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Jovem superou distúrbio de movimento e conseguiu se formar em Jornalismo

Ana Raquel Mangili sofreu com a falta de profissionais preparados na educação básica e precisou contratar especialistas

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Luis Fernando Toledo ,
O Estado de S.Paulo

17 Abril 2017 | 03h00

SÃO PAULO - A jornalista Ana Raquel Périco Mangili, de 22 anos, teve todos os motivos para abandonar os estudos. Mesmo em colégios particulares, ela sofreu com a falta de profissionais preparados e precisou contratar especialistas para tarefas básicas – o que deveria ser garantido pela própria escola, segundo a lei –, além de problemas de acesso. Ela tem distonia generalizada - distúrbio que afeta principalmente o movimento de seus braços - e  deficiência auditiva. Formou-se em 2016 em Jornalismo pela Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Uma das maiores dificuldades era encontrar escolas que atendessem às suas necessidades na pequena cidade de Barra Bonita, com 35 mil habitantes. “Só havia quatro escolas (particulares) de ensino médio na cidade”, diz.

Quando finalmente deu início ao ensino médio, a jovem era a única com deficiência em toda a escola. Isso fez com que, muitas vezes, suas demandas fossem ignoradas pela direção e professores. Em um dos casos, solicitou adaptação dos materiais audiovisuais usados em sala, com legendas específicas. Em alguns casos, os professores ajudavam depois com explicações sobre os vídeos.

“A escola não fornecia isso. Os professores passavam vídeos sem legendas e só me pediam desculpas. Quando eu ia reclamar, a direção falava que apenas eu era surda na escola inteira e que a demanda não justificava o trabalho. No começo, voltava chorando, porque via apenas as imagens e não entendia os áudios. Sempre foi algo angustiante”, relata.

Fundamental. No ensino fundamental não havia sido diferente. Os pais precisaram custear uma monitora dos 5 aos 13 anos. “O que (a escola) oferecia era uma ajuda das próprias serventes da escola na hora do intervalo. Pela minha pouca mobilidade dos braços, eu preciso de acompanhante em tempo integral. É comum que as escolas se neguem a oferecer este tipo de recurso.”

A situação começou a melhorar ao ingressar no ensino superior, em 2013. Na Unesp de Bauru, a 45 minutos da sua cidade, Ana Raquel conta que havia uma monitora que já a esperava no ponto de ônibus. “As questões de acessibilidade melhoraram muito. Na Unesp, há um grupo de estudos especializado para a produção de legendas. Eles legendavam praticamente todos os conteúdos passados em sala.” Ela também ganhou mesa e cadeira maiores.

Ana Raquel conseguiu até um monitor para um intercâmbio: estudou 21 dias na Universidade de Salamanca, na Espanha, com todas as despesas pagas.

O trabalho de conclusão de curso foi a produção de um site – dyskinesis.com – de notícias e informações para pessoas com distúrbios de movimento no Brasil e pesquisadores do tema.

“Os distúrbios de movimento, por si só, causam apenas algumas limitações no deslocamento e na movimentação necessária para atividades físicas. O potencial humano de cada um transcende essas barreiras, e, para isso, se faz necessário apoio social e de acessibilidade para termos mais igualdade de oportunidades e futuros plenos para todos”, escreve Ana Raquel, no texto de apresentação do seu site.

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