Nota no Enem não pode guiar opção por escolas, dizem especialistas

Nota no Enem não pode guiar opção por escolas, dizem especialistas

Ranking dos colégios no exame tem norteado a decisão dos pais; para estudiosos, outros fatores devem ser levados em consideração

Júlia Marques, O Estado de S. Paulo

16 Setembro 2014 | 03h00

SÃO PAULO - Para escolher o melhor colégio para a filha adolescente, a publicitária Lúcia de Fátima Perez, de 51 anos, desenhou até um gráfico. A posição da instituição no ranking do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi um dos pontos traçados na curva que pesou na escolha. Com a importância que o exame ganhou nos últimos anos como forma de ingresso no ensino superior, o desempenho das escolas no Enem tem balizado a decisão dos pais. Especialistas, no entanto, questionam o ranking e ponderam outros fatores que devem ser levados em consideração na hora da matrícula.

Em 2006, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) passou a divulgar a média das instituições no exame e, nos últimos anos, o ranqueamento das escolas se popularizou. “A primeira vez que soube de ranking, achei estranho, mas nos Estados Unidos todo mundo usa”, conta Lúcia, que há quatro anos optou por deixar a escola de metodologia construtivista e matriculou a filha no Colégio Albert Sabin, na zona oeste de São Paulo. “O Enem contou, mas não foi o foco. O principal foi a preparação dos professores”, diz. A filha Larissa, de 16 anos, já treina a resolução de testes dos maiores vestibulares do País e de universidades do exterior.

Qualidade. Para os especialistas, a nota da escola no Enem não é necessariamente um indicativo de que o ensino é bom. “O exame é muito mais um mecanismo de ingresso do que de avaliação do ensino médio”, explica o coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara. Segundo ele, o uso da nota no Enem como atestado de qualidade é falho e parte de uma concepção de que o objetivo do ensino médio é formar o aluno para que ele vá bem no vestibular.

O fato de a adesão ao exame ser uma escolha individual, afirma Cara, também tira a força da nota da escola no Enem como um dado relevante para a comparação entre as instituições. A doutora em Educação pela Universidade de Harvard Paula Louzano alerta ainda para os mecanismos criados pelas escolas de separar bons alunos, formando uma espécie de filial, a fim de garantir que os melhores ajudem a instituição a subir no ranking. “Quem faz a prova determina a suposta qualidade da escola”, diz. 

Para o professor Rodrigo Travitzki, a diferença de nota no Enem entre um colégio e outro tem a ver com a origem dos alunos. Em sua tese de doutorado defendida na Universidade de São Paulo, Travitzki concluiu, após análise sobre as notas de escolas no Enem 2009, que o nível socioeconômico das famílias influencia 75% da nota das instituições. “Muitas escolas em condições desfavoráveis fazem um excelente trabalho, mas estão lá embaixo porque as condições externas contam mais no ranking do que aquilo que é feito internamente”, explica.

Em seu estudo, Travitzki propôs uma alternativa ao ranking. O pesquisador identificou as melhores instituições de cada região em termos de efeito escola - que é uma estimativa do quanto a instituição vai “além do esperado”, dadas as condições em que atua.

Segundo os especialistas, não há uma régua única que avalie a qualidade das escolas, até porque o conceito de qualidade está longe de ser um consenso, mas há diferentes fontes de informação. A média do Enem pode ser somada a elas. Nesse caso, alguns cuidados são válidos. Para Paula Louzano, ao comparar notas de colégios, é importante verificar se as instituições são similares. Escolas que fazem seleção na matrícula, por exemplo, não devem ser comparadas às que não fazem. 

Família. De acordo com Daniel Cara, o sucesso escolar de uma criança ou adolescente tem muito mais relação com o grau de atenção que os pais dão para a educação do que com a escolha de instituição bem posicionada no ranking do Enem. “A preocupação em acompanhar a trajetória da criança é de fato determinante”, afirma.

De olho na preparação do filho adolescente, Rosângela Chiari, de 45 anos, diretora na rede estadual de São Paulo, decidiu neste ano trocar a escola do filho Enrico. “Ele estudava em um colégio que usava as apostilas inadequadamente”, diz. “No último ano, eles focam bastante no vestibular e isso pesou na escolha”, conta ela, que também procurou saber a posição no ranking. 

O adolescente, de 16 anos, matriculado no 2.º ano do ensino médio no Colégio Anglo Morumbi, na zona sul de São Paulo, explica que ainda não tem certeza sobre qual carreira deve seguir, mas já vai começar a orientação vocacional. 

O coordenador de ensino médio do Anglo Morumbi, Carlos Eduardo Pereira, lembra que, nas entrevistas que antecedem as matrículas, vários pais já questionaram a preparação para o exame e a posição do colégio no ranking. “Tomar decisão só com base nisso é um erro. Conheço escolas que construíram um currículo surreal em que o aluno não tem tempo para atividades como a prática esportiva”, diz.

Contra a correnteza que conduz para os vestibulares, escolas com pedagogias alternativas fazem questão de deixar claro que a carreira não é o objetivo final da educação. “O mais importante é preparar os alunos para que saibam dar uma direção para suas vidas”, explica Zita Cecchini, vice-diretora do Colégio Waldorf Micael de São Paulo, na zona oeste.

A metodologia da escola foi escolhida pelo fotógrafo Rogério Abbamonte, de 49 anos, para a educação da filha Isadora. Matriculada no 1.º ano, a adolescente de 15 anos estuda desde criança em colégio que segue a pedagogia Waldorf. No ensino médio, mesmo com a pressão dos vestibulares, a família não pretende mudar a opção. “Não há a necessidade de estar na faculdade aos 19 anos”, diz. O pai explica ainda que a escola exige muito a presença dos pais na educação. “A família ajuda a escola a funcionar, acompanha o processo.”

A disciplina preferida de Isadora é um mistério para a maioria das pessoas. “Euritmia é a dança que mexe com o anímico. É como terapia com dança”, tenta explicar. A adolescente de 15 anos tem a leveza de estudar sem cobranças extremas. “Não deixo o vestibular tomar conta da minha vida escolar”, diz. 

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