Largando na frente

Quem estudou idiomas de olho da Copa já recebe propostas de trabalho e promoções

Cristiane Nascimento, Especial para o Estadão.edu,

29 Janeiro 2013 | 03h27

No ano da Copa das Confederações, em que mais de 6 milhões de estrangeiros devem passar pelo País, quem correu para aprender uma segunda língua antes está se dando bem agora. Profissionais liberais e funcionários de empresas que já se comunicam em inglês e espanhol se destacam num mercado em que a habilidade em outro idioma ainda é precária. Para Marcelo Calado, coordenador educacional do Senac São Paulo, receber bem àqueles que não falam português será o maior desafio do País. “Eles esperam um bom atendimento e o nosso maior déficit para suprir essa demanda resume-se à fluência de uma segunda língua, mais especificamente, ao domínio do inglês”, diz.

A pesquisa EF English Proficiency Index (EF EPI), publicada em 2012, traz indícios da gravidade da situação. O estudo, que avalia a habilidade na língua inglesa entre adultos de países onde o idioma não é nativo, coloca o Brasil na 46.ª colocação de um total de 54 nações.

“Os eventos desse ano trarão um diagnóstico de como estamos e, com isso, saberemos exatamente onde devemos focar nossos esforços para suprir a demanda que será ainda maior nos anos seguintes”, diz Calado, referindo-se à Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas em 2016.

“O estrangeiro se sente mais seguro em ter alguém que o entenda e acaba me pedindo para levá-lo e buscá-lo a vários lugares”, conta o taxista Ozeias Avelino Martins, de 38 anos, que começou a estudar há um ano em uma escola conveniada ao Sindicato dos Taxistas Autônomos de São Paulo. Com um ponto no Itaim Bibi, zona sul da capital, Martins afirma que há tempos sentia a necessidade de aprender inglês. “Não conseguia nem entender para onde os gringos queriam ir.”

Com o anúncio dos eventos esportivos, Martins achou que deveria correr atrás do tempo perdido. “Se deixasse para estudar em cima da hora, não conseguiria estar pronto a tempo.”

O funcionário da Tam, Tiago Ramaldes, de 20, também buscou qualificar-se por conta própria. O jovem entrou na empresa em 2011, como agente de bagagens e hoje trabalha como agente de aeroporto, no check-in, no Galeão, Rio de Janeiro. Na época, ele tinha acabado de começar um curso de inglês. A iniciativa acabou funcionando como um atalho para uma promoção alguns meses depois. “Passei por um processo seletivo bastante rigoroso e a segunda língua foi fundamental neste caso”, diz.

 

Hoje Ramaldes lida diariamente com estrangeiros. Há oito meses, o jovem faz também um curso de espanhol. “Não há como almejar uma carreira em uma companhia área sem a fluência em, pelo menos, uma, duas línguas além do português.”

Foi pensando no maior fluxo de turistas que o País vai receber que o gerente de uma loja da Luigi Bertolli Daniel Admo, de 31, buscou um curso intensivo de inglês no final do ano passado. “Precisava de algo efetivo e rápido, pois em 2013 volto para a faculdade e talvez não conseguisse conciliar tudo”, diz.

Admo encontrou o CNA Hello, curso voltado a profissionais de serviços que estão em contato direto com clientes e que terão de atender, cada vez mais, também estrangeiros. Apesar de acreditar que as Copas trarão um número imenso de oportunidades ligado à área, o gerente acha que muitas delas serão provisórias. “Não tenho interesse em trocar o meu emprego por uma dessas grandes oportunidades, mas falar inglês me traz uma estabilidade maior onde estou”, afirma. “Posso, por exemplo, ser transferido para uma loja onde haverá uma maior circulação de turistas.”

A engenheira Lidiane de Souza, de 37, é gerente de projetos da Latin Sports, agência de marketing esportivo responsável pela realização de competições de corrida e triatlo no País. Fluente em inglês há anos, Lidiane buscou um professor particular no ano passado, com o intuito de revisar termos técnicos do idioma para se preparar para o exame do Project Management Institute (PMI), que lhe garantirá uma certificação de validade internacional na área em que atua.

Mesmo não trabalhando diretamente com futebol, a engenheira afirma que o interesse de marcas multinacionais pelo esporte tem aumentado e tende a crescer ainda mais por conta das Copas que se aproximam. “A Latin está se preparando para abraçar esse novos projetos e alcançar novos clientes”, diz Lidiane que em breve será a primeira funcionária certificada da empresa.

