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‘Maioria das licenciaturas não vai mudar para o ensino médio’, diz conselheira estadual

Para a ex-secretária de Educação Rose Neubauer, reforma curricular de 2015 na formação de professores é um avanço

Entrevista com

Rose Neubauer, conselheira estadual de Educação de São Paulo

Tulio Kruse, Especial para o Estado

05 Julho 2017 | 11h56

SÃO PAULO - A reforma do ensino médio deve ter pouca influência na formação de professores para a educação básica em São Paulo. Para a representante do Conselho Estadual de Educação (CEE) Rose Neubauer, que chefiou a pasta de Educação no governo paulista de 1995 a 2002, os cursos de licenciatura devem ficar com a configuração definida por uma reforma curricular de 2012, no conselho estadual, e uma resolução aprovada em 2015 no Conselho Nacional de Educação (CNE), anteriores à discussão da reforma. A partir de 2018, a carga horária total dos cursos deve aumentar de 2,8 mil para 3,2 mil horas, e novos conteúdos se tornarão obrigatórios.

Rose vê uma chance de melhora na qualidade dos cursos com o aumento de aulas obrigatórias, assim como a inclusão de fundamentos da educação e tecnologia nas diretrizes curriculares. As regras são anteriores à discussão sobre o novo modelo do ensino médio, anunciado pelo governo Michel Temer (PMDB) em outubro de 2016 e aprovado em fevereiro.

Em entrevista ao Estado, Rose falou sobre a adaptação das licenciaturas para o novo ensino médio, sobre o histórico problemático do magistério brasileiro, e sobre planos de mudança em cursos paulistas que formam professores.

Leia a entrevista a seguir:

Há uma reforma do ensino médio em implementação, e também uma mudança recente nos currículos do magistério. O que está sendo discutido em relação à preparação de professores para essa reforma?

Logicamente, a reforma vai abranger as disciplinas do ensino médio. Mas a maior parte das licenciaturas, as que não são profissionalizantes, não vão mudar para o ensino médio. Se você tiver Física (na faculdade), vai continuar ensinando Física no ensino médio.

O que vai fazer diferença para a formação (do professor) é o currículo, a Base Nacional Comum que vamos aprovar. O que estamos pedindo, para os cursos que forem pedir renovação de reconhecimento a partir daqui, é que levem em consideração a Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Na licenciatura, preciso dar aqueles conteúdos que o meu futuro professor vai ter de ensinar, no ensino médio e na escola de 6ª a 9ª série (do fundamental). Mas esses conteúdos curriculares nunca mudam radicalmente. Não vamos deixar de ensinar História do Brasil aos nossos alunos, certo? Podemos até ensinar com outra metodologia. Pode ser que alguns conteúdos sejam mais enfatizados por algumas séries, outros sejam menos. Mas o básico vai continuar.

A grande discussão sobre a reforma do ensino médio é como essas escolas vão poder se organizar. Em São Paulo, por exemplo, temos uma quantidade enorme de municípios que têm uma única escola. Não vou poder oferecer várias opções profissionais para esses alunos. Posso oferecer um currículo diversificado, alguma profissionalização mais adequada àquela região. Acho, até, que a profissionalização vai ter de se apoiar muito no setor empresarial.

Por que os conselhos de educação, estadual e nacional, aumentaram a carga horária das licenciaturas? Por que isso era necessário?

Em 2012, fizemos um movimento aqui no conselho estadual para reforma nos currículos da formação dos professores porque, historicamente, sempre tivemos o bacharelado associado à licenciatura nas universidades. Isso sempre foi muito ruim.

A pior coisa que aconteceu no Brasil, na minha opinião, foi acabar com os Institutos Superiores de Educação (ISEs). Eram as instituições que faziam só formação de professor, você entrava lá só para ser professor. Depois, se quisesse ser químico ou matemático, entrava em uma faculdade e completava sua formação.

Por que isso acontece?

A formação de professores no Brasil sempre teve muitos defeitos, é uma questão histórica. Nos anos 1950, cresce muito a classe média. Ela vai arrebentar a porta da escola, porque traz uma demanda gigantesca. E como é que você segurava a entrada nos chamados ginásios públicos, que eram pouquíssimos? Pelo exame de admissão, que era rigorosíssimo. O governo não oferecia vaga para todos, e o indivíduo ficava com aquela impressão de que, se não entrou, é porque não mereceu.

