra que essa posição de ponta tem um bastidor "b": o fato de o Estado estar na liderança econômica do País, e a elite paulistana, fundadora da universidade, ter um perfil diferente da elite dos demais Estados. "Havia uma visão muito pragmática de que, para continuar na liderança, era preciso ter a melhor qualificação possível", diz. "Entendia-se que era importante investir em pesquisa mesmo sem retorno imediato; desejava-se aumentar o conhecimento e formar lideranças intelectuais."

A Medicina encabeçou as pesquisas desde o início. De 1926, quando ainda era uma faculdade estanque, a 31 de dezembro de 1948, época do primeiro relatório da Comissão de Pesquisa Científica, ela produziu 2.513 trabalhos científicos, com destaque para as cátedras. Os primeiros transplantes de coração, fígado e rim na América Latina foram feitos pela Faculdade de Medicina da USP.

Motoyama destaca, por exemplo, os trabalhos desenvolvidos na USP-Ribeirão por Maurício Oscar da Rocha e Silva e depois pelo médico Sérgio Henrique Ferreira com a bradicinina, molécula presente no veneno da jararaca. Após purificada e potencializada pelos pesquisadores, a bradicinina se tornou essencial na fabricação dos medicamentos mais usados até hoje para controlar a pressão arterial.

A USP também seria pioneira nos estudos genéticos - em boa parte graças ao empenho de André Dreyfus, primeiro professor catedrático da área. Ele desempenhou importante papel na formação de nomes que se destacariam depois, como Crodowaldo Pavan e Antônio Brito da Cunha. Dreyfus teve a perspicácia de convidar para ir à USP o biólogo evolutivo russo-americano Theodosius Dobzhansky. Um dos responsáveis pela Moderna Síntese Evolucionista, que unificou a genética com o darwinismo, ele ministrou na universidade o primeiro curso de evolução no Brasil.

Décadas depois, a USP encabeçaria os esforços de decifrar o genoma da bactéria Xylella fastidiosa, responsável pela praga do amarelinho, que ataca laranjais. O trabalho, que reuniu 192 pesquisadores - 80 da USP -, rendeu a capa da revista Nature em fevereiro de 2000 e abriu espaço para a genômica no Brasil.

Estrangeiros. A presença de estrangeiros em seus laboratórios seria um marco da USP. Como lembra o sociólogo Sérgio Adorno, coordenador do Núcleo de Estudos da Violência, é vocação da universidade atrair professores e pós-graduandos de fora, algo que faz parte do propósito inicial de pensar o País 50 anos à frente. "Hoje talvez seja melhor falar em 10 anos adiante, mas sempre com sensibilidade para os problemas."

Na lista dos que deixaram legado consta também a série de trabalhos desenvolvidos pelo historiador Sergio Buarque de Holanda, que em 1958 assumiu a História da Civilização Brasileira na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). "Pode-se afirmar que sua passagem pela USP foi um sintoma de amadurecimento da instituição e de abertura nas relações do meio universitário com a sociedade", escreveu a também professora de História da USP Maria Odila Leite da Silva Dias.

Na Geografia, dois nomes ganharam destaque, o de Milton Santos e o de Aziz Ab’Saber. Santos, um dos principais pensadores da história da Geografia no Brasil, iniciou a carreira na Bahia, onde enfrentou a ditadura e acabou exilado. Ao voltar ao País, em 1977, foi abrigado pela USP. Ab’Saber virou referência em assuntos relacionados ao meio ambiente.

Na arena da Física, impressiona o trabalho da equipe capitaneada pelo ucraniano Gleb Wataghin, que resultou em várias descobertas sobre raios cósmicos. Wataghin acabou por formar um grupo de brilhantes jovens físicos que conquistaram destaque internacional, como César Lattes, Mário Schenberg e Marcelo Damy de Souza Santos. "Wataghin tinha a filosofia de mandar os alunos para fora depois de ensinar tudo o que podia, e isso deu resultado", lembra Motoyama. "Lattes quase ganhou o Nobel ao comprovar a existência de uma nova partícula atômica, o méson-pi. Deveria ter ganhado."

A pesquisa em Biologia Marinha e em Oceanografia também se desenvolveu no País a partir do trabalho de cientistas da USP desde os anos 1930. Os avanços vão das pesquisas pioneiras do casal Ernest Marcus e Eveline Du Bois Reymond - alemães que descobriram várias espécies de invertebrados marinhos - às duas novíssimas embarcações, Alpha Crucis e Alpha Delphine, que permitirão aos cientistas explorar águas mais distantes.

Para o médico bioeticista William Saad Hossne, um dos criadores da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa e ganhador do troféu "Guerreiro da Educação Ruy Mesquita" em 2013, o que fica da USP são os valores que ela herdou do padrão europeu: a vida acadêmica, a seriedade, a honestidade, o mérito e a crítica contumaz, inclusive de si mesma.

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