O maior vestibular do mundo

Vestibular chinês atrai 10 milhões de candidatos e mobiliza um país que sempre valorizou o mérito

Cláudia Trevisan, Correspondente

27 Outubro 2009 | 00h17

A estudante Chen Ling Long, de 18 anos, fez parte do batalhão de 10,2 milhões de chineses que prestou em junho o exame nacional de admissão nas universidades, o maior vestibular do mundo. Chen e outros 6,3 milhões de aprovados se juntaram a uma população universitária que cresce a taxas recordes desde o fim da década de 90. "Você nunca esquece a sua pontuação", disse Chen ao Estadão.edu no refeitório da Universidade de Esportes de Pequim, onde cursa o 1º ano de Inglês.   Chamado de gaokao, o vestibular é visto pelos candidatos como um momento crucial, capaz de definir o sucesso no ultracompetitivo mercado de trabalho chinês. A aprovação no exame é um dos mais fortes símbolos de status social em um país que tem uma milenar tradição de valorização do estudo e da figura do intelectual. Dirigentes de vilas rurais que têm moradores aprovados no gaokao fazem questão de divulgar a informação aos visitantes.   Veja também:  Engenharia lidera procura  Em uma década, total de alunos quintuplica   O exame nacional é realizado nas mesmas datas, 7 e 8 de junho – em algumas regiões, também no dia 9 – e mobiliza a sociedade chinesa. Há um espírito coletivo de apoio aos candidatos. Em várias cidades, eles têm transporte público gratuito nos dias de prova e muitos taxistas trabalham como voluntários para transportar estudantes de graça. Alunos que esquecem documentos são levados de volta à casa em carros da polícia com sirenes ligadas, para retornar a tempo de realizar o exame.   Filhos únicos Os pais dos vestibulandos têm participação ativa nos dias de prova. Uma das imagens recorrentes nessas ocasiões é a de homens e mulheres aflitos à espera dos filhos nos portões dos locais de exame. Em virtude da severa política de controle de natalidade adotada desde o fim dos anos 70, a China tem uma legião de 100 milhões de filhos únicos, sobre os quais recaem as expectativas dos pais e dos quatro avós.   Antes das provas, muitos pais vão aos templos erguidos em homenagem a Confúcio para rezar pelo sucesso dos filhos. Filósofo que marcou como nenhum outro a identidade chinesa, Confúcio (551-479 a.C.) era um defensor do estudo e aperfeiçoamento constantes. Foi ele quem inspirou o modelo de seleção de funcionários do Império por exames abertos a todos e baseados no mérito dos candidatos.   Essa tradição de respeito à educação foi brutalmente atacada durante a Revolução Cultural (1966-1976), quando todas as universidades foram fechadas e os estudantes mandados à zona rural para trabalharem a terra e serem "reeducados" pelos camponeses. Só em 1977, um ano após a morte do líder da Revolução Cultural, Mao Tsé-tung, o gaokao foi restabelecido. Em 1978, a China tinha 856 mil universitários. Hoje são 20,2 milhões.   Como virtualmente todos os inscritos no gaokao, Chen Long sabe de cor sua nota, 591 pontos em 750 possíveis. O resultado não foi suficiente para ela ser admitida na instituição de preferência, o Instituto de Tecnologia de Xangai, mas permitiu que ela entrasse na Universidade de Esportes de Pequim, a número 2 da sua lista. Isso ocorreu porque o exame divide as universidades, das de elite às de menor prestígio. O candidato pode escolher em ordem decrescente um número limitado de instituições e cursos de sua preferência em cada um desses níveis, aos quais terá acesso se atingir a nota de corte exigida.   Apesar de seu caráter nacional, o vestibular chinês não tem, desde 2003, provas idênticas em todo o território. Dezesseis regiões, de um total de 32, elaboram seus próprios testes, seguindo orientações dadas pelo Ministério da Educação. Chen, por exemplo, fez o teste em sua província de origem, Fujian, mas podia se candidatar a qualquer universidade do país, como todos os demais estudantes.   Fraudes Liu Haifeng, diretor de Centro de Pesquisa em Educação Superior da Universidade de Xiamen, afirma que o modelo regionalizado reflete a diversidade do país e evita o impacto nacional de eventuais fraudes. Liu lembra um caso real para justificar a necessidade de mudança. Em determinado ano, um dos temas de redação era a história de uma mãe que dizia gostar de comer a cabeça do peixe. Na verdade, ela queria que os filhos ficassem com a melhor parte, o corpo, e fingia gostar de comer o que supostamente era a menos saborosa. Mas para os moradores da Província de Guangdong, no sul da China, a cabeça é a melhor parte do peixe. A mãe que parecia generosa no norte do país era uma egoísta no sul.   Por outro lado, o combate a fraudes é um dos maiores problemas para as autoridades, principalmente por causa dos recursos tecnológicos cada vez mais sofisticados à disposição dos candidatos. Liu disse que várias escolas utilizam bloqueadores de sinal de celulares durante os exames e os alunos são revistados para que não entrem nos locais das provas com aparatos eletrônicos.   