Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

No protesto do 'saiaço', alunos de Direito da USP vão às aulas vestidos de saias

Manifestação ocorre em apoio a estudante da USP Leste hostilizado por colegas por usar saias

Davi Lira, O Estado de S. Paulo

16 Maio 2013 | 13h43

Nem terno, nem gravata. Estudantes do tradicional curso de Direito da USP resolveram ir para a faculdade vestidos de saias, em sua maioria floridas. O protesto, prometido desde a semana passada, ocorreu nesta quinta-feira (16) no Largo São Franscisco, centro de São Paulo. A manifestação ocorre em apoio a um estudante da USP Leste que no final de abril foi hostilizado por colegas nas redes sociais por ter ido às aulas vestido de saia.

De acordo com os alunos, cerca de 30 estudantes participaram no final da manhã do protesto na Faculdade de Direito. Algumas alunas também manifestaram apoio à causa, utilizando acessórios masculinos. "É importantíssimo um protesto como esse. Hoje a saia entrou no lugar da calça, mas o blazer resolvi manter", diz Matias Vale, de 24 anos, aluno da SanFran - como é conhecida a instituição.

Para Matheus Ribas, estudante do 2º período da instituição, o protesto visa a sinalizar de forma contrária as ofensas recebidas pelo estudante da USP Leste. "Sabemos que as ofensas têm traços de preconceito e são relacionadas à homofobia. É preciso reprimir posturas como essas", diz Ribas. 

Segundo o calouro João Henrique D´Ottaviano Sette, de 18 anos, trata-se de um ato de solidariedade. "Estamos nada mais que manifestando nossa solidariedade ao colega da USP Leste", fala Sette.

O estudante, no entanto, acrescenta que é importante trazer temas como a intolerância para a discussão dentro da universidade. "Sabemos que se sairmos dos muros da faculdade com saias, seremos hostilizados pela sociedade e podemos até ser agredidos por isso", afirma Sette.

Conforme outro aluno, que preferiu não ser identificar, a opressão ainda é muito "grande" não apenas na sociedade como dentro da própria universidade. "As pessoas precisam se dá conta que roupa não tem gênero, nem reflete comportamentos tão estritos. Infelizmente aqui na faculdade ainda há muita opressão também", diz o jovem.

De acordo com o médico e sexólogo Amaury Mendes Júnior, delegado regional da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana, é preciso olhar "com cuidado" o acontecimento.

"É lamentável que em pleno século 21, estudantes sofrerem algum tipo de sanção pelo simples fato de estarem vestindo roupas não convencionais. Esse protesto ataca a questão da sexualidade e vai contra os padrões normativos da maioria", fala Mendes Júnior.

Estudantes de outros cursos da USP prometem ampliar o protesto na noite desta quinta. Tanto na São Franscico, quanto no câmpus da zona leste e na Cidade Universitária.

 

Entenda o caso

No dia 24 de abril, Vitor Pereira, estudante do curso de têxtil e moda da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (Each) da USP, localizada na zona leste, resolveu ir para as aulas vestido de forma diferente.

"A minha intenção não foi ir de saias para 'causar'. Fiquei até nervoso no caminho de casa até à faculdade, já que uso dois ônibus para ir até a Each", diz Pereira, de 20 anos.

Além de ter uma família conservadora, ele se dispôs a enfrentar olhares de desaprovação também na rua. "As pessoas olham bastante. Tem gente fica encarando o tempo todo. E de vez em quando sempre escuto um 'veado' na rua. Mas consigo lidar com isso isso", afirma Vitor.

A sua iniciativa também causou resistência entre colegas da universidade. "Com estudantes do meu curso de moda não tive muito problema, já que desde 2005 alguns colegas já vieram de saias, mas recebi agressões anônimas pesadas pelo Facebook", fala  Pereira.

Os insultos que divergem de sua visão de mundo. "Desde pequeno, nunca vi diferença entre roupa de homem e de mulher. Como tenho pernas mais grossas que a cintura, resolvi experimentar a saia", fala Vitor. E o resultado da experimentação não poderia ser melhor. "Com as saias, me sinto mais confortável e fresco. Ela me deixa mais livre", fala.

 

Inspiração

Como bom estudante de moda, o jovem tem como principal fonte de inspiração o estilista francês Yves Saint Laurent. No Brasil, não faltam elogios ao mineiro João Pimenta. "O Pimenta faz saias incríveis, mas infelizmente não tenho dinheiro para comprá-las", brinca.

Mas se o dinheiro é curto, a criatividade é ilimitada. "Já tô com umas ideias de confeccionar três modelos de saias inspiradas no Pimenta. Tenho que produzí-las com a ajuda de uma costureira, já que em São Paulo, tem que ter sorte nos brechós para achar saias para homens", fala Vitor.

Contente com os elogios, o estilista mineiro João Pimenta, de 45 anos - morando em São Paulo há mais de 20 -, disse à reportagem que o seu trabalho com saias é de longa data.

"Eu já faço um trabalho com moda há 17 anos. Desde o primeiro desfile já apresentava a saia longa para meninos. Ela combina mais com o homem do que com mulher", fala Pimenta.

Para o estilista, a adequadação da saia ao homem se justifica pela forma física do usuário. "Os homens deveriam usar mais saias. Especialmente se for observado a questão física, o corpo se encaixa com a forma de construção da roupa", complementa.

Sobre as ofensas que estudantes que optam pelas saias poderiam receber ele é categórico. "O brasileiro acha que a roupa define muita coisa. A roupa não define opção sexual, ela expressa um estado de espírito", fala Pimenta. 

 

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ATUALIZADA ÀS 16H05

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