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Falta avaliação técnica na escolha do material, dizem especialistas

Maioria dos sistemas apostilados é de cursos pré-vestibulares; eles não garantem melhor educação, segundo pesquisadora

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Isabela Palhares,
O Estado de S. Paulo

15 Fevereiro 2016 | 03h00

SÃO PAULO - Os pesquisadores do estudo também apontam a falta de avaliação técnica dos municípios na hora de escolha dos sistemas de ensino privado. Para eles o que é levado em conta é apenas a "autorreferenciação", já que a maioria dos materiais é vendido por grupos que também são donos de cursinhos pré-vestibular.

"Não há uma aferição da qualidade dos materiais, como ocorre com os livros do PNLD que são avaliados por uma comissão técnica. É uma lógica muito perversa, porque as empresas vendem o material com a propaganda de ser o mesmo utilizado nos cursinhos de elite, como se isso fosse garantir os mesmos resultados", disse Ximenes.

Em Capivari, uma das cidades que utiliza os sistemas e que foi analisada pelos pesquisadores, um responsável pela secretaria municipal de Educação informou que a escolha do sistema Anglo aconteceu porque há um escola particular na cidade que utiliza o mesmo sistema. "O que de pronto deixa transparecer a ausência de qualquer avaliação criteriosa quanto à qualidade e adaptabilidade do material fornecido em relação aos demais concorrentes", afirmou o estudo. Procurada pelo Estado, a prefeitura de Capivari não quis se manifestar.

Fatores. Theresa Adrião, da Faculdade de Educação da Unicamp e uma das pesquisadoras do estudo, disse que é "mito" acreditar e vender essa ideia aos pais de que apenas o material pode garantir uma melhor educação, por não levar em consideração um conjunto de fatores intra e extra escolar. "(É preciso levar em conta) também a qualificação e condições dignas de trabalho para os docentes e insumos adequados (bibliotecas,banheiros, laboratórios, organização do tempo e dos espaços), além de um tema mais complexo que é a condição de vida das famílias".

Para os pesquisadores, o material desses sistemas também "engessa" a educação ao tirar a autonomia dos professores, com cronogramas e planos que exigem ser seguidos em ordem e tempo pré-estabelecido. 

"Inibe ou exclui das atividades do professor a responsabilidade sobre a definição dos conteúdos mais adequados para sua turma, sobre qual a melhor maneira de organizá-los didaticamente, sobre a definição das estratégias de avaliação,  significa 'esvaziar' sua profissão. Além disso, significa reforçar a presença em nossas escolas de profissionais desqualificados, pois se nega a possibilidade de uma efetiva 'qualificação em serviço', quando se 'entrega' estratégias didáticas padronizadas", disse Theresa.

Já a consultora em Educação Ilona Becskeházy,que estudou a qualidade dos materiais entregues pelos sistemas de ensino privado, disse que esses materiais têm pouca diferença com relação aos selecionados pelo PNLD, até mesmo porque são produzidos pelas mesmas editoras.

Segundo ela, os benefícios estariam no fato de haver melhor sistematização e organização dos conteúdos, que norteiam de forma mais eficiente o ensino, a capacitação aos professores, mas, sobretudo, o fato do material pertencer o aluno. "Com os materiais do PNLD, o aluno não é dono do livro. Ele precisa entregá-lo a escola no fim do ano, por isso, não pode fazer exercícios ou anotações. Com isso, perdem muito tempo copiando a lição em seus cadernos. Com o sistema privado, o aluno não perde esse tempo que é gasto, de fato, com o aprendizado".

Para Paula Louzano, doutora em  Educação por Harvard, o principal atrativo desses materiais e sua vantagem com relação ao distribuído pelo PNLD é a de que "orientam e unificam o trabalho das escolas" no município. "Os materiais estruturados dos sistema de ensino representam uma solução privada a um problema que o poder público ainda não resolveu: a falta de padrões curriculares claros para cada nível de ensino. Os secretários de educação municipal, seja por falta de capacidade técnica ou recursos financeiros para desenvolver seu próprio currículo e implementá-lo,  optam por este material", disse.

Louzano afirmou ainda que, em países nos quais o poder público estabelece e garante orientações claras, com materiais didáticos compatíveis com essas orientações e apoio aos professores na implementação desse currículo, não há espaço ou procura pelos sistemas de ensino privados, como ocorre no Brasil.

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