'O mais seguro é não partir', diz jornalista Andrei Netto

Correspondente do Estado esteve detido na Líbia e participa do Congresso da Abraji, que começou nesta 5.ª

Cedê Silva, Estadão.edu

30 Junho 2011 | 14h18

Quem caminha numa cidade com snipers (atiradores de elite) precisa de um cuidado adicional ao dobrar a esquina. Não pode, de pé, esticar o pescoço para espiar a próxima rua. Deve se deitar no chão e se arrastar, já que snipers são treinados para atirar na altura dos olhos. Orientações como essas deram o tom da primeira parte da palestra Medidas de Proteção para Jornalistas em Cobertura de Conflitos Armados, ministrada pelo jornalista João Paulo Charleaux e pelo correspondente do Estado em Paris, Andrei Netto.

 

A palestra é parte do 6.º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigagivo (Abraji), que começou nesta quinta-feira em São Paulo.

 

Em março, Netto ficou oito dias preso quando estava na Líbia cobrindo as rebeliões do mundo árabe. "O mais seguro é não partir", conta Andrei Netto, lembrando que cursos promovidos por entidades como a Caecopaz (Argentina), o Exército Brasileiro (no Rio), a BBC e o Cnec (França) são importantes para treinar as respostas do jornalista em futuras situações de estresse, como assaltos, sequestros, prisões e tiroteios. É importante ir a campo preparado e saber avaliar riscos.

 

"Não conte com cartão de crédito", recomenda Netto. "Leve dólares na carteira, mochila, roupa...e alugue um telefone por satélite." Ao voltar para casa, é importante ao jornalista  preocupar-se com assistência psicológica, se preciso, pela mesma razão que fez os cursos - condicionar suas respostas a situações de estresse.

 

João Paulo Charleaux lembrou que jornalistas não correm risco apenas ao cobrir guerras em países estrangeiros, mas também nas favelas e conflitos rurais do Brasil - e radialistas em cidades do interior, por exemplo, também sofrem ameaças.

 

Apesar disso, o País ainda não tem protocolo ou instituições específicas para a atuação de repórteres em áreas de risco. A criação da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), em 2002, mesmo ano da morte de Tim Lopes, foi em parte motivada pela tragédia.

 

Charleaux, que fez o curso do Exército para jornalistas e trabalhou no Haiti, disse que militares fornecem proteção, mas comprometem o acesso às fontes. Fotografadas e entrevistadas, elas podem achar que o repórter é um espião. Ele mesmo entrou num tanque da força de paz da ONU no Haiti logo após entrevistar um líder estudantil. "Se eu estivesse no lugar dele, daria uma pedrada na minha cabeça", contou.

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