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'O jovem pesquisador precisa fugir do tradicional'

Matemático da IBM nos EUA foi mandado de volta ao Brasil para explorar a possibilidade de criar um laboratório aqui

Sergio Pompeu, Estadão.edu

29 Março 2011 | 01h27

Claudio Pinhanez, de 47 anos, é matemático formado na USP, com mestrado em Computação e doutorado no Massachusetts Institute of Technology (MIT), em Boston. Depois de quase uma década como pesquisador da IBM nos Estados Unidos, foi mandado de volta ao Brasil para explorar a possibilidade de criar um laboratório aqui. “Parei um pouco minhas pesquisas para entender as necessidades do Brasil, as oportunidades. Conversamos com muitas empresas, muita gente do governo. Agora temos a missão de colocar de pé o projeto.”

 

Veja abaixo trechos da entrevista:

 

Momento atual do laboratório

 

Estamos a mil, contratando gente, a todo vapor. Continuamos trabalhando nas três áreas mencionadas (na época do anúncio da criação do laboratório): recursos naturais; de smart devices, de microeletrônica, de sensores e dispositivos; e a área de sistemas humanos. Esta última é voltada para grandes eventos, o que inclui Copa, Olimpíada. Mas também para eventos não planejados, tipo inundações. Ou eu tenho algo grande, planejado – Olimpíada, réveillon no Rio – ou um evento tipo inundação, desabamento, que mexe com os sistemas e obriga esses sistemas, tipo tráfego, policiamento e outras áreas, a trabalhar completamente fora do normal. Além dessas três áreas, apareceu uma quarta, que não estava prevista, a de sistemas e serviços, que é exatamente a que eu estou liderando. Ela pega esses grandes sistemas de serviço que existem em torno de nós, que podem ser de TI, banco, comércio, saúde.

 

Sistemas de serviço

 

Num sistema fabril você tem seus empregados e infraestrutura de produção dissociadas do seu cliente. O que caracteriza o sistema de serviços é o fato de que no momento em que usufrui, recebe valor, meu cliente está em contato direto com meu sistema de produção, meus empregados, minha infraestrutura. Esses sistemas são mais complicados do que a relação do consumidor com a manufatura: o consumidor está dentro do processo, não dá para tirar ele fora. Numa fábrica eu consigo otimizar minha produção fazendo estoques. Quando meu cliente está dentro do processo eu não posso fazer isso. Um paciente chega ao hospital. Ele entrou no meu processo de produção. É um insumo, vamos dizer. Mas ao contrário do insumo fabril, ele tem suas próprias visões do que é certo ou errado. Como lido com questões de urgência, de contato? Como fazer processos de controle de qualidade? Preciso inventar medidas de satisfação para o meu cliente. Preciso de um modelo complexo, científico, para fazer simulação. Ninguém hoje põe avião no ar sem simular aquilo lá de 500 mil maneiras diferentes. Tem um projeto da IBM em Israel que está olhando para o setor de emergência em um hospital. Está coletando dados por um ano para ver onde os pacientes andam, onde os médicos andam, as enfermeiras andam, para ver onde vão os equipamentos, quando são usados ou não. É uma porção de dados, com sensores, um projeto muito grande. A partir desses dados eles vão reprojetar o setor de emergências. Descobrimos que as enfermeiras andam 8 quilômetros por dia dentro da emergência. Será que tem uma maneira de fazer isso de modo mais eficiente? Se a gente não encarar o problema de aumentar a eficiência desses sistemas de serviço que estão em volta da gente, seja de TI, saúde, educação, governo, em 30, 40 anos eles vão estar completamente relapsos.

 

Formação

 

Fiz Matemática na USP, depois fiz mestrado em Computação na USP. Dei aula seis anos lá na Departamento de Computação da USP e aí fui para o MIT fazer doutorado, no Media Lab, que é um laboratório interdisciplinar que investiga o futuro, vamos dizer assim. Na década de 90 aquilo realmente funcionou como um caldeirão de invenção e de comunicação do que estava acontecendo para muitas empresas. Muitos CEOs viram pela primeira vez um website lá dentro. Foi bem interessante a experiência de tentar inventar o futuro fazendo o futuro, mesmo que ele não fosse viável economicamente a curto prazo. Depois de concluir o doutorado, em 1999, fiquei até 2008 na IBM Research, contratado para uma vaga de pesquisador. Fiquei em Hawthorne, perto de Nova York.