Em São Paulo, nos anos 1960, se faz uma reforma que torna o exame único, e tão fácil que quase todo mundo que terminasse o ensino primário entrava no ginásio. Esse modelo, de 1968, foi adotado pelo regime militar em 1971. E aí você já imagina o que acontece, porque havia uma demanda reprimida enorme.

Grande parte das escolas secundárias era administrada por entidades religiosas ou privadas, que vão investir na formação de professores. Houve um crescimento muito grande dessa iniciativa privada, e com muito pouco critério qualitativo. Foi como se tivéssemos quebrado um dique, e aí você tem uma demanda tremenda de professores de uma vez só.

Então, desde os anos 1980, temos muita crítica à formação do professor, agudizada nos anos 1990. Como a oferta de educação é muito grande, mesmo que o Estado comprometa 25% da sua receita de impostos à educação como é o gasto obrigatório, ou mesmo 30% em alguns casos, há uma quantidade de crianças e uma quantidade de professores que não possibilita pagar bem esses profissionais.

E, em 2012, houve uma reforma proposta pelo CEE?

Em 2012, fizemos uma legislação que define quais conteúdos são necessários nos cursos de formação dos professores. Fundamentos da Educação, por exemplo, não dá para ficar sem. Você tem de saber um pouco sobre aquilo que você vai fazer. Senão, você é um alienado. Outra coisa que fizemos foi retomar didática e metodologia. Tem que conhecer currículo da disciplina que vai ensinar, e das séries que vai ensinar.

O que nossas pesquisas identificaram é que o professor não conhecia o currículo estadual, nem o nacional, nem sabia o que eram os indicadores de educação. O profissional tem de entender o que significa seu aluno ter um determinado indicador de desempenho, e o que ele precisa fazer para corrigir. Da mesma forma, tornamos obrigatório que esses cursos trabalhem com leitura e produção de texto, e colocamos também que era obrigatório ter conteúdos de tecnologia.

Essa mudança foi feita aqui em 2012, e é muito parecida com a mudança de 2015 (do CNE).

A nova resolução do CNE, de 2015, exige que os cursos de licenciatura tenham ao menos 3,2 mil horas a partir de 2018. A senhora acha isso bom?

Acho. Um advogado precisa de cinco anos para se formar, são 4 mil horas. Um médico precisa de cinco anos e residência. Ou vamos encarar seriamente a formação do professor e dizer que precisa, sim, ter quatro anos de formação, que precisa ter o mínimo de 3,2 mil horas, e que não dá para fazer um curso menor, ou então ficamos com esse discurso de "Ah não, mas é bobagem".

Segundo alguns discursos por aí, tem que jogar fora a criança com a água do banho: "É besteira ter esse negócio de ensinar Fundamentos da Educação e Psicologia". E aí, você forma autômato (robô). O professor fica lá na escola e não sabe o que fazer. E temos também o problema do estágio, que precisa ser muito mais sério do que é hoje. A gente sabe que tem escolas onde os supervisores falam "Não precisar vir, a gente assina aí para você".

Mas vai ficar mais sério? Há algo nas novas diretrizes curriculares, ou na implementação que os Estados podem fazer disso, que assegure que esse tratamento no estágio será mais sério?

Aqui na secretaria, junto com o conselho, estamos tentando fazer uma nova deliberação sobre o estágio. Estamos trabalhando nela. O governo estadual já pensou várias vezes, inclusive já se discutiu isso aqui no conselho, em fazer um projeto de estágio (de licenciatura) como o das escolas de Medicina, uma residência pedagógica. Isso seria o ideal.

É possível ser feito hoje?

Acho que, se tiver vontade política, faz. Isso (residência pedagógica) é muito comum em outros países. A escola que vai formar o professor precisa ter um projeto conjunto com a escola onde ele faz a residência. O estudante é avaliado, no estágio, pelas duas instituições. Esse professor tem de mergulhar na experiência de dar aula.

A nossa deliberação, por exemplo, obriga que o estudante fique, do total de 400 horas de estágio, no mínimo 200 na sala de aula. Ele tem de ficar olhando o professor, ele tem de estar refletindo se aquela prática está de acordo com o que ele está lendo de teoria, com o que está vendo nas aulas de metodologia.

 

 

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