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Físico alemão vira reitor da Universidade Federal do ABC

Bárbara Ferreira Santos - O Estado de S. Paulo

23 Junho 2014 | 03h 00

Estrangeiro tem desafio de consolidar e aumentar o potencial de internacionalização da instituição

SÃO PAULO - Perto de completar uma década, a Universidade Federal do ABC (UFABC), criada em 2005, tem duas grandes metas: se consolidar entre as melhores do País e aumentar seu potencial de internacionalização. O reitor escolhido para assumir os desafios tem um perfil atípico, mas com experiência para a empreitada: é estrangeiro, fez graduação, mestrado, doutorado e livre-docência lá fora. 

Robson Fernandjes/Estadão
Capelle. Mestrado, doutorado e livre-docência fora do País

Klaus Capelle, de 45 anos, é um físico alemão respeitado internacionalmente. Ele se formou na Universidade de Würzburg, no norte da Baviera, tinha tudo para desenvolver uma brilhante carreira de cientista nas melhores instituições do mundo e optou pelo Brasil. Veio primeiro como pesquisador, depois se tornou professor. Em 2010 recebeu o convite para a Pró-Reitoria de Pesquisa da UFABC e agora, como diz, “está” reitor. “Tive vários convites na minha carreira para voltar para a Europa, mas neguei todos. Queria ficar aqui e estou firme nessa decisão”, diz.

Quando chegou ao País, em 1997, ele tinha acabado de ganhar o prêmio de melhor trabalho do ano na Faculdade de Física e Astronomia da Würzburg com sua tese de doutorado. Quatro anos antes levara o prêmio com o mestrado. 

Optou por fazer o pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP), sob a supervisão do professor Luiz Nunes de Oliveira. A ideia inicial era ficar apenas um ano, no Instituto de Física de São Carlos da USP, mas depois estendeu o prazo para dois anos. De 1999 a 2003 foi bolsista Jovem Pesquisador da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) no Instituto de Química da São Carlos. 

Já em 2003, prestou um concurso para professor da USP, marco, que para ele, firmou seu compromisso com o Brasil. “Naquele momento passei a ser um servidor público do País.”

Segundo Oliveira, seu orientador no pós-doutorado, em pouco tempo que estava no Brasil, Capelle já mostrava um perfil de liderança: tinha facilidade para fazer amizade e orientar os alunos brasileiros, de conversar com pesquisadores do mundo inteiro e, além disso, se comunicava muito bem. “Acho que essa liderança foi em grande parte responsável por ele ficar”, explica. 

Ele lembra que Capelle chegou sabendo pouco de português, com sotaque carregado. “Ele arrumou logo uma namorada e depois se casou com ela, o que ajudou a progredir rapidamente no português”, conta. “Ele dizia, no começo, que tinha dificuldade com a pronúncia. No metrô, queria comprar três bilhetes, mas os atendentes entendiam seis e ele voltava com mais.”

Depois de tanto tempo no Brasil, hoje já domina completamente o idioma e tem o sotaque bem suave. Segundo os alunos, é ele quem corrige, nas dissertações, erros de concordância ou equívocos com a nova ortografia do português. “Klaus nos ajuda no nosso crescimento pessoal também. Está preocupado em termos um bom português e um bom inglês, por exemplo”, diz a ex-aluna Vivian Vanessa França Henn, hoje professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara. “Tem uma liderança natural, que não impõe, mas convence.”

E, no perfil de Klaus, uma das características mais determinantes é a interdisciplinaridade. A área de pesquisa em que ele atua, a mecânica quântica de sistemas com muitos elétrons, permitiu uma transição rápida do Instituto de Física para o de Química de São Carlos. Isso reforçou o que ele desenvolveria mais tarde na UFABC, uma instituição em que os alunos ingressam em um dos dois bacharelados interdisciplinares (Ciência e Tecnologia ou Ciências e Humanidades) antes de optarem pela carreira que seguirão. A universidade estuda ainda dois bacharelados: um para a área de Artes (que englobará cursos como Museologia e Multimídia) e outro na área da Saúde. Ainda não há previsão de quando eles saiam do papel, segundo Klaus. 

O perfil diferente da universidade é que, segundo ele, chamou a atenção na instituição. “Eu poderia ficar na USP, porque as condições de lá são boas. O que me chamou atenção na UFABC é o projeto acadêmico pedagógico. Aqui temos um projeto novo não apenas para o País, mas em escala mundial e não estou exagerando.”

A chegada na UFABC aconteceu em 2009, quando prestou um novo concurso para professor titular. Há quatro anos foi convidado pelo ex-reitor Helio Waldman para ser pró-reitor de Pesquisa e, desde então, se envolveu com as atividades de gestão. Ao mesmo tempo em que permanece nos cargos administrativos, diz que não quer se afastar de suas pesquisas e das aulas. “Descobri nesses quatro anos que eu gosto também da gestão acadêmica. Quando você é professor e consegue uma bolsa para um aluno, consegue ver o brilho no olho e a felicidade do estudante. Como gestor, você está mais afastado, mas consegue ajudar centenas ou talvez milhares.”

Para os planos em larga escala na UFABC, Klaus promete priorizar a internacionalização. Desde que assumiu, em fevereiro deste ano, triplicou os recursos humanos da Assessoria de Relações Internacionais para “dar conta da demanda com a internacionalização”. “Minha experiência mostrou que quanto mais visões de mundo diferentes você tem, mais fácil fica se adaptar ao próximo desafio. Por isso quero facilitar essa experiência para os alunos.”

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