ITA é ‘celeiro’ de empreendedores em projetos educacionais

Uma geração de alunos que saem da universidade compartilha conhecimento aliando responsabilidade social a negócios

Bárbara Ferreira Santos,

27 Agosto 2013 | 10h18

Uma nova safra de empreendedores em educação vem crescendo rapidamente no Brasil. Eles desenvolvem atividades de alto impacto social, mas o que fazem não é voluntariado. Aprenderam a lucrar com a educação e criaram empresas comercialmente competitivas. Ao mesmo tempo, estão democratizando o conhecimento em todo o País e têm alcançado bons resultados.

O que há em comum? Estudaram Engenharia no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), instituição de ensino superior com um dos vestibulares mais concorridos do País. Com seus currículos, poderiam ter escolhido trabalhar em qualquer área - de bancos a grandes multinacionais. Mas abriram mão de parte da lucratividade para desenvolver atividades que promovam responsabilidade social.

A preocupação com uma educação de qualidade, no entanto, não é uma exclusividade dessa nova geração. O próprio ITA foi fundado com o propósito de "formar técnicos competentes e cidadãos conscientes", como dizia seu criador, o tenente-coronel Casimiro Montenegro Filho. Desde então, diversas gerações de alunos compartilharam o aprendizado que adquiriram para entrar na universidade com milhares de outros jovens - por meio de aulas particulares e em cursinhos de baixa renda ou fundando suas próprias empresas.

Muitos desses empreendedores começaram a dar aulas no CasdVest e no Casdinho, cursinhos gratuitos e sem fins lucrativos criados por alunos do ITA e voltados a jovens de baixa renda. O primeiro ajuda os interessados a entrar nas melhores universidades e o segundo, no colégio da Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer).

É o caso de Thiago Feijão, que está no último ano de Engenharia Mecânica. Ele é ex-presidente do CasdVest, ajudou a fundar o Casdinho e o Instituto Semear, que ajuda a população de baixa renda a se manter na faculdade. Na graduação, também fundou uma startup de educação, o Quadrado Mágico.

Incentivados pelos exemplos, alunos mais novos também pretendem seguir esses passos, como a atual presidente do Casdinho, Isabella Amorim Gonçalez, de 21 anos. "Antes, ou era ganhar dinheiro ou mudar o mundo. Hoje, brinco que podemos fazer os dois."

A seguir, conheça outras três empresas que já alcançaram resultados relevantes em pouco tempo.

Site abrigou os primeiros Moocs da América Latina

Rapidez. Carlos Souza viu seu Veduca alcançar o sucesso em apenas um ano e meio

 

Quando criou o Portal Veduca, em março de 2012, o engenheiro Carlos Souza não imaginava que, quase um ano e meio depois, o site atingiria mais de 2,5 milhões de visitantes e hospedaria 277 cursos de mais de 17 universidades, entre elas Harvard, Massachusetts Institute of Technology (MIT), Stanford e Universidade de São Paulo (USP). "Não sabia que ia chegar tão longe em pouco tempo, mas tinha certeza de que não ia desistir enquanto não conseguisse."

Pioneiro no País, o portal lançou com professores universitários os primeiros Moocs (cursos gratuitos, online e oferecidos a milhares de alunos) da América Latina, com a USP, de Física Básica e Probabilidade e Estatística, e depois com a Universidade de Brasília (UnB), de Bioenergética.

A vontade de distribuir, em língua portuguesa e para o maior número possível de pessoas, as aulas das melhores universidades do mundo teve motivação pessoal. Em sua trajetória, Souza teve a vida mudada pela educação. Aos 14 anos, dava aulas particulares. Tanto estudou que conseguiu passar no vestibular de Engenharia Aeronáutica no ITA. "Todo mundo no ITA teve a sua vida mudada pela educação. Como o vestibular é muito puxado, a gente tem de se preparar bastante. Uma das grandes motivações acho que é exatamente a vontade de abrir para os outros as portas que um dia a educação de qualidade me abriu."

Em 2011, quando foi estudar novos modelos de negócios nos EUA, teve a ideia de fundar uma startup que investisse em tecnologias para a educação. Acionou possíveis sócios que também apostassem na proposta e montou uma equipe com profissionais de várias áreas.

Apesar de encarar o Veduca como um empreendimento, ele ressalta que a preocupação nunca foi a lucratividade, mas a resolução de um problema real: o acesso à educação de qualidade no Brasil. "Estou mais realizado do que se trabalhasse em uma multinacional. Quando você busca essa satisfação pessoal, sente que está contribuindo para melhorar a vida das pessoas."

Escola teve melhor nota da redação do Enem na 1ª turma

Família. Os irmãos Pablo, Jean e Átila criaram negócio juntos

 

O Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) já recebeu diversas gerações de uma mesma família, mas a primeira vez em que três irmãos estudaram ao mesmo tempo na instituição foi com os mineiros Átila Silva Zanone, de 31 anos, Jean Silva Zanone, de 29, e Pablo Silva Zanone, de 27. Para ingressar na universidade, eles se prepararam arduamente por anos.

