No líder do Enem, 12 horas na escola

Conheça a rotina de Giuliano Mello, que fica das 7h15 às 19 horas no Vértice – colégio de São Paulo que pela primeira vez obteve a melhor nota do País

Carlos Lordelo, O Estado de S. Paulo

19 Julho 2010 | 00h34

Dedicação. Giuliano Mello, de 16 anos, com seus colegas do Vértice

 

Giuliano Mello, de 16 anos, não se considera um privilegiado. Mas não esconde a satisfação de estudar no melhor colégio com a melhor classificação no Enem - o Vértice, na zona sul da capital. "Não me sinto pressionado a dar continuidade a essa fama, mas penso em como posso usufruir dessa oportunidade", diz o aluno de uma das duas turmas do 3º ano do ensino médio.

 

Desde a edição 2005 do Enem, o Vértice tem o melhor desempenho entre os estabelecimentos de ensino da capital paulista e fica entre os dez colégios 'top' do Brasil. Foi naquele ano que o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) passou a divulgar as médias obtidas pelos estudantes de cada uma das escolas do País que participam do exame.

 

Giuliano estuda no Vértice desde a 6ª série do ensino fundamental. Saiu do colégio antigo porque "queria um ensino mais forte". Não se arrependeu, mesmo que hoje tenha de ficar quase 12 horas seguidas na escola.

 

De segunda a sexta-feira, os 60 alunos do 3º ano têm aulas das 7h15 às 12h45 e das 14 horas às 19 horas. Também são frequentes atividades aos sábados, como simulados e grupos de estudo. Giuliano vê a carga horária "puxada" de duas maneiras: "Estudar 12 horas é loucura, mas o tempo que passo aqui à tarde seria o tempo que passaria num cursinho", diz. "Pelo menos não levo lição para casa e só estudo alguma coisa fora da escola se eu realmente não tiver entendido."

 

Ele quer fazer Engenharia, não sabe se Mecânica ou Mecatrônica. O gosto por equipamentos veio do pai, que trabalha com máquinas de bordar computadorizadas. E o garoto sonha alto: "Toda vez que vejo um produto da Apple, eu penso: ‘Nossa, ainda vou fazer um desses’", conta.

 

Segundo Giuliano, a maioria dos estudantes do Vértice pensa em fazer Engenharia ou Medicina. Há os que prefiram Economia ou Administração. Ele acha que o colégio, ao privilegiar matérias como matemática, física e biologia, estimula habilidades necessárias para essas profissões. E, para ele, isso não é "necessariamente bom". "Se uma pessoa tiver aptidão para moda ou música, por exemplo, não vai se desenvolver muito aqui."

 

Nesses seis anos de Vértice, o garoto descobriu que jovens de outros colégios têm preconceito em relação ao lugar onde ele estuda. "Tem gente que pensa que quem estuda no Vértice é bobão, só pensa em estudar, mas eu tenho vários colegas que saem para balada todo fim de semana", defende o vestibulando, que gosta do relacionamento com os colegas, professores e direção.

 

Mas, para ele, o colégio poderia investir mais em infraestrutura. "Seria bom ter mais laboratórios, considerando o valor que pagamos", diz. A mensalidade do 3º ano no Vértice é a mais cara entre as 30 melhores unidades de ensino paulistanas, segundo as notas do Enem: 13 parcelas de R$ 2.756,00.

 

Nas horas que restam ao jovem durante a semana, ele gosta de fazer exercícios físicos - alterna musculação com aulas de kickboxing, esporte que começou a praticar no ano passado. "Entrei mais para aprender, e neste ano está servindo para eu esvaziar a mente dos pensamentos em notas e trabalhos. Ali é meu momento de paz."

 

FALA, MÃE!

Lilian Misako Goto de Mello, de 49 anos, psicanalista

 

"O Giuliano sempre foi muito interessado nas matérias e participativo em sala de aula. Por isso, tentamos privilegiar uma escola que desse uma formação mais humanista. Só que, onde ele estudava antes, começou a acontecer de apenas um ou dois alunos prestarem atenção nas aulas. Daí ele pediu para sair, isso na 6ª série, e fizemos a escolha juntos pelo Vértice.

 

Ele foi assistir a uma aula lá, por sugestão de amigos. Gostou muito e pediu para estudar no Vértice. Eu acho o colégio super adequado para meu filho. Não tem esse negócio de 'fundão' e todos prestam atenção. O perfil dos alunos é de pessoas interessadas nas aulas.

 

O Vértice também privilegia uma formação mais forte. Estamos numa geração de crianças e adolescentes com dificuldades em seguir regras. As escolas seguem muito esse caminho alternativo, de ‘vamos ouvir o aluno’, e está perdendo um pouco a autoridade sobre os alunos.

 

Mas eu também acho que o Vértice tem uma carga horária excessiva, principalmente no 3º ano do ensino médio. Não sei se eles fazem isso para que os alunos não precisem fazer cursinho. Mas também não sei se precisa desse tanto de aula para o aluno estar preparado para o vestibular. Ele fica tão estressado e talvez isso acabe prejudicando seu desempenho.

 

O fato é que meu filho não tem tempo para fazer praticamente mais nada. Antes ele ainda fazia aulas de guitarra, por exemplo. Hoje, não dá mais."

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