Flip estimula leitura diária entre as crianças

Festa Literária Internacional de Paraty impulsiona ação educativa de leitura nas escolas municipais

Gustavo Bonfiglioli, O Estado de S. Paulo

16 Maio 2011 | 13h00

Paraty é famosa por sua festa literária e sua importância histórica e turística. Entre 15 e 20 mil pessoas anualmente visitam o Centro Histórico, com ruas de pedras assimétricas dos tempos coloniais para visitar a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Na periferia da cidade, de paralelepípedos comuns, a Flip chega através de uma ação educativa para fomento e exercício da leitura nas escolas da educação básica - que virou política pública em 2009.

 

A biblioteca da Escola Municipal do bairro Parque da Mangueira, subúrbio de Paraty, tinha capacidade para 20 crianças em 2008. “Tivemos que ampliar esse número para 30 e, depois, para 40. Às vezes, são 80 crianças na biblioteca, na hora do recreio. Elas preferem vir pra cá do que brincar”, conta Flora França Pinto, diretora do colégio, que atende crianças do Ensino Fundamental I, do 1º ao 5º ano. Já o colégio de ensino infantil Pingo de Gente, no mesmo bairro, recém-inaugurou seu espaço de leitura. “As crianças aqui mal lêem, mas é importante que já tenham contato diário com os livros. A gente conta as histórias, elas veem as figuras e estabelecem alguma relação”, diz uma das diretoras, Simone de Castro Rosa. A aluna Ana Flor, de 4 anos, diz que gosta da escola porque não tem livro em sua casa, também no Parque da Mangueira.

 

Alunos da E.M. Pingo de Gente I, no bairro Parque da Mangueira, durante hora/aula obrigatória de leitura literária. Foto: Divulgação/Casa Azul

 

O contato diário dos livros com os alunos da rede pública de Paraty, que têm na grade curricular obrigatória uma hora/aula por dia dedicada à leitura livre, faz parte de uma sistema de ação educativa para formação continuada de leitores na educação básica (entre alunos e professores) que existe há sete anos. “A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) transformou a cidade em uma espécie de capital literária no País. Mas o que percebemos, no início, é que poderia ser um evento que só se hospedasse na cidade, mas não a transformasse continuamente em torno da cultura literária, em todas as comunidades”, conta Cris Maseda, que é coordenadora da Flipinha, evento paralelo à Flip voltado às crianças. “Era necessário que a Flip fosse instrumento para motivar uma transformação na educação pela literatura”.

 

Criada um ano depois da Flip, em 2004, a Flipinha nasceu como a festa literária infantil da cidade, e foi o primeiro passo para mobilizar a comunidade local pela literatura. Isso porque, entre outras atividades, são pendurados livros em as árvores da praça matriz do Centro Histórico. Em cada uma, fica um estagiário estudante do Ensino Médio da rede pública, que media a leitura de crianças e adolescentes.

 

Também é organizado anualmente um ciclo de palestras voltado a alunos de Ensino Médio que pretendem seguir magistério, sobre o autor homenageado da Flip - que, este ano, é Oswald de Andrade.

 

A partir de então, outras duas iniciativas estruturaram um sistema entre a prefeitura e a Casa Azul, OSCIP - Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, uma ONG com qualificação do Ministério da Justiça - que organiza a Flip: o Mar de Leitores, de 2009, projeto que definiu uma logística de distribuição de livros nas escolas municipais e, no mesmo ano, uma política pública junto à Secretaria de Educação da cidade para criar uma hora obrigatória de leitura por dia na grade escolar. A resolução foi aprovada e está vigente desde então.

 

As ações são articuladas: no início de cada ano, a Flipinha divulga um manual nas escolas; uma espécie de catálogo com um resumo da obra de 20 autores infantis, que funciona como um guia de referenciais aos professores para fazer a “curadoria” dos livros que poderão ser abordados nas horas de leitura com os alunos.

 

“Eu sempre gostei de ler, mas é bom ter uma lista com referenciais de autores infantis. O Pedro Bandeira, que eu adoro trabalhar com os meus alunos, está no manual da Flipinha”, conta a professora Vanessa Queiroz, da porta da 3ª série C da Escola da Mangueira, onde dá aulas de Português, História e Geografia.