Os responsáveis pela elaboração dos testes ficam isolados durante um mês antes da realização do gaokao e estão sujeitos a pena de 7 anos de prisão caso revelem o conteúdo da prova a algum candidato ou a terceiros. Estudantes pegos colando no gaokao ficam proibidos de fazer o exame por um período de 1 a 3 anos. As autoridades também registram o fato no prontuário do vestibulando, que o acompanhará por toda a vida.   O Ministério da Educação sustenta que o número de fraudes tem caído a cada ano e no exame de 2009 as irregularidades envolveram 2.219 candidatos, o equivalente a 2,3% do total. O mais célebre caso de fraude do gaokao deste ano incluiu a contratação de 17 estudantes da Província de Shandong, que tem um dos melhores padrões de ensino do país, para realizarem o exame no lugar de candidatos na Província de Gansu.   O esquema foi revelado quando um dos fiscais percebeu que o rosto da pessoa que se apresentou como candidato era totalmente diferente do da fotografia que constava de sua ficha de inscrição. Segundo Liu, algumas províncias estão coletando digitais dos estudantes para tentar impedir que outras pessoas façam os testes em seus lugares.   Além das questões regionais, o gaokao oferece duas provas distintas para alunos das áreas de Humanas e Exatas, que na China são chamadas de Artes e Ciências. Mas a escolha não depende do curso que o candidato pretende fazer na universidade, mas sim do que ele estudou no 2º grau.   No fim do 1º ano do ensino médio, os chineses têm que definir se querem estudar Humanas ou Exatas nos dois anos seguintes. Um aluno de Exatas pode decidir cursar Filosofia na universidade, mas terá de fazer no gaokao uma prova com questões de química, biologia e física. As provas específicas para as áreas de Humanas são as de história, geografia e política. Além da redação, há três disciplinas comuns a estudantes de Humanas e Exatas: chinês, matemática e língua estrangeira, que normalmente é o inglês.   Quem consegue ultrapassar a barreira do vestibular invariavelmente afirma que a vida universitária é muito mais tranquila que a do ensino médio, na qual os estudantes viviam sob a constante pressão do desempenho no gaokao. O câmpus também dá aos filhos únicos chineses a chance de viverem com pessoas da mesma idade durante o período de duração dos cursos. Quase todos os estudantes moram nos dormitórios das universidades.   He Yang Yi, de 18 anos, foi aprovada este ano para o curso de Comunicação no International College of Beijing. Seus pais são de Pequim, mas He Yang decidiu morar no câmpus, assim como todos os seus colegas de classe.   Sem gratuidade Outra característica do ensino superior chinês é a cobrança de mensalidades, mesmo em instituições públicas. A família de Chen paga anuidade de US$ 880 na Universidade de Esportes de Pequim, mais US$ 132 pelo dormitório, dividido entre seis alunos. Os pais de He Yang pagam 30 mil yuans por ano, o equivalente a US$ 4,4 mil, valor que supera a renda per capita do país. No International College, os professores do curso de Comunicação são estrangeiros e as aulas, ministradas em inglês. Os estudantes ficarão dois anos na China e completarão o curso na Universidade de Bedfordshire, Inglaterra, onde terão a opção de permanecer mais um ano para o mestrado. O ano na Inglaterra custará à família de He Yang US$ 29,4 mil.   Apesar das reservas de muitos chineses ao padrão acadêmico das suas universidades, as instituições de elite do país têm ganho prestígio internacional. O conceituado ranking das 200 melhores universidades do mundo preparado pelo jornal britânico The Times traz na sua última edição seis representantes da China. O grupo é liderado pela Universidade Tsinghua, que tem sede em Pequim. Única instituição brasileira a aparecer na lista no ano passado, na 196ª posição, a Universidade de São Paulo foi excluída do ranking em 2009.   Quando saem da faculdade, os estudantes chineses enfrentam uma nova barreira, cuja transposição está cada vez mais difícil: encontrar emprego em um mercado inundado por profissionais diplomados. Fora das instituições de elite, muitos dos formandos não atendem aos requisitos mínimos de seleção das grandes empresas, principalmente multinacionais.   A principal crítica que se faz ao gaokao está na origem dos problemas enfrentados pelos recém-formados. Para seus detratores, o exame não estimula o pensamento criativo e independente e premia apenas a capacidade de memorização do aluno, que terá notas mais altas quanto mais se aproximar das respostas-padrão. Nada muito diferente do que grande parte deles verá nas universidades.

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