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Movimentos estudantis: a nova militância

O Estado de S. Paulo

27 Setembro 2010 | 21h 42

Ausência de grandes causas tira apelo da militância, mas há coisas novas no front, como cotistas e grupos apartidários

O movimento estudantil no Brasil tem hoje causas tão distintas como a disputa por recursos do pré-sal, a inclusão social e a redução da tarifa de ônibus. Melhor, então, falar no plural, de movimentos estudantis. Apesar da partidarização excessiva e das contestações à liderança da União Nacional dos Estudantes, há coisas novas no front. As cotas, por exemplo, levaram à universidade um público que se mobiliza por medidas práticas, não slogans distantes. Mesmo a militância tradicional modificou seu modelo de atuação, com as redes sociais.

 

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“Eles utilizam intensivamente as novas tecnologias de informação e comunicação, que também funcionam como instrumentos de participação, mobilização e criação de identidade”, diz o pesquisador Breno Bringel, do Grupo de Estudos Contemporâneos da América Latina da Universidade Complutense de Madri. Para ele, a nova militância pode ser chamada de “geração Fórum Social Mundial” – jovens que acreditam num outro mundo possível, embora não saibam ao certo como chegar lá. “Talvez essa seja sua maior riqueza, ter diálogos diferentes da esquerda.”

 

 

O atual presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito da USP, Marcelo Chilvarquer, acha que o movimento estudantil ainda é um espaço privilegiado de discussão. “Apatia é o que não tem aqui. Temos amor ao debate. É o preço da democracia.” Seu opositor nas Arcadas, Francisco Brito Cruz, da chapa Fórum de Esquerda, concorda. “É muito emocionante defender uma ideia na qual você acredita.”

 

A USP, aliás, é um bom espelho da fragmentação do movimento. Além da chapa que comanda o Diretório Central dos Estudantes, há dezenas de correntes atuantes, como o Movimento Negação da Negação, Grupo de Mulheres Pão e Rosas, Movimento A Plenos Pulmões e Liberdade USP. Eles defendem direitos das mulheres, homossexuais e negros, um mundo mais “igualitário” e causas específicas, como a ampliação das linhas de ônibus na Cidade Universitária.

 

Para o doutorando em Literatura Brasileira Dário Neto, de 33 anos, o espaço da militância se tornou mais plural. Engajado, ele já participou de greves na USP, mas se sentia discriminado por ser homossexual. “Aconteciam manifestações homofóbicas, piadas. Não há como lutar pela articulação do estudante se isso não leva em conta toda a sua diversidade.” Ele incentivou a criação do Prisma, grupo de discussão sobre gênero ligado ao diretório.

 

Como Dário, membros de cada corrente tentam convencer colegas da urgência de sua causa. “É difícil envolver e organizar. Ainda há preconceito de que política é para políticos profissionais. Queremos quebrar essa visão”, diz Natalie Drummond, filiada ao PSOL e integrante da chapa Para Transformar o Tédio em Melodia, que controla o DCE.

 

 

Adversário de Natalie nas últimas eleições para o diretório, o aluno de História Rodrigo Souza Neves, de 23, da Liberdade USP (antiga chapa Reconquista), vê excesso de influência partidária no DCE. “Somos a favor da democracia representativa, eles defendem o socialismo e não toleram divergências. Nós nos preocupamos com questões internas, como linhas de ônibus no câmpus. E eles, com a reforma agrária.”

 

Mudança no Sul

 

Privilegiar temas do interesse direto de estudantes é uma bandeira que tem sido levantada em outros Estados também. Em novembro, após 40 anos de domínio da esquerda, uma chapa apartidária venceu a eleição para o DCE da Federal do Rio Grande do Sul, universidade onde estudou a candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff. Seu presidente, o aluno de Administração Renan Pretto, de 20, defendeu na campanha mais segurança no câmpus, item irrelevante na agenda da militância mais revolucionária. Para alguns universitários, a eleição no DCE representou uma “invasão da direita” na UFRGS. “Os outros grupos estão mais preocupados com questões externas, ligadas ao Irã e ao Iraque, por exemplo”, rebate Pretto.

 

Na Federal de Minas, o DCE tem, pela primeira vez, perfil suprapartidário – a maioria é de esquerda, mas também há um representante do PSDB. “Nosso objetivo é fazer uma gestão voltada para a universidade, que garanta o funcionamento do DCE, e não o seu aparelhamento”, diz o estudante de Engenharia Pedro Coelho Silva, de 20 anos, coordenador-geral do diretório. Filiado ao PT, ele tem um discurso pragmático. “Nossa gestão costuma ser criticada pela relação saudável com a reitoria, mas a gente não concorda com a prática de brigar, confrontar, ocupar. Essa forma de diálogo tem dado mais resultado que os outros métodos.”

