FELIPE RAU/ESTADÃO
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57% no 3º ano não fazem conta; Janine fala em 'vergonha'

Dados da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA) mostram que maioria dos alunos de 8 anos não consegue fazer cálculos complexos; além disso, 1 em cada 5 chega a essa idade sem conseguir ler um texto. ‘Números são alarmantes’, diz educadora

Isadora Peron, Isabela Palhares e Victor Vieira, O Estado de S. Paulo

17 Setembro 2015 | 16h00

Atualizada às 21h52

SÃO PAULO - Quase seis em cada dez alunos (57%) de 8 anos no Brasil não dão conta de resolver problemas simples de Matemática. Entre as crianças dessa idade, 22% terminam o 3.º ano do ensino fundamental sem conseguir ler um texto. Isso é o que mostram os resultados da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA) 2014, divulgada nesta quinta-feira, 17, pelo Ministério da Educação (MEC). Segundo o ministro Renato Janine Ribeiro, essa realidade “envergonha” o País.  

A prova foi realizada no ano passado por 2,3 milhões de alunos em 49 mil escolas públicas. Em Escrita, outra competência medida pela ANA, 34,5% dos estudantes estavam em patamares inadequados, segundo critérios do próprio MEC. 

Sem esconder a preocupação, Janine Ribeiro disse que os dados dão a dimensão do problema. “Nós não só queremos que todos saibam do tamanho do drama como queremos denunciá-lo. Tudo isso é inaceitável em termos sociais”, admitiu.

No caso de Leitura e Matemática, o desempenho é medido em uma escala de quatro níveis. Já em Escrita, são cinco. Em leitura, o MEC considera inadequado o aluno estar no nível 1, em que não consegue encontrar informações em textos curtos ou entender uma história em quadrinhos.

Em Matemática, o Ministério classifica como “inadequado” o aluno que está nos níveis 1 e 2. Nessas faixas, a criança não lê as horas no relógio analógico nem identifica frequências iguais em um gráfico de colunas. 

Em Escrita, de acordo com o MEC, estão inadequados alunos nos três primeiros níveis. Nesse grupo, eles ainda escrevem de forma incipiente e apresentam grande número de erros ortográficos. 

A ANA foi criada com o Pacto Nacional da Alfabetização na Idade Certa (Pnaic), lançado pela presidente Dilma Rousseff em 2012. Esse programa, que abrange todos os Estados e 98% dos municípios, envolve formação de alfabetizadores, supervisionada por universidades. 

Os resultados da primeira edição, de 2013, não haviam sido divulgados oficialmente pelo MEC. A edição deste ano foi cancelada por falta de verbas. 

Os números também expõem desigualdades regionais. Em Leitura, por exemplo, as Regiões Norte e Nordeste têm 35,06% e 35,56% dos alunos no pior nível. Já no Sudeste e no Sul, essas taxas são de 13,05% e 11,94%. Ao comparar os resultados, segundo o MEC, é necessário levar em conta o contexto socioeconômico dos alunos. 

Apesar do quadro problemático, os resultados mostram ligeiro avanço em relação à ANA 2013. A taxa nacional de estudantes no pior nível de Leitura caiu de 24% para 22%. No patamar quatro, o melhor, subiu de 10% para 11%. 

Em Escrita, a maioria dos alunos - 55% - está no nível 4, quando a criança consegue escrever, mas com uma série de erros ortográficos e de concordância. Apesar de o ministro considerar isso como um nível adequado, Janine Ribeiro afirma que essa não é a situação ideal.

Em Matemática, 57% dos alunos de 8 anos estão nos níveis 1 e 2 - o que configura um baixo desempenho, dominando apenas a primeira das operações - a adição. 

Já no ciclo de alfabetização, a falta de interpretação de texto impede que os alunos avancem no domínio dos cálculos. Esses problemas, dizem especialistas, acompanham o aluno em toda a trajetória escolar. Nos anos seguintes, as crianças terão problemas para aprender Ciências ou Geografia por falta dessas habilidades básicas. 

Alerta. Para Cláudia Gontijo, presidente da Associação Brasileia de Alfabetização, os resultados indicam a necessidade de se investir no setor. “Há uma melhoria, se compararmos com décadas passadas, em que a maioria dessas crianças terminava o ciclo sem ler. Mas os números ainda são alarmantes”, diz ela, professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

Geralmente responsáveis pelas classes de alfabetização, as redes municipais têm mais dificuldades técnicas e financeiras. “Por isso, a ajuda da União é ainda mais importante.” Para Cláudia, porém, os dados não indicam um fracasso do Pnaic. “Ainda é cedo para avaliar”, diz. “Não pode haver descontinuidade de políticas.”

Segundo Ricardo Falzetta, gerente de Conteúdo do Movimento Todos pela Educação, a alfabetização precária limita as possibilidades da criança no futuro. “No fundamental 2 (5.º ao 9.º ano), esse problema se aprofunda. No ensino médio, torna-se insustentável, resultando nos altos índices de evasão, aprovação automática e desinteresse dos jovens.

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