Número 1 em Medicina, aluno da rede pública realiza sonho do avô

Guilherme Murari foi aprovado no curso depois que seu avô, de 70 anos, que estudava para o vestibular, morreu por um câncer no cérebro

José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

21 Fevereiro 2017 | 18h39

SOROCABA - Aos 70 anos, o bioquímico Antonio Murari estudava para o vestibular de Medicina quando foi acometido por um câncer fulminante no cérebro e faleceu em 2015. O exemplo do avô serviu de inspiração para o estudante Guilherme Murari, de 21 anos, que, tendo estudado sempre na rede pública, conseguiu o primeiro lugar nos cursos de Medicina da USP-Pinheiros e da Unicamp/Campinas para 2017, entre os mais concorridos do País. 

Ele obteve ainda, pela nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a segunda colocação no curso de Medicina da USP em Ribeirão Preto e foi aprovado em Medicina na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e na Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Murari já havia sido aprovado em vestibular da Unicamp e chegou a fazer dois anos de Engenharia da Computação, mas percebeu, não tão tarde quanto o avô, que sua vocação era para a Medicina. "Acho que herdei dele essa coisa do estudo. Meu avô paterno fez literatura, farmácia, bioquímica, matemática e física, mas o sonho era medicina. Meus pais e tios ficaram contentes com minha nova opção, pois vou realizar um sonho do meu avô."

Guilherme é de Morungaba, pequena cidade do interior, e fez o ensino fundamental na Escola Estadual Monsenhor Honório Heinrich Bernard Nacke. "No fim de cada ano tinha uma premiação para os melhores alunos e me lembro que eu sempre estava ali entre os primeiros", conta. 

Um episódio que marcou a vida do estudante foi quando, no 6º ano, tirou nota 8 em vez do esperado 10. A mãe, Elizabete Murari, conta que o filho passou a noite chorando. "É verdade, eu exigia muito de mim. Na classe, ficava nas primeiras carteiras que era para focar mais na aula e ficar perto do professor." 

Para poder entrar logo no mercado de trabalho e não ficar só na dependência da família, o rapaz decidiu fazer um curso no Colégio Técnico de Campinas (Cotuca) junto com o ensino médio tradicional. "Era um curso na área de informática e me deu a oportunidade de conseguir um emprego. Foi também o que me influenciou a iniciar o curso de Engenharia da Computação."

Murari passou a conciliar o estudo com o trabalho como analista de sistema em uma empresa de desenvolvimento de software de Campinas. Nos últimos tempos, a rotina tornou-se extenuante. "Acordava às 6 e pouco, trabalhava até 13h30, almoçava com uma apostila ou livro na mão, passava a tarde estudando e, das 19 às 23, fazia o curso pré-vestibular."     

Enquanto outros jovens de sua idade tiravam o fim de semana para passear e se divertir, Guilherme mantinha a rotina de estudos. "Estudava oito horas por dia no sábado e domingo, fazendo um intervalo de 20 minutos a cada três horas. Houve ocasião em que esquecia até do intervalo", relembra.

A concentração nos estudos chegou a incomodar os pais, que insistiam para que saísse mais com os amigos, fizesse alguma viagem. "A dedicação aos estudos exige sacrifícios. Não tive muito tempo para namorar e deixei de conviver como gostaria com meus familiares, mas é assim mesmo, o resultado compensa." 

 Ele já decidiu que vai se dedicar à neurociência, fazendo pesquisas sobre patologias e seus tratamentos, podendo até de enveredar pela área cirúrgica. A única dúvida, nesse momento, é daquelas que fariam o deleite de qualquer estudante: ele ainda não decidiu se faz Medicina na USP-Pinheiros, em São Paulo, onde passaria a morar, ou na Unicamp, em Campinas, onde já trabalha.

 

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