Wilson Camargo/Divulgação
Wilson Camargo/Divulgação

'Não vamos abandonar nosso vestibular', diz reitor do Mackenzie

Em entrevista, Benedito Guimarães faz balanço de gestão e justifica uso do Enem no vestibular

Carlos Lordelo, do Estadão.edu,

22 Abril 2012 | 02h37

Quer estudar na Universidade Presbiteriana Mackenzie no próximo ano? Faça o Enem em novembro. O recado é do reitor da instituição, Benedito Guimarães Aguiar Neto. “Se as notas do exame forem divulgadas a tempo, poderemos utilizá-las em composição com a pontuação do nosso vestibular convencional”, diz.

 

Benedito está no centro de uma polêmica por adotar o Enem 2011 para preencher pouco menos de metade das vagas do processo seletivo de inverno. Quem prestou o exame pôde concorrer a 2.555 vagas na graduação, em um edital específico que já encerrou as inscrições. Outras 2.630 cadeiras estarão em jogo no vestibular tradicional, que recebe inscrições até 28 de maio.

 

De um lado, estudantes convocaram protestos para dizer que o uso do Enem levaria à “perda do valor” do diploma. De outro, a reitoria afirma que o exame nacional é “democrático e inclusivo”. Na entrevista abaixo, Benedito justifica a opção pela prova do Ministério da Educação e fala das principais atividades de seu primeiro ano de mandato.

 

O sr. fez toda a carreira acadêmica em universidade pública. Como foi assumir a gestão de uma universidade particular?

Foi uma experiência importante como gestor de universidade pública que me possibilitou a administração de uma universidade particular. A universidade pública é uma instituição engessada. O dirigente nem sempre consegue implementar aquilo que deseja. Existem conselhos engessados e leis e regras inflexíveis em relação a ações de melhoria, seja da qualidade do ensino, da pesquisa, ou da dinamização da pós-graduação. Por isso, vejo coisas no Mackenzie em que posso dar uma contribuição direta, porque agora tenho os mecanismos disponíveis.

 

Quais foram as principais conquistas de sua gestão até o momento?

Quando assumimos, reformulamos a estrutura acadêmico-administrativa de toda a universidade. Criamos várias coordenadorias, para que pudéssemos implementar um projeto que chamamos de Visão 150: um conjunto de diretrizes e metas para o ensino, a pesquisa e a extensão apontando para um horizonte de dez anos. O objetivo é aproximar o Mackenzie da sociedade e repensar o perfil do profissional que formamos, consolidar e abrir novos programas de pós lato e stricto sensu, e pensar também na criação de cursos, como os de Engenharia Civil e de Produção que vamos implantar no câmpus de Campinas.

 

Como vocês pretendem mudar o perfil do aluno formado pelo Mackenzie?

Iniciamos um processo de reformulação curricular de todos os nossos cursos de graduação. Todos eles passarão por uma revisão dos projetos pedagógicos no sentido de melhor se adaptarem às demandas do mercado de trabalho. Hoje as exigências não são as mesmas de dez anos atrás. São cobradas habilidades e competências em algumas áreas que sequer eram pensadas no passado. Por isso, vamos realizar um grande evento no dia 17 de maio para debater a universidade contemporânea e apontar as perspectivas do futuro. Vamos discutir, inclusive com professores de outras instituições, os desafios da universidade no que diz respeito à formação dos alunos e ao perfil exigido do professor. Por falar em professor, juntamos duas unidades para criar o Centro de Educação, Filosofia e Teologia. O objetivo é dar mais identidade à área de Humanas e fortalecer nosso curso de Pedagogia, que dará apoio às demais licenciaturas. Estamos preocupados com a formação de professores, um problema nacional, e temos procurado atrair mais candidatos para as licenciaturas oferecendo bolsas de permanência, por exemplo.

 

E na pesquisa, quais são as novidades?

Estamos consolidando nossos programas de pós ao estabelecermos novas parcerias com instituições nacionais e sobretudo estrangeiras, no sentido de termos uma maior inserção internacional. Estamos introduzindo programas de captação de pesquisadores para pós-doutorado na nossa instituição, concebemos um programa de apoio a professores visitantes e estamos agora oferecendo, a partir do segundo semestre, bolsa de isenção integral das mensalidades e taxas nos nossos programas de doutorado. Não vamos cobrar taxas para captar alunos ainda melhores, criar um ambiente em que os pesquisadores possam se dedicar ainda mais à pós e ter uma produção científica ainda maior e mais relevante.

 

O sr., enquanto funcionário de universidade pública, criticava a produção científica nas particulares? Pesquisa e extensão são aspectos que o sr. pretende estimular?