 

Com periodicidade definida no início de cada ano, são organizados encontros mensais com gestores e semestrais com professores, em que ocorrem discussões sobre mediação de leitura literária entre as crianças. Dois anos depois, o projeto já atinge as 32 escolas públicas municipais de Paraty, envolvendo 320 educadores e cerca de 5.250 alunos.

 

“Nós atuamos no acervo e na capacitação dos professores para mediar a leitura dos alunos. Recebemos doações de diversas editoras e patrocínio para distribuir os livros”, explica Einara Fernandes, coordenadora pedagógica da Flipinha. A cidade é dividida em cinco pólos de ação, e as escolas de cada um se juntam em ações específicas: festas literárias no bairro, saraus, etc.

 

Resistência. Segundo estatísticas da Casa Azul, 93% dos professores e gestores acreditam que o projeto de hora/aula de leitura esteja consolidado no ensino público municipal, mas há críticas. Entre as principais reclamações, gestores municipais apontam acervo ainda insuficiente, falta de espaço físico para realizar a atividade e dúvidas sobre o papel do professor no processo. Em documento de avaliação do projeto, uma professora do colégio infantil Profª Pequenina Calixto, no bairro Chácara da Saudade, disse que “há confusão quanto ao que vem a ser de fato mediação de leitura”. Para Fernandes, um dos principais motivos dessa confusão está no fato da leitura ser obrigatória mas, ao mesmo tempo, não pressupor nenhum tipo de cobrança de conteúdo acadêmico.

 

“Inicialmente, a hora aula sem ligação com a atividade acadêmica tirou o chão do professor, como se fosse inútil. Ainda existe essa lógica na educação, mas acreditamos que o foco didático/acadêmico só dá um recorte possível de interpretação - a ideia é formar leitores críticos”, defende Einara, que também é da Secretaria da Educação de Paraty. Flora França Pinto, diretora da Escola da Mangueira, concorda: “Na hora aula de leitura, a gente procura associar o aluno e o professor ao prazer de ler. Ainda temos professores que não são leitores, e isso repercute diretamente no repertório dos dois. Quando se lê, livremente, cria-se embasamento para todo o resto.” 

 

Estudante de Paraty levou "porrada cultural" da Flipinha

 

Elison Fernandes da Silva tem 19 anos e está no 2º ano do ensino médio. Natural de Paraty, o estudante revela que sua antiga repulsa pela leitura é um dos motivos que já o fez repetir de ano no colégio. “Eu sempre fui um cara mais do gráfico do que da palavra. Sou desenhista e pintor, e quero ser designer. A leitura era difícil pra mim”. Quando a Flip chegou à cidade, em 2003, Elison conta que se envolveu pouco a princípio. Dois anos depois, o estudante teve uma espécie de epifania literária - que ele chama pelo nome menos eufemístico de “porrada cultural” - depois de ler um conto da obra basal da literatura árabe pré-islâmica, o Livro das Mil e uma Noites.

 

Foto: Divulgação/Casa Azul

 

“No ano de 2005 eu tive o meu primeiro contato forte com a Flip. Foi nessa edição que eu, por iniciativa própria, li meu primeiro livro, nos pés de livros da Flipinha: Ali Babá e os 40 ladrões. Eu fiquei os cinco dias do evento indo pra mesma árvore e lendo o mesmo livro, até acabar. Aquilo foi uma ‘porrada cultural’ pra mim.”

 

Hoje, Elison é monitor do Ponto de Cultura, um projeto da Associação Casa Azul que faz oficinas de produtos audiovisuais para a Flipzona, a “versão” da Flip voltada para o público jovem. “Eu nem sabia quem era Oswald de Andrade. Esse ano, a gente teve uma oficina sobre ele na escola. Nunca na minha vida eu pensei que fosse conhecer o manifesto antropófago dele”, conta o estudante, sobre o autor homenageado da Flip deste ano.

 

Apesar de sua paixão pela literatura ter sido despertada, Elison ainda quer ser designer - mas admite que a leitura passou a ajudá-lo em todas as outras atividades que exerce, inclusive as gráficas. “Aprendi a falar e escrever melhor, e isso é base pra tudo que eu desenvolvo.”

 

O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA ASSOCIAÇÃO CASA AZUL

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