Método de correção do Enem ainda confunde estudantes

Teoria da Resposta ao Item é empregada na parte objetiva do exame; veja como ela funciona

Carlos Lordelo e Luís Lima, Especial para o Estadão.edu,

15 Setembro 2012 | 19h57

Pela primeira vez desde que foi renovado, o Enem será feito por alunos que cursaram todo o ensino médio sabendo a metodologia de correção da prova. Mesmo assim, parte dos estudantes ainda desconfia dos resultados entregues pela Teoria da Resposta ao Item (TRI), um modelo matemático complexo utilizado também em outras avaliações educacionais como a Prova Brasil.

A dúvida mais comum entre os candidatos do Enem refere-se à atribuição das notas. Nos exames convencionais, corrigidos pelo modelo estatístico clássico, quem acerta 45 de 90 questões, por exemplo, tira 45 pontos. Com a TRI, ainda que o número de respostas corretas de dois alunos na mesma prova seja idêntico, eles podem obter notas diferentes.

A lógica por trás do Enem considera não só a quantidade de acertos, mas também a dificuldade de cada item e a “coerência” das respostas. Se o aluno A acerta todas as 30 questões fáceis de uma prova e 15 médias, e o aluno B, as mesmas 30 fáceis e 15 difíceis, a nota de A será maior que a de B. Afinal, é mais provável que A tenha acertado as médias por conhecimento e B tenha chutado as difíceis e acertado por sorte.

Criada nos anos 1950, a TRI passou a ser empregada no Enem em 2009 porque permite a comparação de notas de diferentes edições da prova – antes isso não era possível. Para tanto, todas as questões aplicadas no exame, agora, precisam ser pré-testadas com grupos reduzidos de estudantes e colocadas numa régua que determina o nível de dificuldade e a capacidade de diferenciar candidatos que sabem dos que não sabem.

Se por um lado o Enem passou a medir com mais precisão a proficiência dos candidatos e a oferecer um diagnóstico melhor da situação do ensino médio no País, por outro complicou a vida do aluno na hora de entender sua nota, que varia numa escala de zero a mil pontos.

“O processo de comunicação sobre o cálculo das notas ficou aquém do que deveria ser feito, correndo o risco de jogarmos fora uma informação muito relevante, que são as vantagens do uso da TRI”, afirma José Francisco Soares, especialista em avaliação educacional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Para o professor da Federal de Juiz de Fora (UFJF) Tufi Machado Soares, a única desvantagem da TRI está na apresentação das notas aos candidatos. “O método depende de um programa computacional, o que evidentemente dificulta o seu entendimento.”

Redação

A redação, que não tem correção pela TRI, é a única prova do Enem em que a interferência subjetiva do avaliador pode alterar a nota do estudante. Por isso, nos últimos três anos, toda vez que são divulgados os boletins do exame centenas de candidatos reclamam da análise de seus textos.

Para o professor da Universidade de São Paulo (USP) Reynaldo Fernandes, ex-presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão responsável pelo Enem, esse problema não é da TRI nem do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), mas da maneira como cada universidade calcula as notas dos candidatos para selecionar calouros – a maioria soma a pontuação da redação com a da parte objetiva. “Tirar a redação do Enem pode ser um mau sinal para as escolas de ensino médio, considerando que é a única parte da prova em que o aluno escreve alguma coisa.”

O professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) Heliton Tavares, ex-diretor de Avaliação da Educação Básica do Inep, diz que corrigir a redação pela TRI poderia minimizar distorções. “Mas não tem jeito. Sempre haverá um componente subjetivo na avaliação das redações.”

 

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