Governo

Para garantir a qualificação dos profissionais que estarão cara a cara com os milhares de estrangeiros que visitarão o País, o Ministério do Turismo (MTur) lançou, no início do segundo semestre de 2012, o Pronatec Copa, programa de capacitação voltado às áreas de hospitalidade, lazer e turismo. Realizado em parceria com o Ministério da Educação (MEC), o Pronatec Copa vai oferecer 240 mil vagas gratuitas em cursos profissionalizantes presenciais até 2014 e pelo menos 36,5 mil vagas em cursos de idiomas até 2013 - o número de vagas de cursos de línguas para 2014 ainda não foi fechado. O programa do governo federal que já é executado pelo sistema S e pelos institutos federais de educação passaram a ser aplicados sob um recorte de 119 municípios, entre cidades-sede e seus entornos.

Para Marcela Jeolás, diretora no MTur, dificilmente os brasileiros sairão por aí falando uma segunda língua como um todo. “Precisamos, no entanto, garantir um mínimo de comunicação com o turista”, diz. Segundo a diretora, o ministério pretende “fazer cerco por todos os lados”, qualificando não só os funcionários de hotéis e restaurantes, mas também taxistas, feirantes, comerciantes e servidores públicos. Gradativamente, convênios têm sido fechados com a secretarias estaduais e municipais para o atendimento focado nesses públicos.

Entre 2009 e 2011, o MTur atuou com o mesmo intuito com o programa Olá, Turista!, realizado em parceria com a Fundação Roberto Marinho. Neste caso, no entanto, as aulas eram virtuais. O ministério estima que 57 mil profissionais tenham se qualificado na ocasião. De acordo com Marcela, o curso a distância garantia um conhecimento mínimo, mas não uma comunicação efetiva. “Nossa preocupação agora é oferecer um curso de melhor qualidade, 100% presencial e com bastante horas/aula, de modo que consigamos um retorno maior e possamos garantir a comunicação.”

In company

Braço do Pronatec Copa, o Pronatec Copa na Empresa foi criado para facilitar a adesão ao programa. Com ele, empresários do ramo turístico podem formar turmas entre seus colaboradores e pleitear a realização de cursos na sede da própria empresa.

A rede de hotéis Othon no Rio recebeu o projeto-piloto da modalidade. O garçom Benedito Fernandes, de 38, é um dois 100 alunos inscritos no programa que, neste caso, reúne os módulos iniciante e profissional. “Aprender inglês tem sido um grande desafio”, afirma Fernandes, que já havia feito um curso online anteriormente. Na sua opinião, o atendimento presencial e “personalizado” contribui muito para compreensão do novo idioma.

O garçom diz ser evidente a melhora do serviço que tem prestado. “Deixamos de enxergar o cliente estrangeiro como um bicho de sete cabeças e isso facilita uma aproximação tanto de um quanto do outro.”

Iniciativa privada

Apesar de afirmar que as principais redes hoteleiras instaladas no País já não enfrentam grandes problemas com o idioma, o vice-presidente do Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil, Julio Serson, acredita que as medidas de capacitação do governo não serão suficientes para sanar o problema. “Não podemos, enquanto representantes da iniciativa privada, passar essa responsabilidade única e exclusivamente para o poder público”, diz. “Esse é um momento muito importante para o turismo brasileiro e só teremos sucesso diante da somatória de esforços de todos os grupos.”

Desde 2011, o hotel Transamérica, de São Paulo, mantém uma parceria com uma escola de línguas para a capacitação de seus funcionários. Em fevereiro, 45 de seus colaboradores iniciarão um curso de inglês que não só lhes dará uma capacitação instrumental, mas também noções mais aprofundadas do idioma. O mensageiro Ronaldo Fernandes, de 23, está ansioso para o início das aulas. Sem nunca ter feito um curso de idiomas, o jovem diz que o pouco que sabe para exercer o seu trabalho diário, aprendeu com outros funcionários e com os próprios clientes.

Fernandes lida diretamente com os turistas. Normalmente, é ele quem tira as dúvidas dos hospedes sobre o próprio hotel. “Quando comecei a trabalhar aqui, era bem complicado, mas aos poucos comecei a me virar”, afirma. “Com o curso, conseguirei fazer isso com muito mais segurança, sem precisar do auxílio de outros profissionais.”

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