O bairro que virou câmpus

Formada em torno do Hospital São Paulo e da Unifesp, Vila Clementino é polo de ensino

29 Junho 2009 | 22h42

Todo dia, lá pelas 7h30, Henrique Ribeiro, de 22 anos, sai de uma pensão na Vila Clementino, zona sul, e anda 15 minutos até a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), onde cursa o 4º ano de Medicina. Ele raramente deixa o bairro em dias úteis. "Preciso me dedicar integralmente aos estudos. Aqui tenho tudo de que preciso", explica.   O médico residente Noam Pondé, de 26, também vai trabalhar nesse horário. Por volta das 7 horas, deixa a casa, no Alto da Lapa, zona oeste, rumo ao Hospital São Paulo, da Unifesp. "Aprendo muito no Pronto-Socorro. Chegam de casos de gripe a derrame."   Morador do Butantã, zona oeste, o deficiente visual Ademilson da Costa, de 20, circula cedo pelas mesmas ruas. Às 7h30, já está na Botucatu, vindo do Metrô Santa Cruz, rumo à Diogo Faria, onde revisa textos em braile na Fundação Dorina Nowill, uma das maiores entidade de apoio a cegos do País. "Aqui sou independente e circulo com segurança."   Débora Schneider, de 34, oftalmologista, passa boa parte do dia na Vila Clementino. Moradora do vizinho Planalto Paulista e formada na Santa Casa, escolheu o entorno da Unifesp para abrir sua clínica. "Há restaurantes e cafés na rua. Meus intervalos são rápidos e, com isso, atendo mais pessoas. Sem falar que os pacientes podem fazer exames complexos perto da clínica."   Por trás da rotina de Henrique, Noam, Ademilson e Débora está a dinâmica do bairro que surgiu no fim do século 19, mas se estruturou nos anos 1930, em torno do Hospital São Paulo, primeiro hospital universitário da cidade, e da Unifesp, que se espalhou pela região, ocupando centenas de imóveis. Cerca de 50 mil pessoas circulam por dia nesse polo de estudo e serviços médicos. Só a universidade tem 18 mil alunos e 1,1 mil médicos.   Antonia Mattioli, de 74 anos, é dona de uma loja de aventais e roupas brancas na região há 16. "Moro na vila há mais de seis décadas." Depois de aposentada, virou comerciante, para aproveitar a concentração de demanda.   Gilmar Sassara Fernandes, de 47 anos, dono de uma livraria especializada em obras médicas, instalou-se no bairro pelo mesmo motivo. "Vim atraído pela grande quantidade de médicos e estudantes. Se o bairro prosperar, meu negócio também prosperará."   No final do dia, da porta da livraria, na Rua Pedro de Toledo, Fernandes vê milhares de pessoas, boa parte delas de jaleco branco, chegando ou partindo. Henrique é uma delas. Antes de voltar para a pensão, vai à academia ou às aulas de inglês no bairro. Noam e Débora enfrentam o tráfego intenso para chegar em casa. Ademilson pega uma carona até a Unip, ali perto, onde estuda Letras. Por pouco tempo as ruas ficarão em silêncio.ROBERTA BENCINI, ADRIANA DEL RÉ E MARIANA MANDELLI, ESPECIAL PARA O ESTADO     Prédios, a saída da Unifesp   Quem anda pela Vila Clementino percebe o quanto o crescimento da Unifesp foi desordenado. Ela ocupa hoje 270 imóveis, o que provoca dificuldades de deslocamento e segurança, eleva custos com manutenção, funcionários e IPTU.   A Unifesp quer se reordenar crescendo para o alto, com o projeto Bairro Universitário, recém-retomado. Ele prevê quatro prédios com 37 mil metros quadrados na primeira etapa e mais dois na segunda fase. Com isso, os imóveis alugados seriam devolvidos.   Lançado há dois anos, o projeto se limitou a algumas calçadas, que ganharam piso tátil e guias rebaixadas. As intervenções foram feitas pela Prefeitura, que se dispôs a ceder terrenos para os prédios.   "O prefeito Gilberto Kassab deu aval para a nova versão do projeto e até nos pediu mais ousadia", diz o reitor Walter Albertoni. Ousadia, nesse caso, é a reserva de terrenos para áreas verdes, abertas à população. Agora, a Unifesp negocia com o MEC a liberação de R$ 60 milhões para as obras. O reitor está otimista. "O aluguel desses imóveis foi o meio que a Unifesp encontrou para se expandir. Mas agora os próprios órgãos de controle federais têm nos cobrado quando há reformas, por exemplo. Questionam o uso de dinheiro público em imóveis de terceiros. SERGIO POMPEU

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