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Educação

Unicamp

Com frases machistas, manual do 'bixo' causa polêmica na Unicamp

'Ache a beleza por partes: um dia você pega uma feia com coxa boa, outro dia uma feia com o peito bom', diz texto de veteranos

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Luiz Fernando Toledo,
O Estado de S. Paulo

26 Fevereiro 2016 | 12h48

SÃO PAULO - Um manual de calouros causou polêmica e revolta entre estudantes do curso de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O "Manual de Sobrevivência do Bixo", com cerca de dez páginas, diz que "os bixos deve ser submisso ao veterano" e que "são uma raça inferior e por isso não podem exigir nada".  Há ainda menção ao consumo de bebida alcoólica, mesmo que prejudique os estudos e traz ainda frases machistas como "ache beleza por partes: um dia você pega uma feia com coxa boa, outro dia uma feia com o peito bom".

O manual dos calouros, tradicionalmente divulgado durante a recepção dos estudantes, traz dicas sobre como se familiarizar ao ambiente universitário, mostra quais são as festas organizadas pelos alunos, entre outras informações. Mas o guia da Engenharia Mecânica foi "além" e traz até um "guia das mulheres", com cantadas e frases consideradas machistas.

"Sinto-me feliz de te informar que pelo Campus você encontrará mulheres maravilhosas (poucas, mas dá pra achar!)", diz um trecho. "Você deve saber admirar flores, arco-íris, gentilezas, Chuck Norris, pôr do sol, uma bela canção, etc...Essas coisas têm efeito devastador sobre as mulheres, porém se você admirar demais essas coisas as pessoas podem começar a achar que você gosta de homens masculinos do mesmo sexo que o seu. Ou seja, elas acharão que você é um boiola", diz outro.

A estudante do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e coordenadora do Diretório Central dos Estudantes Gabriela Bianchini, repudiou o manual. A entidade estudantil prepara ações para coibir o trote na universidade. "Vamos fazer algumas campanhas que já estavam sendo pensadas para a calourada, a fim de evitar trotes opressores, como cartazes, campanhas virtuais, mesas de debate e etc". A posição do DCE é que a repercussão do manual, no entanto, foi positiva, já que trouxe à tona o debate sobre o feminismo.

A Associação Atlética Acadêmica da Engenharia Mecânica (AAAMEC), em nota, retratou-se pelo "péssimo" manual. "Assumimos nossa culpa e garantimos que novas edições do manual não voltariam a ser veiculadas. A AAAMEC pede desculpa a todas as mulheres e membros da comunidade LBGT ofendidos pelo manual", diz o texto, divulgado nas redes sociais. "Tornar o ambiente universitário mais nocivo é justamente o oposto da nossa meta. Mais do que nos desculparmos, queremos trabalhar para que essa situação seja remediada". Segundo a entidade estudantil, um novo manual começou a ser elaborado "sem apologias a machismo ou quaisquer formas de preconceito", além de contar com uma "nota de esclarecimento" sobre o caso.

A Unicamp, em nota, informou que a Faculdade de Engenharia Mecânica promoverá reuniões com os estudantes para elaborar um novo documento "estabelecendo um código de ética para as atividades extracurriculares". Informou ainda que o Disk Trote (19 3521-1449) está disponível para receebr denúncias sobre constrangimentos ou trote violento.

Histórico. Não é a primeira vez que um manual de calouros causa polêmica: no ano passado, alunos da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq) divulgaram material semelhante, no ano passado, com mensagens ofensivas e de apologia do consumo de álcool durante o início do ano letivo. O item foi alvo de sindicância interna na unidade.

Em 2012, manual distribuído na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná (UFPR) também causou conflito entre os alunos. Segundo o panfleto, que usava a legislação brasileira para justificar os conselhos, caso a mulher prometesse algo e não cumprisse, caberia ao aluno "usar o artigo 252 do Código Civil: não pode o devedor obrigar o credor a receber parte em uma prestação e parte em outra.” O texto publicado ainda complementava: “Ela vai ter que dar tudo de uma vez". A direção da UFPR repudiou o conteúdo do material à época. Estudantes alegaram que o material foi alterado.

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