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DANIEL TEIXEIRA|ESTADÃO

ENTREVISTA: José Renato Nalini, secretário estadual de Educação de São Paulo

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José Renato Nalini

‘Há escolas em que a reorganização seria bem-recebida’

Secretário ressalta que adoção de ciclo único não precisa ser em toda a rede e promete espaço para alunos

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Paulo Saldaña

13 Fevereiro 2016 | 17h50

SÃO PAULO - Apesar de não descartar a continuidade da reorganização da rede estadual de São Paulo, suspensa no ano passado após ocupações de escolas, o secretário de Educação do Estado, José Renato Nalini, afirma que nada está definido. “Não precisa ter apenas um padrão na rede”, disse ele, ao comentar que apenas parte das escolas pode adotar o esquema de ciclos únicos. Colocando o diálogo com os alunos como prioridade, Nalini, que completa 17 dias na pasta, afirmou que pretende descentralizar a gestão, dando mais autonomia para diretorias regionais e escolas. 

1. Qual o principal desafio?

O maior desafio será trazer as famílias e sociedade para assumir suas responsabilidades na educação. A meta é chamar o alunado para que ele que tenha voz, que seja ouvido, que colabore com a escola que queremos. Tive surpresa agradável ao chegar, que foi o resultado da avaliação (o Idesp, índice de qualidade da rede, avançou nas três etapas da educação básica). Se fosse apenas confiar na mídia, diríamos que houve um caos em São Paulo no ano passado. Mas só 4,7% das escolas paralisaram e o restante funcionou perfeitamente. Vejo que a direção, a orientação da secretaria estava certa para alcançar índices de qualidade dos países ricos. Pode ser um processo lento, somos um país complexo. 

2. Olhando hoje, como o senhor avalia o que aconteceu no ano passado, com as ocupações?

Houve muitos perfis de ocupação. Teve a ocupação que a mídia glamourizou, em que os pais querem os alunos na escola. Isso é bom, porque conseguimos fazer com que os alunos gostem da escola. Mas teve escola em que os alunos não estavam, mas sim pessoas de fora. Entretanto, a sinalização é clara: precisamos conversar com o alunado. Ele é o objetivo da educação.

3. No ano passado, apesar da reclamação dos alunos de que não houve diálogo, a gestão Geraldo Alckmin (PSDB) insistiu por muito tempo que a decisão por mudanças era do Estado. Qual a influência que os alunos podem ter no projeto?

Havia lugares em que a reorganização seria bem-recebida. Se houver consenso por parte dos interessados, por que não? Se ela foi resultado de estudos, de planejamento... Falhou a comunicação, mas mesmo com a falha, existe uma escola onde essa reorganização é bem recebida. O que eu posso garantir é que não vai haver imposição.

4. E foi assim no ano passado?

Não sei, não estava aqui (risos).

5. Mas especialistas criticaram o estudo que baseou a reorganização, que não levou em conta outros fatores, como nível socioeconômico dos alunos. O senhor pediu outros estudos?

O projeto está suspenso pelo próprio governador. Foi anunciado que talvez voltasse em 2017, mas que este seria um ano de discussão. Nada ficou definido. É lógico que não vamos jogar fora o trabalho realizado. Foi uma coisa pensada. Agora eu quero chamar esses especialistas, quero conversar com todas as faculdades de Educação. Temos esse permissivo constitucional que não precisa ter apenas um padrão na rede, podemos desenvolver experimentos.

6. Como, do ponto de vista prático, vai haver esse diálogo?

A estratégia é transformar 2016 no ano da gestão democrática. Temos condições de tomar atitudes de sinalização, como designar data única para eleição de todos os grêmios estudantis, incentivar a formação. Hoje temos 3 mil escolas com grêmios, mas alguns são meramente formais ou então chapa branca. Temos de permitir a revisão das normas do grêmio, intensificar a participação nos conselhos escolares, fortalecer associação de pais e mestres. Os jovens têm de perceber que não é só discurso e retórica. Penso, por exemplo, em flexibilizar o uso do celular na escola. Eu propus para o governador que a lei mude e ressalve o uso pedagógico do celular. Recebi os estudantes da união secundarista. Eles me deram uma pauta, em que muitos pontos não é estranha para o que queremos. Se o aluno é destinatário da nossa atuação, é a vez de ele falar.

7. Como essa gestão democrática vai refletir na gestão?

Gostaria de descentralizar a estrutura da secretaria para que as diretorias de ensino tenham mais autonomia. Até mesmo permitindo que haja discricionariedade por parte do próprio alunado em parcela das verbas que vão para as escolas. Mas também nas compras. É uma forma de eliminar concentração de grandes licitações, de compras imensas. Porque onde existe essas coisas o Estado tem maior vulnerabilidade de ser vítima dos especialistas em licitação. Daqueles que sabem vender ao Estado mais caro. Se descentraliza, talvez elimine a possibilidade de manipulação.

8. Há investigações em relação às verbas de merenda no governo que mostram participação do ex-chefe de gabinete da pasta (Fernando Padula, que nega irregularidades). Como o senhor está lidando com isso?

Existem quatro apurações simultâneas. Aqui dentro com a Corregedoria do governo, a Polícia Civil, o Ministério Público e a Policia Federal. Entendi que não haveria necessidade de outra investigação interna. Mas, ao mesmo tempo, meu chefe de gabinete (Antonio Carlos Ozorio Nunes) criou uma comissão para reestudar as licitações em geral, e particularmente as da agricultura familiar. Então estamos preparados para tomar qualquer iniciativa.

9. Há outras irregularidades?

Não tenho conhecimento. Temos passado informações quando pedem.

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