'Na USP se formou um pensamento intelectual forte’

Eu vou me referir ao período em que estive em São Paulo, mas é verdade que há relação com outra época, a da criação da Sociologia da USP, muito influenciada por pensadores franceses. Michel Foucault e Claude Lefort, por exemplo, tiveram vínculos fortes com a universidade. Fernand Braudel, Claude Lévi-Strauss ou ainda a geração que os sucedeu foram decisivos. Outros tantos, como Roger Bastide, tiveram um envolvimento mais marginal. Mas os brasileiros tiveram o que de melhor se fazia na França na época. Os franceses desempenharam um papel determinante e positivo. E esse contato deixou traços.

Alain Touraine,

24 Janeiro 2014 | 03h00

Minha passagem pela USP não aconteceu da mesma forma que com a geração precedente, que teve uma estada longa, nem da geração que criou a USP, que foi ainda mais longa. Eu cheguei muito mais tarde. Minha primeira estada deve datar de 1959. Eu vinha do Chile, onde o reitor havia me encarregado de criar um centro de pesquisa sociológica, o que foi feito com algum sucesso. Provavelmente por causa disso, a mesma operação me foi proposta pela USP, onde o centro seria orientado à Sociologia do Trabalho.

Fui convidado de duas disciplinas de Sociologia. A primeira, dirigida pelo professor Fernando de Azevedo, era chamada de "cadeira francesa", em contraposição à de Florestan Fernandes, a "cadeira americana". A pedido dos dois, sugeri o nome de um dos assistentes de Florestan, Fernando Henrique Cardoso, que mais tarde se tornaria conhecido no mundo inteiro. Isso provocou conflito, na medida em que os professores que me haviam convidado esperavam que eu fosse fiel à linha deles. Eram pessoas pelas quais tinha estima, como Maria Isaura de Queiroz, mas que ficaram bravas comigo. O que não compreendiam é que a escolha não fora por ou contra alguma tendência.

Nessa época, creio que as três universidades da América Latina que tinham melhor reputação, em especial na área da Sociologia, eram a Universidade Nacional Autônoma do México (Unam), a Universidade de Buenos Aires e a USP, que não é federal, mas é do Estado que era e continua a ser o mais dinâmico, mais rico e poderoso do Brasil. Mas a situação evoluía e continuou evoluindo rapidamente.

Não creio que a situação política da Argentina tenha sido favorável à Universidade de Buenos Aires, ao contrário. A instituição, que girava em torno da ideia de modernização e de uma Sociologia funcionalista, foi rapidamente penetrada por ideologias radicais. Podemos dizer o mesmo da Unam, que foi penetrada por influência semelhante, ainda que menos radical e mais marxista, no sentido europeu do termo.

Logo algo fez da USP a melhor e a maior universidade da América Latina, inclusive na Sociologia, apesar da situação política e do exílio de muitos democratas e intelectuais antiautoritários. Destes, Fernando Henrique foi o porta-voz e criador de um pensamento sociológico muito original. Até então, o grande debate sobre a América Latina girava em torno da ideia de dependência. Do ponto de vista dos radicais, a dependência comandava todos os aspectos da vida política da América Latina.

A posição diferente de Fernando Henrique, que escreveu Dependência e Desenvolvimento na América Latina, e de outros por ele liderados, como o chileno Enzo Faletto, é que essas pessoas disseram que sim, a dependência é uma primeira dimensão fundamental, mas há as relações de classe e o grau de integração nacional.

Essa fórmula é a certidão de nascimento, ou ao menos de vida adulta, da Sociologia da América Latina. Aqueles que acreditavam no domínio absoluto do conceito da dependência começaram a ver que havia muitos outros fatores, mas esse pensamento era fortemente subordinado à ação militante, o que acabou se traduzindo em movimentos de guerrilha.

Não sou latino-americano, mas me coloquei categoricamente ao lado da tese da pluralidade de eixos de análise, tese que passei a defender na Argentina, no Chile, no México, em particular em meu principal livro sobre a América Latina: A Palavra e o Sangue. Em termos intelectuais, que tiveram consequências políticas, é isso que explica que a USP tenha se tornado o pensamento sociológico de referência. Na USP se formou um pensamento intelectual muito forte - e era um pensamento, não ação política." / DEPOIMENTO A ANDREI NETTO

Mais conteúdo sobre:
usp universidade 80 anos

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.