TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Jovens sem benefício do Fies abandonam mais o ensino superior

Segundo sindicato das instituições privadas, o porcentual de evasão entre os contemplados pelo programa é de 7,4%, contra 25,9% entre os que não o recebem

Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

29 Agosto 2016 | 12h13

SÃO PAULO - O porcentual de jovens que abandona o ensino superior em entidades privadas no primeiro ano do curso é 3,5 vezes maior entre aqueles que não foram contemplados com o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Em 2014, 25,9% dos alunos que não tinham o financiamento evadiram no primeiro ano de curso. Entre os que foram contemplados com o financiamento, a evasão foi de 7,4%.

Os dados foram apresentados nesta segunda-feira, 29,  no Mapa do Ensino Superior do Brasil, feito pelo Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior (Semesp), com base no Censo de 2014 do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

Rodrigo Capelato, diretor-executivo do Semesp, disse que a evasão é maior entre os alunos que não obtiveram o financiamento porque eles têm menos segurança financeira em continuar no ensino superior. Mas também porque têm menos certeza de que estejam no curso certo.

"O aluno que tem o Fies, na maioria das vezes, entrou no curso em que queria, na universidade em que almejava. Já o aluno sem o Fies, acabou entrando na vaga que deu. É uma escolha muito menos vocacional", disse.

Para o diretor-executivo do Semesp, a taxa de evasão alta entre os alunos sem Fies mostra a importância de políticas de assistência estudantil também para os alunos das universidades particulares. "Se queremos aumentar o número de matriculados no ensino superior, precisamos dar mais segurança para quem vai preencher essas vagas."

Acácio Reis, de 23 anos, está tentando pela segunda vez cursar música no ensino superior. Na primeira vez, no ano passado, ele entrou em uma faculdade particular e, sem conseguir o Fies, e não teve condições financeiras de continuar além do primeiro semestre. "Tentei negociar na faculdade, mas não deu. Minha família inteira ficou muito chateada porque eu seria o primeiro a me formar", contou.

Neste ano, ele ingressou em outra faculdade no mesmo curso. Sem o Fies ou outra bolsa, ele disse temer não conseguir concluir o curso mais uma vez. "Estou estudando para o Enem para tentar uma bolsa ou financiamento. É muito triste ver meus colegas seguindo o curso e eu ficando para trás, sem conseguir realizar meu sonho", disse. 

De acordo com Capelato, o início da graduação  - os dois primeiros anos - são os mais críticos, quando acontecem a maior parte das desistências. 

Segundo o estudo do Semesp, a taxa de evasão é maior nas  licenciaturas (27,9%) e engenharias (26,2%). As menores taxas são registradas em odontologia (14,5%) e medicina (4,8%).  “A evasão nas licenciaturas é maior porque o aluno não encontra um curso que gostaria. Já nas engenharias, os alunos que chegam despreparados, sem uma boa educação básica, acabam indo mal nas disciplinas e desistem”. 

Já a taxa de permanência - que considera a permanência do aluno no mesmo curso em um período de 5 anos - mostra que os alunos de universidades públicas desistem menos do que os de entidades particulares. O dado considera os estudantes que ingressaram em 2010 e, até 2014, não pararam de estudar. O restante deixou o curso, trancou a matrícula ou foi transferido. 

Nas públicas, a taxa de permanência é de 51,3% e, nas privadas, de 40%. "O movimento dos alunos é diferente nessas duas esferas. O aluno da pública que evade vai buscar outro curso, já o da privada, quando evade, na maioria das vezes vai ficar fora do ensino superior", disse Capelato.

Projeção. O estudo do Semesp projeta uma queda de 3,6% no total de matrículas da rede privada em 2015, seguida de estabilidade neste ano. Para Capelato, a retração se deve à crise econômica e ao enxugamento do Fies, com a redução de novos contratos assinados Em 2014, havia cerca de 7,8 milhões de alunos matriculados no ensino superior - 75%, ou seja, 5,9 milhões na rede privada.

Em nota, o MEC informou que "entende que o financiamento estudantil não é o único ponto para resolver o problema da evasão no ensino superior". Segundo a pasta, "a evasão no ensino superior é um problema de alcance mundial e de natureza múltipla, envolvendo desde a dificuldade financeira até questões como qualidade dos cursos, atendimento, expectativa do aluno, repercussão de empregabilidade, entre outros fatores". 

"Avaliamos que os dados da pesquisa do Semesp indica a importância do Fies, e por isso o MEC está trabalhando para que ele permaneça, mas de forma sustentável. O Ministério também trabalha em mecanismos para aumentar o nível de compromisso dos estudantes com o investimento social que eles recebem", diz ainda o texto. 

 

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