 

O DCE participou das discussões que levaram a UFMG a adotar, em maio, o Enem como primeira fase do vestibular 2011. “Era algo que vinha sendo adiado pela reitoria.”

 

 

A aluna do 4º ano de História da PUC-SP Dayana Biral, de 24, também acha possível conciliar correntes diferentes, desde que os centros acadêmicos sejam autônomos. “Mas os estudantes podem ser filiados a partidos”, diz Dayana, que milita no PSTU desde os 14 anos.

 

Para o professor de Ética e Política da Unicamp, Roberto Romano, porém, os partidos transformaram o movimento estudantil em “correia de transmissão” de palavras de ordem. “É muito difícil fazer paralelos com o movimento do passado”, diz Romano, sobre a comparação com a militância contra o regime militar.

 

“O movimento estudantil hoje não exerce função universitária de pensar, discutir com profundidade e ir à população. Transforma tudo em slogan. Os partidos controlam, mandam, decidem”, afirma. “Hoje o movimento é um imenso curral eleitoral para jovens políticos que querem chegar ao poder. Não há nada que os ligue aos símbolos da resistência à ditadura ou a movimentos de ética na política, como na mobilização contra o Collor.”

 

‘Chapa-branca’

 

Parte da confusão sobre os rumos do movimento estudantil é atribuída à UNE pelo pesquisador Otávio Luiz Machado, do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia da Federal de Pernambuco. Como a maioria de seus membros é filiada ao PCdoB, que apoia o governo federal, a entidade tem sua representatividade questionada desde a eleição de Lula, em 2002. “Hoje a UNE é chapa-branca, vejo um bom-mocismo financiado por recursos públicos.”

 

O presidente da UNE, Augusto Chagas, se defende. Ele afirma que hoje 92% dos DCEs mandam delegações para os congressos anuais da entidade. “A UNE está mais plural do que nunca”, diz. Integrante do DCE da Uninove, Clairton Ferreira é bem menos entusiasmado com a entidade. “O modelo da UNE é um mal necessário.”

 

A mais emblemática luta encampada pela UNE no último ano é brigar para que a educação receba 50% da renda do pré-sal. Mas ela também abraçou causas práticas, como a ampliação das moradias estudantis. A pressão para isso vem das “bases”, de gente como o presidente do DCE da UFPE, Daniel Pires, que luta para reabrir o restaurante universitário e torná-lo gratuito. Acha que, com bandeiras como essa, vai superar a apatia no câmpus. “Esperamos que os alunos comecem a ser atraídos para participar.”

 

 

A última grande mobilização estudantil depois do “fora Collor” teve origem numa reivindicação de ordem prática. Em Florianópolis, por dois anos seguidos, 2004 e 2005, os estudantes fecharam os acessos à cidade para protestar contra a tarifa de ônibus, na “Revolta das Catracas”. O secretário geral do DCE da Federal de Santa Catarina, Marino Mondek, diz que as manifestações podem ser retomadas, porque em setembro os vereadores aprovaram licitação que permite às empresas operarem ônibus pelo longuíssimo prazo de 35 anos, renováveis por mais 35. “A ideia é fazer um abaixo-assinado. Mas se tivermos que ocupar espaços, não recuaremos.”

 

Cotistas

 

Bandeiras como a dos estudantes catarinenses tendem a ganhar força com a presença crescente da classe C nas universidades, via sistemas de cotas ou programas como o Prouni. Entra o “Ônibus Barato Já”, sai o “Ianques, fora do Iraque”. “Hoje, o movimento estudantil é propositivo”, diz Fernando Maltez, diretor do DCE da Federal da Bahia. “A gente luta pela ampliação do número de vagas, pelo aumento da assistência estudantil, contra a falta de professores.”

 

“Há uma série de ações que precisam ser melhoradas”, diz a aluna de Serviço Social Liliane Oliveira, que entrou na Federal da Bahia, em Salvador, graças às cotas. Para ela, depois de permitir o acesso ao ensino superior, é preciso garantir apoio financeiro aos cotistas. “Isso interfere na permanência deles na universidade. A bolsa-pesquisa, por exemplo, de R$ 300, mal paga o transporte.” / FELIPE MORTARA, GUSTAVO BONFIGLIOLI, LUCAS AZEVEDO, EDUARDO KATTAH, TATIANA FÁVARO, JULIO CASTRO, ANGELA LACERDA e TIAGO DÉCIMO

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