 

Perfil da pesquisa industrial

 

A grande diferença de um laboratório industrial como a IBM é que a gente tem de olhar o impacto científico e o impacto para a empresa. O que você está pesquisando cria produtos, propriedade intelectual? Mas também se considera a seguinte questão: você está publicando? Ajuda a comunidade científica internacional? Aqui no Brasil a gente quer ter um laboratório com essas duas funções. Enquanto na universidade tem professor dividido entre a função de pesquisar e a de ensinar, aqui a gente está dividido entre a função de ajudar a IBM e de pesquisar, dentro de uma comunidade científica. Uma coisa interessante é que aqui você trabalha lado a lado com gente de altíssimo nível. Na universidade os professores dependem muito de ter alunos que façam projetos para eles e no nível de projeto não há envolvimento muito grande com outros professores, gente no seu nível de carreira, maturidade. Na IBM cheguei para trabalhar com pessoas como John Karat, referência na área de design e interface. De repente estávamos lá rodando um teste de interface para usuários de um sistema e vendo as observações que ele fazia nesse processo. Foi uma tremenda oportunidade de crescimento. Além disso, na IBM, com seus nove laboratórios, a gente aprendeu a trabalhar globalmente. Se preciso de um especialista em banco de dados, pego alguém de Almadén, na Califórnia. Se preciso de um projeto de alguém que entende de web service, pego alguém do laboratório de Israel. Isso ajuda muito um laboratório que está começando, como o do Brasil, e alguns dos nossos pesquisadores vão estar engajados em projetos globais. É claro que vai ter um dia em que eles vão precisar estar acordados às 3 da manhã para se reunir com caras da Índia. Tem uns probleminhas envolvidos (risos), mas tem uma oportunidade de troca, até de troca cultural, muito interessante.

 

Seleção

 

A gente está com muitas vagas em aberto, mas temos um processo de seleção bastante rigoroso e um tanto diferente do processo de seleção das universidades no Brasil. Aqui, tem um concurso, as pessoas se inscrevem, tem uma banca e uma pessoa é declarada vencedora e recebe a vaga. No nosso sistema, a gente põe uma chamada em áreas em que a gente quer crescer, faz uma espécie de banco de currículos e marca uma entrevista com a pessoa na qual temos interesse. Essa entrevista dura um dia inteiro, o candidato fala com 10, 15 pessoas, daqui e de fora do Brasil e assim a gente avalia e decide. Estamos procurando basicamente gente que já faz doutorado, aprendeu a ser pesquisador, tem uma carreira. A gente recebeu um número bom de currículos, com uma qualidade muito grande, nos surpreendeu. Tem muita gente aí fora que fez doutorado. Uma das coisas importantes para atrair o laboratório para o Brasil foi o fato de que o País hoje tem uma máquina de fazer doutorado muito potente, além dos que vão estudar lá fora. No momento a gente está concentrado em trazer brasileiros, que estão aqui ou fora. Gente que não está interessada em fazer carreira dentro de uma universidade. É importante trabalhar com a universidade e o governo e criar mecanismos dentro do doutorado no Brasil para formar doutores com perfil mais voltado para a indústria. É um trabalho conjunto. O governo já está tomando iniciativas interessantes, como a bolsa de doutorado empresarial. A gente nota que tem gente com esse perfil mais de pesquisador industrial que hoje não se sente atraída pelo doutorado. Diz: “Não quero ser professor.” Não tem nada errado em dar aula, mas tem gente que acha que esse perfil não é o dela.

 

Momento do Brasil

 

O Brasil vive um momento muito interessante. Criou uma estrutura básica de produção de pesquisa e de pesquisadores. E agora é o momento de tudo isso ter impacto no Brasil, nas empresas que atuam no Brasil e na população em geral. Esse é o grande desafio que me atrai nesse instante no País, de concretizar esse sonho de uma potência na área de conhecimento. Acho que isso é o que une todos nós neste momento. Construir um grupo de pesquisa como a gente acha que ele tem de ser no Brasil. Não adianta trazer o modelo americano ou japonês.

 

Conselhos a quem quer ser pesquisador

 

Em primeiro lugar a pessoa deve procurar fazer o programa no melhor lugar possível, com os melhores professores possíveis. É o básico. Mas também é necessário explorar caminhos novos dentro do doutorado. É muito fácil você entrar na universidade e o orientador te dizer: “Ah, consigo bolsa em tal lugar, vai lá.” Você faz isso e acaba entrando na maquininha sem tentar fazer alguma coisa diferente. Forçando os limites de burocracia é possível fazer coisas mais interessantes. Você vai ter de empurrar os limites, mas isso te torna alguém com perfil diferenciado no mercado. A gente viu alguns desses currículos e realmente eles chamam a atenção. Alguém que foi fazer um doutorado sanduíche não nas universidades de sempre, mas num laboratório da França ou do Japão. Ou alguém que foi para os Estados Unidos trabalhar na Nasa. Gente que foge do tradicionalzão, que está tentando caminhos.

 

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