Roque de Sá|Agência Senado
Roque de Sá|Agência Senado

Gerações mimimi

Com um clique se vê que toda geração reclama da seguinte, quase nos mesmos termos

Daniel Martins de Barros*, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2017 | 08h19

Se tem uma coisa que me irrita são as reclamações dos meus amigos sobre os jovens. Não esperava isso de nossa geração. Nossos pais não tinham acesso a tanta informação quando nós os estávamos azucrinando – dá para entender que achassem que não estávamos preparados para a vida adulta, que arruinaríamos o mundo, levaríamos todos para o buraco. Mas hoje basta um clique para saber que toda geração reclama da seguinte, praticamente nos mesmos termos. 

Antes de apontarmos o mimimi de hoje em dia, nossos avós já denunciavam o mesmo comportamento em nossos pais. A expressão, aliás, derivada do inglês me, me, me (eu, eu, eu), já fora usada – com mais economia, é verdade – em 1976 pelo escritor americano Tom Wolfe. Ele acreditava que os anos 1970 ficariam conhecidos como a “me decade” (década do eu). Em 2013, a revista Time publicou um artigo que atualizava o termo, cunhando a “me, me, me generation”. Ou geração mimimi.

Mas você que se queixa da famigerada geração Y, sabe o que falavam da geração X? “Eles têm problemas para tomar decisões. Eles preferem escalar o Himalaia do que subir na corporativa (...). Eles anseiam por entretenimento, mas sua capacidade de atenção é tão curta quanto um zap no controle remoto da TV discagem (...). Eles adiam o casamento porque temem o divórcio”, dizia sobre os jovens da época um artigo da mesma revista Time em julho de 1990. 

“Não é possível”, você pensa. “Eu estou vendo os jovens ficarem cada vez mais preguiçosos, acomodados, narcisista, impulsivos.”

Bom, talvez eles não estejam ficando mais e mais preguiçosos, acomodados, narcisistas, impulsivos. Talvez nós estejamos ficando menos. E a cada ano que passa, a cada fio de cabelo branco e ruga acrescidos, mais longe nós ficamos dessa impetuosidade. Tanto em termos orgânicos, pois já não a possuímos, como em termos temporais, cada vez mais distantes da época em que éramos assim. E quanto maior o contraste, maior a incompreensão. O ápice se dá por volta da meia-idade, quando os filhos estão nos píncaros de sua energia descabeçada e os pais, na iminência de ingressar na reta que leva à velhice. E será somente depois que as coisas começarão a melhorar. Quando a força tiver dado lugar à experiência e essa tiver sido substituída pela sabedoria. No fim, com um sabor de vingança, os avós contemplam os filhos a reclamar dos netos. “Você era igual”, diz o avô, para indignação do pai e diversão do neto.

“Ok, mas pelo menos eu sabia escrever”, você argumenta. Essa geração que não levanta o olho do celular já não sabe ler, mal escreve, só sabe pesquisar na internet. 

Desespero. Engraçado como cada novidade abraçada com entusiasmo pelos jovens leva ao desespero quem já não tem disposição para reaprender nada. O genial escritor Douglas Adams sintetizou com perfeição a situação. “Eu criei um conjunto de regras que descrevem nossas reações às tecnologias: 1. Qualquer coisa que esteja no mundo quando você nasceu é normal e comum e é apenas uma parte natural de como o mundo funciona. 2. Tudo o que é inventado entre seus 15 e 35 anos é novo, emocionante e revolucionário, e você provavelmente poderá fazer carreira nisso. 3. Qualquer coisa inventada depois de seus 35 anos é contra a ordem natural das coisas.”

É irônico nós estarmos com medo que nossos jovens desaprendam a ler quando o pai da Filosofia temia justamente o contrário. É bem conhecida a citação do Sócrates no diálogo Fedro, em que ele diz que a escrita atrofiará a memória dos jovens, que já “não usarão suas memórias; eles confiarão nas externas letras escritas e não se lembrarão por si mesmos”. E arremata com uma afirmação que poderíamos bem repetir hoje mesmo sobre o Google: “eles serão ouvintes de muitas coisas e não terão aprendido nada; eles parecerão ser oniscientes e não saberão praticamente nada; eles serão uma companhia cansativa, tendo a aparência da sabedoria sem sua realidade”.

Antes de dizer que os jovens de hoje em dia não estão preparados para o mundo adulto, portanto, lembre-se que eles não precisam entrar em nosso mundo adulto. Eles criarão o mundo deles. Para o qual terão certeza de que seus filhos não estarão preparados.

* É psiquiatra e colunista do E+

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