WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

‘Nem toda tecnologia é cara’, diz especialista

Professor de Stanford criou um projeto que leva laboratórios de criação digital a escolas de ensino básico em vários países

Entrevista com

Paulo Blikstein

Victor Vieira, O Estado de S. Paulo

30 Agosto 2015 | 03h00

Parece caro, mas não é. “Montar um Fab Lab na universidade depende mais das pessoas do que dos equipamentos”, diz o brasileiro Paulo Blikstein, professor da Universidade de Stanford. Lá, ele criou um projeto que leva laboratórios de criação digital a escolas de ensino básico em vários países, como Rússia, Tailândia e México.

Segundo Blikstein, também é papel do movimento maker tornar a escola fundamental e média mais atrativa, principalmente aos alunos pobres. “Precisamos fazer a criança da periferia se apaixonar pela escola”, defende ele, que participou na semana passada do Transformar, evento sobre inovações educacionais promovido pela Fundação Lemann, pelo Porvir/Inspirare e pelo Instituto Península. 

Como a cultura maker muda a relação com o conhecimento no ensino superior? 

Ao construir e refletir sobre a criação, você aprende mais do que se a informação ficar só na sua cabeça. Os Fab Labs funcionam para isso. Eles são um capítulo de um processo maior de reformulação, iniciado na década de 1990, sobre o ensino de Engenharia, que estava muito teórico. 

O movimento maker ainda é incipiente no Brasil?

É o começo e está se espalhando. Estamos cinco, dez anos atrás dos Estados Unidos. Mas temos condições de alcançar os países mais adiantados porque os Fab Labs se encaixam bem na cultura brasileira, criativa e inovadora. 

A cultura maker ainda está muito restrita ao ensino de Engenharia?

No Brasil, sim. Em outros países, já é mais usada nas áreas de Arquitetura, Artes e Design. Em todo campo em que é preciso criar objetos físicos, artísticos ou tecnológicos, tem tido grande espaço. 

A percepção de que o Fab Lab é caro ainda atrapalha?

Há a imagem errada de que tudo com tecnologia é caro. Temos kits de robótica que custam o mesmo que um livro e impressoras 3D no preço de um laptop. Não precisamos usar um modelo americano e dizer que todos devem ser daquele jeito. É bom adaptar à realidade local. E não depende das máquinas - só algumas básicas são necessárias -, mas das pessoas. É mais uma cultura do que maquinário. O ideal é que, para cada real gasto com equipamento, outros R$ 9 sejam usados com pessoas. 

Em um espaço maker, onde há grande autonomia, qual é a importância da mediação? 

A mentoria é determinante para o sucesso do Fab Lab. Nas instituições de ensino, é essencial ter o professor que vai ensinar, propor projetos, temas de interesse e formas de trabalho colaborativas. Uma ideia errada, e bem comum, é de que todo aluno é hacker: é só deixar ele no laboratório e saem projetos brilhantes. Não funciona assim. 

Como a cultura maker nas faculdades ajuda a mudar o ensino básico?

Se há mais espaços desse tipo no ensino superior, isso valida ações no ensino básico. E, nessa etapa, é o aluno de baixa renda quem mais se beneficia do Fab Lab. Muitos acham que a escola de elite precisa de laboratórios e robótica e a escola pobre, só do básico. É exatamente o contrário. O aluno da periferia é quem precisa se apaixonar pela escola. Não só para aprender, mas ver que aquele lugar é interessante e ele se sentir valorizado. Além disso, o movimento maker ajuda a criar, no futuro, profissionais que usarão a Ciência e a Matemática de modo mais eficiente. 

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