Nos preocupamos para que a pesquisa não seja apenas eminentemente acadêmica, no sentido de formar novos recursos humanos, que serão novos pesquisadores, que formarão outros pesquisadores. Isso é um papel importante da universidade. Mas também para que a pesquisa atenda às demandas diretas da sociedade, nos setores industrial, de serviços e cultural. Estamos falando da pesquisa aplicada. Nesse sentido implantamos o Mackenzie Soluções, um programa sob responsabilidade direta da mantenedora (Instituto Presbiteriano Mackenzie) que faz a interlocução entre os setores produtivos e a academia. O objetivo é facilitar a transferência de tecnologia e a prestação de serviços e de consultorias. O que hoje, na universidade pública, é praticamente impossível. Conheço os dois lados da moeda e lamento muito que a universidade pública esteja cada vez mais se fechando em si mesma. Fazendo pesquisa para si própria, sem se preocupar com a demanda da sociedade.

 

E o que o Mackenzie tem feito na pós lato sensu?

Fechamos recentemente um convênio com a HSM para lançar um programa de educação executiva. Fomos escolhidos como parceiros e preparamos três salas de aula para receber os alunos no câmpus de Campinas. Vamos oferecer cursos de MBA e pós-MBA. Não lançamos aqui em São Paulo porque não temos espaço físico para isso. Inclusive um dos projetos da nossa mantenedora é ampliar nossas instalações. Vamos construir um prédio ao lado da Estação Higienópolis-Mackenzie do Metrô, para onde vamos transferir os cursos lato sensu e a Faculdade de Direito, cujas instalações não comportam mais a demanda de alunos pelo fato de ser uma das unidades mais antigas do Mackenzie.

 

Por que a universidade adotou o Enem no próximo vestibular de inverno?

O Mackenzie já utilizou o Enem, até 2009. Deixou de fazê-lo por uma razão muito simples: o resultado passou a sair muito tarde, tornando o processo impraticável. No próximo vestibular resolvemos usar o Enem porque o resultado já está disponível. E nós consideramos o Enem uma das formas de avaliação mais democráticas e inclusivas que temos, hoje, no País. O aluno não precisa mais se deslocar até a universidade onde quer estudar para prestar o vestibular. Ele faz a prova na sua cidade e pode, então, pleitear, através de sua inscrição em um edital específico, uma vaga na universidade. O Enem permite uma capilaridade interessante na captação de alunos, mais que o vestibular convencional - embora o vestibular convencional tenha todos os seus méritos. Nós vamos continuar com esse método convencional. Tanto é que apenas reservamos algumas das vagas do segundo semestre para quem fez o Enem.

 

O sr. integra a comissão nacional do Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes) e é avaliador institucional do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, braço do Ministério da Educação responsável pelo Enade e pelo Enem). O fato de ser ligado ao instituto influenciou o sr. a adotar o Enem no vestibular?

Não. São coisas completamente distintas. Inclusive não tenho mais atuado como avaliador institucional por falta de tempo, apesar dos convites do Inep.

 

Alguns alunos criticam a adoção do Enem 2011 porque, segundo eles, a prova já ocorreu e porque a universidade surpreendeu os possíveis candidatos ao mudar as regras do jogo. Isso aumentaria a concorrência por vagas no processo seletivo convencional, já que nem todos os interessados no Mackenzie, uma universidade particular, prestaram o Enem no ano passado. O que o sr. acha dessa análise?

É a única forma que temos de utilizar o Enem sem prejudicar o calendário. O exame, agora, mostrou-se aplicável. Quando ele não se mostrar aplicável, ele não será utilizado. E, sempre que se mostrar aplicável, poderá ser utilizado. Não necessariamente da mesma forma deste vestibular de inverno. O próximo vestibular, no fim do ano, também poderá mudar. Poderemos fazer uma combinação de notas, o que é algo extremamente interessante também - que é como usávamos a prova antes. Mas desde que as notas estejam disponíveis e não prejudique nosso calendário de seleção de alunos. Esta sugestão de combinar as notas é dos próprios alunos de Direito, embora tenham protestado contra a utilização do Enem. Eles estão sendo injustamente sendo acusados de elitistas e reacionários, de serem contra o Enem.

 

Então, quem quiser estudar no Mackenzie em 2013 deverá fazer o próximo Enem?

Sim. Aliás, todo aluno do ensino médio deveria fazer o Enem. O governo federal tem anunciado alguns programas específicos para quem prestou o exame (como o Programa Universidade para Todos e o Fundo de Financiamento Estudantil). Participar do Enem também cria as condições para o aluno pleitear vaga em diversas universidades do País, públicas e particulares.

