Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

MBAs com foco em tecnologia também miram em gestão e sustentabilidade

Novas pós-graduações buscam preparar alunos para dominar ferramentas tecnológicas, mas também para entendê-las

Manuel Cunha Pinto, especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

24 Janeiro 2015 | 16h00

Mais do que transmitir uma atualização sobre todas as novas ferramentas que surgem no mundo tecnológico, os MBAs voltados a essa área pretendem preparar o aluno não só para dominar técnicas inéditas, mas também para entendê-las, comparando-as a outras e descobrindo o seu potencial dentro das empresas e no mercado. Esses cursos também adicionam pitadas de gestão e tendências de mercado no setor tecnológico, incluindo aí conceitos mais recentes, como a sustentabilidade, preparando o aluno para um segmento em vertiginosa mudança. A corrente de especializações puramente voltadas às ferramentas tecnológicas, aliás, tem algumas restrições. "Raramente um curso focado só em tecnologia pode ser considerado um MBA, até por definição", diz o diretor executivo da Associação Nacional de MBA (Anamba), Armando Dal Colletto. Para ele, o MBA tem o dever de desenvolver no aluno o pensamento crítico e a visão de mercado. 

Possibilidades. Conforme o coordenador do MBA Conhecimento, Tecnologia e Inovação da Fundação Instituto de Administração (FIA), Isak Kruglianskas, “muitas vezes existe o conhecimento da ferramenta, mas não se sabe o que fazer diante das suas muitas possibilidades”. Assim, o curso da FIA prima pela gestão da inovação tecnológica. "É muito mais fácil formar um administrador a partir de um técnico do que o inverso. Quando um líder não domina a parte técnica pode haver um problema de legitimidade da liderança aos olhos da equipe." Por isso o casamento da tecnologia com visão mais ampla do negócio seria indispensável. "O próprio técnico, quando recebe formação gestora, entende como pode ser útil para a empresa e desenvolver produtos mais competitivos e viáveis", diz o coordenador do MBA.

Modismos. O professor no MBA em Marketing Digital da FGV Nino Carvalho crê que, em sua área, é um erro fazer programas de extensão baseados no ferramental - significa ficar preso a modismos tecnológicos. "Recentemente fizemos mudanças em nossos cursos relacionadas à gestão e estratégia." Aluno do MBA da FGV, Guilherme Ravache, de 36 anos, reforça o pensamento. "Todos os dias aparece um aplicativo novo, não dá para acompanhar tudo." Há, ainda, para Ravache, aspectos que trazem mais impacto para a carreira de um aluno do que qualquer tecnologia - por exemplo, o networking entre os colegas de sala de aula, que costumam ajudar muito uns aos outros fora do curso.

"O aluno tem de extrair o que há de melhor no mercado (em relação às ferramentas), mas é importante que saiba comparar tecnologias", complementa o mestre em Tecnologia Celso Poderoso, coordenador da Faculdade de Informática e Administração Paulista (Fiap) para os cursos de MBA em Arquiteturas de Redes e Cloud Computing, Big Data - Data Science e Business Intelligence. O curso da Fiap procura, também, não descuidar do DNA mercadológico. "Nossos projetos são focados no mundo corporativo, com professores que estão no mercado e aplicam os problemas nas situações do dia a dia."

Para a mestre em Gestão Tecnológica e docente na Metrocamp Daniela Cartoni, é imprescindível mapear, dentro das empresas, o que se está buscando e caminhar no mesmo sentido. "Essa atualização é exigência de mercado e, consequentemente, do aluno", diz. Este ano, para acompanhar as tendências de mercado, o curso da Metrocamp passou a se chamar Pós-Graduação MBA em Business Intelligence com Ênfase em Big Data.

Para atender a uma demanda de seu segmento, a arquiteta Luciana de Sousa Prado rendeu-se a um curso de MBA em tecnologia. Ela trabalha na gestão de projetos, mais precisamente com compatibilização e produção de alvenaria, e viu seu universo profissional mudar bastante desde a graduação, em 1994. A pós em Gestão e Tecnologia de Sistemas Construtivos de Edificações, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), vem sendo, por isso, fundamental para que ela entenda conceitos recentes, como a alvenaria racionalizada, e reavalie seus projetos. "É necessário estudar a inovação para não ficar para trás." Segundo o coordenador do curso, Guilherme Aris Parsekian, temas considerados menos importantes também podem ganhar relevância. "Há relativamente pouco tempo, ouvia-se falar de maneira discreta sobre sustentabilidade; hoje, há uma matéria específica sobre o tema."

O químico Miller Teixeira fez o caminho inverso do de Daniela. De tecnologia já entendia - trabalha em uma multinacional do setor -, mas sabia pouco de gestão. Por meio dos cursos de extensão, ele encontrou o caminho para dar um impulso na carreira. Especializou-se em Engenharia Ambiental e galgou postos na empresa. Motivado e em busca de nova promoção, fez uma pós em Estratégia e Liderança Empresarial, para se aprimorar em gestão. Foi o empurrão para conquistar o cargo de gerente regional da multinacional de tecnologia.

Inovação. Embora a visão ampla já faça parte do DNA dos cursos de tecnologia, o foco em inovações tecnológicas recém-nascidas continua marcante. Segundo Celso Poderoso, da Fiap, "os professores sempre trazem novidades de congressos, feiras e das nossas empresas parceiras, com quem estão em constante contato", diz o coordenador.

Além disso, não custa ficar perto do "bochicho" dos laboratórios das grandes universidades do mundo e tentar antecipar cenários, até porque as inovações costumam levar um certo tempo para chegar ao mercado. "É importante poder dizer ao aluno que ele trabalha de uma certa maneira hoje, mas que provavelmente em tantos anos o ambiente mudará para tal configuração." 

Durante um curso, conta Poderoso, a Apple mudou sua linguagem de programação e um dos professores logo tomou a iniciativa de atualizar o material para as próximas aulas. A aposta de Poderoso, por exemplo, é a de que venham muito fortes em dois ou três anos cursos relacionados à Internet das Coisas, definição usada para designar a conectividade entre diversos tipos de objetos do cotidiano sensíveis à rede mundial de computadores.

Internet das Coisas. O especialista em tecnologia Rodrigo Portela da Costa, de 36 anos, comprou essa aposta e tratou de se matricular no MBA em Desenvolvimento de Aplicações e Games para Dispositivos Móveis - Internet das Coisas. Trabalhando nas soluções para mobile de uma empresa de varejo, Costa percebeu uma movimentação no mercado por parte de Google, Apple, Microsoft, IBM e Facebook. 

Para ele, tem sido essencial aprofundar-se na maneira como as pessoas interagem com a tecnologia, aprender como funciona a infraestrutura do País e, principalmente, entender a utilização de tanta teoria. "Às vezes você passa tempo desenvolvendo um produto, mas não procura saber se o mercado está procurando isso", diz Rodrigo Costa.

Glossário:

Cloud computing

A computação em nuvem permite acesso remoto e de qualquer lugar do mundo a arquivos e serviços por meio de computadores e servidores compartilhados como se estivessem instalados na sua própria máquina

Big data

Possibilita a análise em tempo real de grandes volumes de dados digitais gerados diariamente. O sistema permite utilizar as informações armazenadas pelas empresas para tomadas de decisões estratégicas

Internet das coisas

É a possibilidade de conectar à internet todos os objetos físicos. Isso permite, por exemplo, dar conectividade não só a computadores e celulares, mas a eletrodomésticos, câmeras de segurança e automóveis

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