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Imigração executiva

MBAs oferecidos no Brasil por escolas nacionais e estrangeiras atraem profissionais de fora interessados em ganhar bagagem multicultural, conhecer ambiente de negócios daqui e até empreender

Cristiane Nascimento e Jacyara Pianes, Especial para o Estadão.edu,

27 Novembro 2012 | 00h04

A consultora de recursos humanos Sylvie Faria, de 41 anos, chegou ao Brasil em janeiro, com o marido e três filhos. Largou parte da família, a casa e sua empresa no Canadá para fazer um MBA em São Paulo. “Além do potencial econômico do País, os desafios e problemas sociais que o Brasil ainda enfrenta foram alguns dos motivos que interferiram na minha escolha”, afirma a canadense. “Vir para cá me parecia muito mais significativo do que ir para um país europeu ou asiático.”

Sylvie, aluna do MBA internacional da Fundação Instituto de Administração (FIA), é exemplo de um fenômeno recente, a vinda de estrangeiros para fazer cursos de educação executiva no Brasil. São pessoas que têm interesse em aprender sobre as demandas e soluções locais e fazer contatos num mercado promissor.

“Em meio ao cenário de recessão das economias centrais a que assistimos, o Brasil é um dos poucos mercados que ainda têm potencial de crescimento”, afirma Carlos Honorato, professor da FIA. “Esse contexto tem atraído cada vez mais executivos estrangeiros, que normalmente migram para empreender ou para ocupar um espaço vago pela ausência de mão de obra qualificada.”

De acordo com Honorato, o empreendedorismo é o principal objetivo dos executivos estrangeiros que chegam à instituição – a FIA tem 38 deles matriculados em cursos de MBA. “A educação entra justamente como aliada para uma melhor compreensão do ambiente financeiro e comercial que temos aqui.”

Empreender era um dos objetivos de Sylvie quando chegou ao Brasil. As dificuldades burocráticas e o alto investimento necessário para a abertura de uma empresa, no entanto, a afastaram dessa alternativa.

 

O MBA escolhido pela canadense foi desenvolvido para atender grupos multiculturais de executivos que trabalham ou desejam atuar no mercado internacional. As turmas são formadas quase que exclusivamente por estrangeiros e as aulas, que ocorrem de segunda a sábado, são todas ministradas em inglês. Até por conta da carga horária, que varia de 4 a 9 horas diárias, poucos são os que conseguem aliar o estudo a alguma atividade profissional.

Emprego. Após terminar o MBA, que, por ser intensivo, tem duração de um ano apenas, Sylvie pretende arranjar emprego e permanecer no Brasil por pelo menos mais um ou dois anos. “Acho que precisamos ficar mais tempo para realmente aproveitar ao máximo essa experiência.”

A canadense acredita que, com o diploma em mãos, não será difícil arranjar emprego por aqui. “Minha ideia é aliar o conhecimento do mercado americano que já tenho com o que estou absorvendo do cenário brasileiro”, afirma.

Segundo Julia von Maltzan, coordenadora de Relações Internacionais da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-Eaesp), a instituição tem recebido cada vez mais consultas de alunos e de faculdades do exterior. “O Brasil é conhecido como um país de oportunidades de negócio. A procura deve muito também à tríplice coroa da FGV”, diz, referindo-se à distinção dada às escolas de Administração que têm qualidade reconhecida pelas três principais acreditadoras internacionais – European Foundation for Management Development (EFMD), Association to Advance Collegiate Schools of Business (AACSB) e Association of MBAs (Amba).

Em 2011, a FGV recebeu 333 estrangeiros, entre graduandos e pós-graduandos. Neste ano, foram 272 só nos cursos de pós. Há apenas dois meses no País, o italiano Andrea Carucci, de 23, formado em Administração, participa de um programa de mestrado profissional de dupla diplomação pela Universidade Luigi Bocconi, de Milão, instituição parceira da Eaesp.

Ao optar pela FGV, Carucci deixou de lado várias escolas de negócios reconhecidas, de países como Espanha, Holanda e Reino Unido. “Queria ter uma experiência para além do contexto europeu e nada melhor do que um país emergente com o peso e a relevância do Brasil para isso”, afirma. “Queria estar no meio dessa vibração econômica que toma conta do País já há alguns anos.”

Para Marco Antônio Sandoval de Vasconcelos, professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP e membro do Conselho Regional de Economia, a opinião dos estrangeiros sobre o País está mudando. “Apesar de estar estacionado, o Brasil ainda oferece perspectivas mais positivas que a Europa, com exceção de um ou outro local”, afirma.

Carucci tem aulas com americanos, latino-americanos, europeus e brasileiros. Assim como Sylvie, pretende permanecer aqui após a sua graduação. Antes disso, terá de voltar à Itália para apresentar a sua dissertação. “A grande vantagem do duplo diploma é justamente esta: ter as portas abertas para dois mercados distintos”, diz.