 

Mas não se discute acabar com o processo seletivo do Mackenzie?

Não vamos abandonar o nosso vestibular convencional. Vamos sempre utilizá-lo em composição com o Enem, de maneiras que podem mudar a cada processo seletivo.

 

A ideia é que no próximo ano sejam realizadas duas edições do Enem. Isso vai facilitar o uso do exame?

Vai ser interessante, porque certamente o resultado de uma das edições sairá a tempo.

 

Apesar de todos os problemas do Enem, as notas das edições 2009 e 2010 já estavam disponíveis no meio do ano seguinte. Por que o Mackenzie não as utilizou nos últimos dois vestibulares de inverno?

Não houve razão específica. Apenas agora refletimos sobre a questão e verificamos a viabilidade de utilizar as notas, no vestibular do meio do ano, que é menos concorrido. E só estou aqui há um ano, não posso responder quais foram as razões do passado. Quando assumi, todo o processo do vestibular de inverno já estava em curso. Não tivemos nenhuma ingerência sobre o exame do meio do ano passado. E não pudemos utilizar as notas do Enem no vestibular do fim do ano passado porque elas não estavam disponíveis em tempo hábil. Este próximo vestibular de inverno foi o primeiro exame que pudemos programar e refletir sobre como fazê-lo melhor.

 

A realização de vestibular próprio não é uma atividade lucrativa?

Não, basicamente cobre os custos. A universidade não tem qualquer interesse lucrativo no vestibular. Não só no vestibular, até porque somos uma instituição filantrópica. Mas naturalmente que para algumas outras instituições, como os cursinhos pré-vestibulares, é uma atividade lucrativa. Eles certamente não gostaram da utilização do Enem, porque à medida que nós reduzimos o número de alunos que vai ingressar pelo processo convencional, os cursinhos terão menos alunos matriculados. Se há algum prejuízo sob o ponto de vista financeiro, ele não é nosso. E certamente não estamos preocupados com isso.

 

Como o sr. avalia a decisão de ter adotado o Enem considerando que este é um ano eleitoral e que o ex-ministro da Educação Fernando Haddad é candidato a prefeito de São Paulo? Foi um bom timing para essa decisão?

Não vejo qualquer correlação entre uma coisa e outra. A utilização do Enem no Mackenzie não tem nada a ver com eleições para a Prefeitura. Nem poderia ter, são coisas completamente distintas. A universidade é apartidária. Não somos orientados por posicionamento político-ideológico de qualquer ordem.

 

Ouvimos críticas de que a adoção do Enem foi uma decisão pessoal do sr..

A utilização do exame foi discutida pelo Decanato Acadêmico, composto por quatro coordenadorias, e pela Comissão de Processo Seletivo. Em virtude do tempo exíguo que tínhamos para lançar o edital, divulgá-lo e dar mais chances aos candidatos que desejassem ingressar no Mackenzie, não submetemos para apreciação do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão. Foi um ad referendum da reitoria, uma ação prevista pelo estatuto e que pode ser feita. Nós temos toda a preocupação de respeitar nossos conselhos superiores, dos quais o reitor é o presidente. E estatutariamente ele tem a prerrogativa de, havendo necessidade, deliberar ad referendum.

 

Fala-se muito dos problemas do Enem, mas pouco do exame enquanto avaliação e vestibular. O sr. considera o Enem uma boa prova?

É uma prova avançada em que há preocupação de abordar o assunto de maneira mais holística, e não pontual. O aluno não é visto como repositório de informações, mas de uma forma mais holística. É a mesma ideia do Enade, o que representa um avanço muito grande em termos de avaliação. O desafio que temos na universidade contemporânea hoje está exatamente relacionado ao aspecto da avaliação. A universidade precisa desenvolver a capacidade de avaliar habilidades, competências e atitudes do aluno. Isso não tem sido feito. E a proposta do Enade, que está sintonizada com a do Enem, vai exatamente nessa direção. Não digo que o Enem ou o Enade atingiram esse objetivo, mas têm esta meta. A universidade também precisa introduzir esse mesmo conceito nos seus processos avaliativos. Este é um grande desafio. Estamos preocupados com a questão e ela será levada em consideração na reformulação dos projetos pedagógicos dos nossos cursos. Queremos novos argumentos pedagógicos que levem ao desenvolvimento de competências e habilidades.

 

Qual a opinião do sr. sobre o protesto de alunos contra o uso do Enem no vestibular?