Depois, durante toda a faculdade, fizeram monitorias em cursinhos da região e deram aulas particulares. Pablo foi até professor no CasdVest, iniciativa dos próprios alunos do ITA para preparar estudantes para o vestibular. "Era o que a gente podia fazer em paralelo à graduação. Nós sempre fomos bons alunos, e o que a gente tinha em casa era esse comprometimento com a escola", diz Átila.

Em um dos períodos de férias, ainda no meio da graduação, voltaram para a cidade natal, Ipatinga, a 217 km de Belo Horizonte. Em uma reunião de família, o projeto de abrir um negócio comum veio à tona. O pai foi quem mais incentivou. A principal motivação era impedir que cada um dos irmãos acabasse trabalhando longe dos demais. "Nossa perspectiva, depois de formados, era cada um ir parar em uma cidade totalmente diferente. As famílias do interior estão fadadas a se separar, porque as oportunidades locais são escassas", diz Átila.

Nasceu então a ideia de investir em educação e montar em Ipatinga uma escola de qualidade para que os alunos da região pudessem ter acesso a um ensino de qualidade próximo da família. "Tive de sair para Belo Horizonte para fazer cursinho, aprender a cozinhar, viver sozinho. Essa é uma experiência que queremos que nossos alunos tenham na faculdade, não antes dela", diz. Ainda antes de se formar, eles procuraram os fundadores do sistema de ensino pelo qual estudaram para ingressar no ITA, o sistema Elite, e conheceram diversas unidades pelo Brasil para aprender a montar o próprio negócio. "O objetivo em qualquer empreendimento é fornecer um serviço de alta qualidade. Buscamos um exemplo concreto que sabíamos que dava certo."

O cursinho Elite Vale do Aço surgiu em 2009. Dois anos mais tarde, foi criado o colégio de mesmo nome, com a proposta de ter apenas uma turma de cada série do ensino médio.

Já na primeira turma de 3º ano, eles conseguiram um resultado surpreendente no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2011, bem acima do que esperavam: a melhor nota de redação do País.

Na parte objetiva da avaliação, eles só estiveram atrás do Colégio Objetivo Integrado, de São Paulo.

Crianças e jovens com câncer têm aulas online

Meta. Diego Dias, do site Aprendizado Coletivo: sonho de ter empresa de educação realizado

 

A história do site Aprendizado Coletivo se confunde com a de seus fundadores, Diego Silva Dias, de 30 anos, e Bruno Werneck, de 32. Os dois estudaram em escolas públicas e conseguiram se formar em Engenharia pelo ITA. Dias saiu de Belém, no Pará, para vir a São Paulo fazer faculdade. Werneck já deu aulas de Matemática e de Física.

Juntos, os dois fundaram uma rede social em que alunos podem conversar, assistir a videoaulas e até tirar dúvidas sobre exercícios difíceis. Mais de 1.100 videoaulas estão disponíveis gratuitamente. Exercícios permitem ainda que o aluno faça simulados online.

Para Dias, o motivo de deixar o corpo executivo da startup GetNinjas, da qual era sócio, para escolher a educação foi para "empreender com impacto social". "Eu acho que a educação mudou minha vida, então eu queria empreender em algo que possibilitasse mudar a vida de vários jovens também", afirma Dias.

E hoje ele se considera mais realizado do que se estivesse trabalhando como funcionário de uma grande empresa. "No ITA, dos 120 alunos que se formam por ano, a maioria nem sequer trabalha como engenheiro. Eles são cobiçados pelas empresas e muitos vão para o mercado financeiro, por exemplo, por razões financeiras. Mas eu consegui realizar dois grandes sonhos e uni-los: trabalhar em educação e ter a minha própria empresa."

Entre os depoimentos que ele recebeu de pessoas que tiveram suas vidas mudadas por seu trabalho está o de uma professora de uma escola hospitalar do Hospital A.C. Camargo, onde crianças e adolescentes que têm de se submeter a tratamentos extensivos não podem frequentar a escola e passam a assistir a aulas no próprio hospital. Para ensinar os pacientes, essa professora passou a usar o material do Aprendizado Coletivo. "Eu queria inicialmente chegar aos alunos pobres, que não conseguem ter uma educação de qualidade, mas nunca pensei que o meu trabalho poderia chegar tão longe", comemora Dias.

FRASES: 

"Há dez anos, quando levantávamos questões de responsabilidade social, os alunos eram reticentes. Hoje, são mais engajados" - Silvia Damião, chefe da Divisão de Alunos do ITA

"Minha vida foi transformada pela educação que tive. Sei do valor que ela tem na vida de alguém e quero trabalhar com isso mais tarde" - Isabella Amorim Gonçalez, 21 anos, aluna do 3º ano do ITA

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