Tripla certificação. Visando atender a uma demanda corporativa para a formação de líderes globais, a FGV lançou neste semestre o Corporate International Master’s (CIM). Trata-se de um curso elaborado por escolas conceituadas de pós-graduação do mundo: a Esade Business School, da Espanha, a Universidade de Georgetown, dos Estados Unidos, e a Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape) da própria FGV.

Com módulos presenciais em Washington, Rio, Madri e Xangai, o curso oferece aos participantes uma tripla certificação: Corporate Master of Business Administration, Masters in International Business e Mestrado Executivo em Gestão Empresarial.

“O CIM é mais do que um curso nacional com extensão no exterior”, afirma Goret Pereira Paulo, diretora da FGV in Company. “O programa já nasce estruturado sob um caráter multinacional e multicultural, não só pela existência dos módulos internacionais, mas também pela formação da própria turma”, diz.

De acordo com Goret, o grupo deve reunir executivos de todo o mundo. “Já temos o interesse de uma série de empresas, não só dos países sedes, mas de toda a América Latina e até mesmo da África”, afirma. As aulas da primeira turma do CIM estão previstas para começar em março de 2013.

O curso é voltado a profissionais já experientes, que enfrentam o desafio de atuar diretamente no mercado internacional ou têm de interagir com companhias de culturas distintas. “Quando falamos de um curso multicultural, não se trata simplesmente da cultura teórica, mas, principalmente, da pragmática”, diz José Luiz Guerrero, diretor acadêmico de Georgetown.

Apesar de nenhuma escola chinesa estar presente na elaboração do programa, o módulo em Xangai foi criado pela importância do país no mercado mundial, diz Guerrero. Os módulos internacionais, que terão duração média de 11 dias cada um, serão intercalados com outros de ensino a distância, o que permite aos participantes manter o trabalho nas companhias em que estão empregados.

Pittsburgh

Neste ano, a Universidade de Pittsburgh, que oferece MBA Executivo simultaneamente nos Estados Unidos, em Praga (República Checa) e São Paulo, tem 6 estrangeiros entre os 26 da turma. Apesar de ainda pequeno, o número é relevante para o tamanho da escola e duas vezes maior do que o de 2011.

Karla Alcides, diretora para América do Sul de Pittsburgh, acredita que a atração de alunos estrangeiros está ligada à boa perspectiva de crescimento profissional que o Brasil passou a oferecer e ao retorno de executivos brasileiros ao País. De acordo com Karla, 20% dos expatriados estão voltando ao Brasil. “Esse retorno acabou abrindo os olhos de muitas empresas para executivos que já viveram experiências fora.”

 

O colombiano Daniel Abril, de 29 anos, chegou ao Brasil na metade de 2010, transferido pela Dow Chemical, multinacional de origem americana. O executivo chegou para desenvolver o cargo na área de supply chain, mudou para o setor de compras e resolveu cursar o MBA executivo de Pittsburgh.

“O brasileiro, no geral, é muito aberto às pessoas estrangeiras, não só em termos de cordialidade, mas também na disposição para aprender com outras culturas”, afirma Abril. “Isso não só facilita a adaptação do estrangeiro como faz de cidades como São Paulo um melting pot, onde pessoas de diferentes culturas trocam ideias e experiências abertamente. Essa é uma vantagem da cidade frente a outras grandes metrópoles do mundo.”

Apesar de considerar que o mercado de trabalho ainda protege excessivamente a mão de obra nacional, o colombiano acredita que as oportunidades são boas. “Há poucos anos, o Brasil era um bom destino para qualquer latino-americano. Mas, na situação global de hoje, é um ótimo destino de trabalho para qualquer pessoa.”

Andarilho. Colega de Abril na Pittsburgh, o japonês Hajime Marui, de 46 anos, viveu em vários países antes de se estabelecer no Brasil. Nos últimos 20 anos, passou pouco mais de 5 no Japão, 13 nos Estados Unidos e está no Brasil há 2 anos para expandir os negócios da empresa Toyobo, fabricante de produtos têxteis e bioquímicos, na América Latina.

“Primeiro a minha intenção era, claro, apenas trabalhar para atingir meu objetivo. No entanto, depois dos três primeiros meses, percebi que precisava de mais experiência em diversas áreas, como finanças, recursos humanos, liderança e comportamento organizacional, bem como uma ligação muito forte com os brasileiros e empresas de muitas indústrias diferentes. Por isso escolhi trabalhar e estudar.”

Para Marui, as conexões que faz em sala de aula têm sido o maior benefício de estudar no Brasil. “O MBA também incentiva e fortalece a minha capacidade de estabelecer a perspectiva de um projeto.”

Apesar de gostar da temporada no País e de ter feito amigos aqui, o executivo vive uma situação complicada: é um tanshin funin, expressão usada para se referir a um marido que trabalha sozinho no exterior.

Marui é casado há 18 anos com uma japonesa que trabalha no país natal. Os dois vivem separados há oito anos. Encontram-se pessoalmente apenas três ou quatro vezes por ano. “Mas o nosso relacionamento é muito bom”, garante o executivo. 

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