Os alunos têm liberdade de expressão na universidade. Aqui, o livre pensamento é incentivado. Lamentamos apenas que o Enem tenha sido levantado como bandeira de reivindicação no sentido de que ele desvaloriza o diploma. Uma pequena parcela de alunos participou desse protesto. Tivemos cerca de 300 alunos na manifestação e temos 34 mil estudantes na graduação. Outra coisa: os alunos que entraram pelo Enem ou pelo vestibular convencional serão submetidos ao mesmo aos mesmos processo de avaliação aqui dentro.

 

Mas a Polícia Militar estimou em 800 o número de pessoas na rua. Considerando que o protesto foi convocado por centros acadêmicos de só dois cursos...

Não tinha 800, não. Os jornais publicaram erroneamente que havia 800 pessoas. Quem estava aqui viu. Eu acompanhei daqui de cima.

 

Além de falar em “perda do valor do diploma”, os manifestantes pediram um processo seletivo de qualidade “condizente com a tradição” do Mackenzie. O que o sr. acha que eles quiseram dizer com isso?

Não sei. Estamos em pleno século 21, 142 anos depois da fundação da nossa instituição. O que significa tradição? Nos reportarmos a cem anos atrás? A cinquenta, a trinta? Nosso propósito aqui é mantermos nossa tradição no que diz respeito aos princípios e valores. Esta é a tradição que queremos preservar. Mas se há algo dentro de nossa cultura organizacional que nós questionamos e precisamos aperfeiçoar e nos adequarmos aos tempos atuais, vamos fazer. Não é pelo fato de termos utilizado alguma prática no passado que essa prática tem de ser perpetuada. Pelo contrário: precisamos ter uma visão crítica da realidade em que vivemos hoje. Olhar para o passado nos ensina sempre alguma coisa, mas não podemos tentar trazer práticas do passado para o presente quando essas práticas não se adaptam mais à realidade atual.

 

Por que o Mackenzie fechou os portões do câmpus no dia do protesto? E o que o sr. acha de alunos terem sido alvo de spray de pimenta jogado por policiais?

Foi fechado por causa da saída das nossas crianças da educação básica. E naturalmente não vamos permitir qualquer tipo de balbúrdia aqui no nosso câmpus. Um aluno tentou pular o muro e não foi a nossa segurança que evitou que isso acontecesse, mas o policiamento lá fora. Agora, se você me perguntar se o spray de pimenta deve ou não ser utilizado, isso é uma questão do policiamento lá fora. Eu até acho que isso, se possível, deve ser evitado. Mas foge completamente ao nosso controle. No entanto, é claro que não vamos permitir que alguém, seja quem for, aluno ou não, pule os muros da universidade.

 

E dias depois houve um protesto contra o protesto dos alunos do Mackenzie.

Acho muito natural isso. Acho que a liberdade de expressão faz parte do Estado Democrático de Direito, e a universidade tem de zelar por isso e todos os aspectos ligados ao pleno exercício da cidadania.

 

Liberdade de expressão, mas sem “balbúrdia”, é isso?

Naturalmente, com ordem e decência. No momento em que a ordem estabelecida é desobedecida, nós não podemos permitir.

 

O pessoal que criticou o protesto reclamou do valor das mensalidades e da “elitização do Mackenzie”.

Não é do Mackenzie, é dos alunos do Mackenzie. Inclusive um dos líderes do movimento me ligou para dizer que não estavam fazendo um protesto contra o Mackenzie, mas contra a atitude elitista de parte dos alunos do Mackenzie de terem sido contra o Enem.

 

Então o sr. acha que não foi uma atitude elitista esse pé atrás dos alunos do Mackenzie em relação ao Enem?

Não, foi uma falta de compreensão de um momento importante que nós temos na nossa instituição e uma percepção do papel do Enem no contexto do ensino superior do País.

 

QUEM É

O maranhense Benedito Guimarães tem 57 anos, é casado e pai de dois filhos: um rapaz de 30 que faz doutorado em Letras no Mackenzie e uma garota de 21, estudante de Medicina da Universidade Santo Amaro (Unisa). O reitor cursou graduação e mestrado em Engenharia Elétrica na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Fez doutorado na Universidade Técnica de Berlim e pós-doutorado na Universidade de Washington. É professor titular aposentado da Federal de Campina Grande (UFCG) e foi diretor do Centro de Ciências e Tecnologia da UFPB e UFCG de 1997 a 2005.

 

Como presbítero da Igreja Presbiteriana do Brasil, participou, de 2004 a 2010, do Conselho Deliberativo do Instituto Presbiteriano Mackenzie (mantenedor da universidade) e do Conselho Universitário do Mackenzie. Foi escolhido para a reitoria pelo instituto e assumiu a função em 25 de janeiro de 2011. Sua gestão é avaliada a cada triênio, e ele pode ficar no cargo até os 70 anos.

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