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Nível de inglês no Brasil é baixo e país fica em 38º em ranking

Marina Azaredo - Estadão.edu

25 Fevereiro 2014 | 15h 11

Estudantes brasileiros fizeram parte de estudo que contou com 60 países

Crédito: Daniel Teixeira/Estadão

Até os 24 anos, os conhecimentos de inglês do analista contábil Thiago Orgélio (foto), hoje com 28, não iam muito além do verbo "to be". Ex-aluno de uma escola pública da zona sul de São Paulo, ele conta que pouco aprendeu. "Passei os três anos do ensino médio vendo os mesmos conteúdos", lembra. Após concluir a graduação em Ciências Contábeis, ele decidiu que era hora de correr atrás do tempo perdido e se matriculou em um curso de inglês. Hoje faz aulas particulares duas vezes por semana na empresa em que trabalha.

Assim como o Orgélio de quatro anos atrás, o nível de proficiência em inglês da maioria dos brasileiros é baixo. É o que mostra o Índice de Proficiência em Inglês, um estudo feito pela Education First, uma rede de escolas de idiomas e programas de intercâmbio presente em 55 países. Segundo o índice, que está na terceira edição e analisou testes de 750 mil pessoas ao redor do mundo, o Brasil tem proficiência baixa em inglês, ficando na posição 38 do ranking, que conta com 60 países.

Na mesma faixa do Brasil, estão países como Irã, Sri Lanka e Egito. Entre os latino-americanos, os brasileiros ficam atrás dos argentinos, uruguaios e costa-riquenhos. A Argentina figura na faixa de proficiência moderada e é a nação latino-americana mais bem colocada. Mesmo tendo subido oito posições em relação ao último levantamento e passado da proficiência muito baixa para a baixa, a situação do País ainda é preocupante, segundo Luciano Timm, diretor de marketing da EF no Brasil.

"O ganho de renda do brasileiro produziu resultados no aprendizado, pois a nova classe média passou a ter acesso a cursos particulares de inglês. Mas a situação nas escolas pouco mudou nos últimos anos. A qualificação dos professores ainda é baixa, o inglês é visto como uma disciplina menos importante e as aulas são focadas apenas na gramática, por conta do grande número de alunos por sala", afirma.

O inglês ensinado na escola é de fato o grande gargalo para que a proficiência do idioma melhore no Brasil, segundo especialistas da área. "Só agora o ensino de inglês está realmente virando uma pauta do Ministério da Educação, que, finalmente, está olhando com mais seriedade para essa questão", afirma Marcelo Barros, presidente da Braz-Tesol, a maior associação de professores de inglês do País.

A grande quantidade de escolas de idiomas no Brasil - são mais de 6 mil filiais de 70 redes - deve-se, segundo Barros, justamente à deficiência do ensino da língua no ensino regular. "Essa configuração não existe em nenhum outro lugar do mundo. Não existem grandes redes de franquias, apenas centros binacionais para o ensino de línguas", diz. Ele mesmo é diretor de educação do CNA, uma das maiores redes do País. "Só tenho emprego porque o governo não está fazendo o trabalho dele."

No entanto, para Walkyria MonteMór, professora do Departamento de Letras Modernas da USP, é possível aprender inglês na escola pública. "Precisamos de uma outra proposta, que inclua uma formação mais adequada dos professores, mas também é necessário repensar a função da língua estrangeira", diz.

Apostas. Para melhorar o nível de inglês de seus alunos, algumas redes de ensino estão trabalhando em duas frentes: aumentar a exposição dos estudantes à língua e qualificar os professores, considerada a ação mais urgente pelos especialistas. "Não se aprende inglês na faculdade de Letras", diz Marcelo Barros.

Para melhorar a qualificação dos docentes, as Secretarias Municipal e Estadual de Educação oferecem vagas em cursos organizados em parceria com instituições como Alumni e Cultura Inglesa. Só o Programa de Formação Contínua de Professores de Inglês da Rede Pública, da Cultura Inglesa, desenvolvido em parceria com a PUC-SP, já atingiu mais de 5,9 mil docentes desde 1995. A rede municipal afirma ainda promover cursos de formação internos para cerca de 400 professores anualmente.

Com o objetivo de aumentar a exposição dos alunos à língua, a rede municipal adiantou a idade em que os alunos começam a ter aulas de inglês. Antes presente apenas no ensino fundamental 2 (da 6.ª à 9.ª série), o inglês está desde 2012 também nas séries iniciais. "Percebemos que era importante promover o contato com a língua o quanto antes, para que o aluno da escola pública tenha as mesmas condições e oportunidades daquele que estuda em escola particular", afirma Christiane de Souza, da Divisão de Orientação Técnica de Ensino Fundamental e Médio da Secretaria Municipal de Educação.

Nas escolas do Estado, uma iniciativa parecida está sendo implementada: desde 2013, um grupo de 1,5 mil estudantes dos primeiros anos do fundamental faz parte de um projeto-piloto que oferece inglês para essa faixa etária.

Copa do Mundo. Em ano de Copa do Mundo, a falta de proficiência do brasileiro na língua inglesa tem preocupado autoridades e organizadores do evento. "A empresa que contrata motoristas para acompanhar as delegações está tendo uma dificuldade enorme para encontrar profissionais bilíngues. O caso mais emblemático é o de Cuiabá. Estão até cogitando encher um ônibus de motoristas de São Paulo e mandar para lá", conta Barros. O salário para função, segundo ele, pode chegar a R$ 12 mil líquidos por 45 dias.

Mesmo com a proximidade do evento e das Olimpíadas de 2016, especialistas consideram que a visão do brasileiro em relação à importância do inglês ainda não mudou o suficiente.

"Há uma conscientização, mas não existe ação. E qualquer ação não poderia ocorrer apenas um ano antes do evento. Ninguém vai aprender inglês para a Copa, isso não existe. O inglês varia de acordo com a realidade de cada um. Não há boas iniciativas institucionais e a população não está mobilizada para estudar inglês", diz Vinícius Nóbrega, gerente acadêmico da Cultura Inglesa.

Ciência sem Fronteiras. O programa encontrou obstáculos justamente na baixa proficiência de inglês dos brasileiros. Em 2012, um em cada cinco dos inscritos no programa optou por tentar intercâmbios em Portugal, pela facilidade com o idioma. O resultado foi um grande número de candidatos a intercâmbio no país, o que fez com que o governo cancelasse as bolsas para instituições portuguesas. Parte dos alunos já selecionados foi enviada aos EUA. É o caso do estudante de agronomia Álisson Lander, de 25 anos. Desde setembro na Illinois State University, ele está apenas estudando inglês. "Provavelmente não vou ter tempo de fazer o estágio que estava previsto", diz. Segundo a Capes, 11% dos alunos que vão para países de língua inglesa têm de estudar o idioma antes do início das atividades acadêmicas.