Moocs ganham espaço no Brasil, enquanto já perdem fôlego nos EUA

Moocs ganham espaço no Brasil, enquanto já perdem fôlego nos EUA

Cursos online, abertos e dirigidos ao grande público apresentam tendências opostas nos dois países; especialistas se dividem

Tânia Rabello, Especial para o Estadão.edu

25 Novembro 2014 | 03h00

SÃO PAULO - Enquanto a onda dos Massive Open Online Courses (Moocs) - cursos gratuitos, online e dirigidos ao grande público - sofre um refluxo nos Estados Unidos, no Brasil ela ainda cresce e toma corpo. Entre os americanos, o recuo da empolgação em torno dos Moocs se traduz pelo seguinte questionamento: esses cursos têm, efetivamente, ampliado o acesso ao ensino produzido nas melhores universidades do mundo para quem realmente precisa, nos rincões do planeta? Especialistas também se perguntam sobre as altíssimas taxas de desistência nas várias plataformas que surgiram no mundo, como Coursera, EDX e Miríada X, entre outras.

Em artigo publicado recentemente no jornal New York Times, sob o título “Desmistificando o Mooc”, o jornalista especializado em educação Jeffrey Selingo destacou que, em média, apenas um em cada dez alunos inscritos conclui o curso. Selingo destaca que, em vez de conquistar estudantes em países distantes dos centros de excelência em educação, os Moocs americanos atraem jovens urbanos, já graduados e que trabalham em tempo integral - o que seria um dos motivos para a alta desistência.

Em que pese o aparente desânimo em relação aos Moocs nos Estados Unidos, no Brasil, ao contrário, esse tipo de curso continua crescendo. Pró-reitor de Pesquisa e professor da Universidade de São Paulo (USP), José Eduardo Krieger compara a onda dos Moocs a um movimento pendular. “Primeiro o pêndulo desses cursos online foi totalmente para o lado positivo, depois para o lado negativo, até encontrar seu equilíbrio no centro”, diz Krieger, acrescentando que, no Brasil, o pêndulo “não parou ainda”.

Tanto que a USP firmou com a plataforma Coursera, assim como a Universidade de Campinas (Unicamp), uma parceria para oferecer cursos online gratuitos - as duas são as primeiras instituições brasileiras a fechar acordo com o portal. Neste início, serão sete os cursos de ambas as universidades, com temas ligados a contabilidade, previdência social, física, linguagem e ensino de português para estrangeiros. “O Mooc é uma ferramenta barata e de grande penetração e pode contribuir para o professor modificar e modernizar sua aula”, diz Krieger.

Para tentar reduzir a evasão, a Unicamp está formatando as aulas com conteúdo motivador e atrativo, explica o pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários, João Frederico Meyer. Além disso, a universidade optou por assuntos em que é referência, como bioenergia, “tema que o Brasil desperta muito interesse em vários países do mundo”.

A receita da coordenadora da Central de Educação a Distância da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Gilda Helena Bernardino de Campos, para combater a desistência é a presença de um mediador nos cursos. “Em cursos sem mediadores ou professores, nos quais apenas os alunos interagem entre si, há uma taxa imensa de desistência, o que é lamentável, pois Moocs de boa qualidade são bastante difíceis e trabalhosos de ser elaborados.”

Dúvidas complexas. A fisioterapeuta Giana Yahi da Costa Ramos concorda. “O mediador é essencial para auxiliar, dirimir dúvidas mais complexas durante o curso e fomentar debates”, diz. “Além disso, falta também uma outra plataforma de apoio, que poderia ser um telefone, com um tutor, pelo menos em horário comercial. Se o aluno tem uma dúvida não sanada, perde-se a vontade de concluir o curso. Isso já aconteceu comigo, em um Mooc bastante difícil e que não dispunha de tutor.” 

O pedagogo e professor de educação básica da rede pública do Maranhão Alberto Santos se diz “viciado” em Moocs. “Tenho a Unesp Aberta como extensão da minha casa”, conta. Ele já fez mais de 20 Moocs, boa parte deles sobre filosofia, “minha paixão”, e não pretende parar. Experiente, Santos corrobora a opinião de Giana: “A rigor, os Moocs precisam de um fomentador de debates, alguém para fazer as ligações entre os textos dos cursistas, perguntas e coisas do gênero. Isso daria vida aos cursos.”

A plataforma Unesp Aberta oferece 70 Moocs, todos gratuitos. “O que diferencia nossos cursos é o fato de eles oferecerem leituras, vídeos, animações e atividades. São mais dinâmicos que as videoaulas sozinhas”, diz o professor e coordenador do Núcleo de Educação a Distância da Unesp, Klaus Schlüzen Junior.

Para a historiadora e aluna de Moocs Simone Bernardo de Castro, é preciso disciplina: “Quem não reserva um horário e não se compromete dificilmente conclui o curso”.

A alta taxa de desistência foi um dos fatores que levaram a PUC-SP, que fez um projeto-piloto de língua portuguesa em 2013, a desistir dos Moocs por enquanto. Na época, a evasão já era uma preocupação, relata a coordenadora de Educação a Distância, Angelita Quevedo. O Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), que prometia lançar cursos no ano passado, também não levou à frente a empreitada. Segundo a assessoria de imprensa da instituição, “há alguns professores estudando atividades online, mas ainda sem prazo”.

Multidão na estreia. Os Moocs ganharam visibilidade em setembro de 2011, quando um curso online sobre inteligência artificial, criado por uma startup na Universidade Stanford, na Califórnia, conseguiu o impressionante número de 160 mil inscritos de 190 países. Mais tarde, diante da popularidade alcançada por esse tipo de curso, seus criadores, Sebastian Thurn e Peter Norvig, lançaram a Coursera, a maior plataforma de Moocs do mundo, com mais de 10 milhões de inscritos e 862 cursos oferecidos por 115 parceiros, como a USP e a Unicamp no Brasil.

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