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Educação

SÃO PAULO

Isabela, de 5 anos, ganha o direito de ser menina

Só nesta semana ela conseguiu que escola a tratasse pelo gênero feminino; é a criança mais jovem do País a conseguir esse direito

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Isabela Palhares,
O Estado de S. Paulo

13 Fevereiro 2016 | 03h00

SÃO PAULO - As aulas começaram de forma diferente para Isabela, de 5 anos. Apesar de já frequentar a escola há três anos, foi só nesta semana que a professora a chamou por seu nome feminino e ela pôde usar mochila cor-de-rosa e o banheiro das meninas. No ano passado, foi identificado que Isabela tem disforia de gênero, ou seja, apesar de ter nascido do sexo masculino, identifica-se como menina.

Ela é a criança mais jovem do País a ter direito a ser identificada por outro gênero, conseguido na escola onde estuda, em Salvador. A mãe, Patrícia, de 36 anos, contou que, desde que tinha um ano e meio, Isabela já demonstrava preferência por brinquedos e roupas de meninas. “Nessa época, não demos a menor importância, até por causa da pouca idade”, contou. 

Mas foi a partir dos dois anos que Isabela começou a se mostrar incomodada em ser tratada como menino, não queria mais usar roupas masculinas e chegava até a chorar quando a chamavam por seu nome de batismo, disse Patrícia. “Me partia o coração ver sua angústia, querendo explorar o universo feminino e nós não deixávamos, não da forma que ela gostaria. Em casa, sempre usava roupas femininas, sapatos, mas se fosse sair, tinha de tirar tudo e eu via a tristeza nos olhinhos dela.”

Foi quando Patrícia começou a pesquisar para entender o incômodo da filha e procurou a ajuda de um psicólogo. Desde o ano passado, Isabela passou a ser uma das 32 crianças atendidas pelo Ambulatório de Transtorno de Identidade de Gênero do Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo, que tem uma equipe especializada para trabalhar com crianças e jovens com disforia de gênero. 

Ajuda. Fundado em 2010 pelo psiquiatra Alexandre Saadeh, ainda hoje coordenador do espaço, o ambulatório foi o primeiro no País a receber crianças nessas condições. Além das 32 crianças, o ambulatório atende ainda 80 adolescentes. “Nos últimos anos não houve um aumento representativo nos casos de jovens com a disforia, mas é significativo. E vemos que a maioria dos pais, quando chegam até nós, está preocupada em entender e ajudar o filho a ser quem é”, disse Saadeh.

Nem todos que chegam ao ambulatório se tornarão transexuais. Em alguns casos, segundo o psiquiatra, pode ser apenas um comportamento lúdico convencional, como um menino que prefere brincar com outras garotas ou uma menina que quer brincar com carrinhos. Saadeh explicou que o objetivo do ambulatório não é oferecer tratamento, mas acompanhar o desenvolvimento da criança e orientar as famílias. 

“Pelos pais que chegam aqui, vemos que o preconceito diminuiu bastante nos últimos anos. Mas muitos ainda chegam se sentindo culpados, nosso papel é mostrar que não está nas mãos da família decidir isso. É o que a criança é.” O serviço também adotou desde 2013 o bloqueio da puberdade para evitar sofrimento maior dos jovens.

Patrícia comemorou o fato de Isabela ter sido tratada na escola como sempre quis, mas se prepara para os desafios que terá pela frente, já que o tratamento hormonal para crianças transexuais só é feito em São Paulo. “Fiz uma promessa: ela será muito feliz, terá todos os direitos de qualquer outra criança.”

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