Dan Clark
Dan Clark

Luciana Alvarez, Especial para o Estado

12 Setembro 2017 | 03h00

Novos tipos de empresa estão exigindo novas formas de se administrar. Em uma época em que um dos maiores disseminadores de notícias, o Facebook, não as produz; uma das maiores empresas de hospedagem, a Airbnb, não possui hotéis; e um dos maiores serviços de transporte, o Uber, não tem nenhum carro, as faculdades de administração têm alterado os currículos para fazer frente aos desafios de um mundo dos negócios cada vez mais virtual. E também cada vez mais desconhecido. 

“Anteriormente o profissional era formado para atender às demandas do momento. Hoje, temos de preparar para uma realidade que desconhecemos”, diz Arthur Motta, professor da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap). Segundo ele, o mundo está mudando tão depressa que não adianta mais montar um currículo pensando no que já existe. “Forneço ferramentas e fontes para que o estudante possa atualizar-se sempre. Ele tem de ser provocado a conhecer as novas realidades que virão a existir, os próximos passos da virtualização do mundo.”

Na prática da sala de aula, isso implica reconfiguração do papel do professor e do aluno. “O docente precisa criar um ambiente desafiador e conduzir para a reflexão. O aluno deve assumir uma postura mais ativa, pesquisar e tirar as próprias conclusões”, explica Motta.

Como administradores de empresas de qualquer setor, Thiago Gouveia, de 28 anos, usa na rotina profissional uma série de ferramentas virtuais. Em seu caso, as videoconferências são extremamente comuns. Com base em São Paulo, conduz projetos em toda a América Latina. “Em vez de ir para uma sala de reunião, faço uma videoconferência. A tecnologia diminui o custo e dá mais agilidade. Até para resolver conflitos dá para fazer a distância”, garante.

No entanto, reconhece que em alguns momentos o olho no olho é indispensável. “No contato presencial você cria uma conexão que facilita as trocas. Quando vou lançar ou finalizar um projeto, eu viajo. Até porque ficar um dia inteiro olhando para uma tela é ruim”, afirma.

Além de usar ferramentas tecnológicas do seu dia a dia, Gouveia é gestor em uma das maiores empresas de internet do mundo, o que implica um ambiente de trabalho extremamente dinâmico. “Nas empresas de internet, é esperado que você seja dono do seu processo do início ao fim”, conta. Para ele, essa forma de trabalho é mais interessante do que a tradicional. “Tive passagens por duas empresas tradicionais, mas não me adaptei à cultura. Elas têm mais formalidade e uma hierarquia rígida.”

Da faculdade, o que traz na bagagem até hoje é algo que nenhuma mudança tecnológica vai ser capaz de tornar supérfluo: o pensamento lógico que o leva a resolver problemas. “O que fez a diferença foi aprender a resolver problemas, a parte de lógica, de teoria da decisão. Eu me defino profissionalmente como uma pessoa que resolve problemas. Estou no RH, mas comecei no suporte, já fui para vendas e outros projetos”, diz Gouveia, que se formou em 2012 na Fecap. 

Mão na massa. Enquanto o mundo dos negócios se virtualiza a cada dia, as faculdades buscam dar aos alunos cada vez mais contato com a realidade, promovendo experiências concretas. “Houve um esgotamento da abordagem voltada para a acumulação teórica sem vínculo com a prática”, afirma o coordenador da graduação em Administração da Fundação Getulio Vargas (FGV), Renato Guimarães. “O ensino não pode perder o rigor intelectual, mas o jovem quer saber como aplicar no aqui e agora.”

Isso significa que um bom curso deve oferecer projetos aplicados, pesquisas de campo, parcerias com empresas e abertura para propostas que partam dos estudantes. “A gente tem uma aceleradora de novos negócios e todo um ecossistema de empresas júnior. Além disso, promovemos uma cultura de participação dos alunos. Eles estão representados em todos os órgãos colegiados, assim como podem criar grupos de fomento, como os que defendem direitos LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Travestis, Transexuais e Transgêneros). Vemos as pessoas se tornando protagonistas da sua formação”, diz Guimarães.

Ao lado dos colegas, Rodrigo Laham, de 25 anos, ajudou a criar dentro da FGV o A-Lab, um laboratório de inovação inspirado em modelos internacionais. A entidade faz consultorias para público externo e também trabalha com projetos em disciplinas da própria faculdade. “O aluno precisa entender que ele tem de ir atrás da sua formação. A faculdade vem se desenvolvendo, os professores se atualizam, mas se o estudante quiser se focar em finanças, pode formar-se de forma tradicional, sem contato com as inovações do mundo da tecnologia”, afirma Laham, que está no último semestre do curso de Administração. 

Para Laham, que sempre gostou da área de informática, o universo digital é tanto uma possibilidade de negócios em si – ele dá consultorias de TI para pequenas empresas e pessoas – quanto uma necessidade geral para o administrador. “A partir do momento em que a empresa cria uma página na internet, já é uma empresa global. Com um público potencial imenso, cria-se a necessidade de comunicação com uma gama muito maior de pessoas.”

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Luciana Alvarez, Especial para o Estado

12 Setembro 2017 | 03h00

Sempre gostei do mundo dos negócios, de conhecer empreendimentos diferentes, entender a estrutura das empresas. Mais jovem, pensei em estudar Economia, mas preferi a administração porque o espectro de atuação me pareceu mais amplo. 

Estudei no Insper e tive um arcabouço teórico forte, o que tem sido importante na minha carreira. Eu me formei em 2005, mas continuo aprendendo a cada dia. Hoje temos disponibilidade para aprender quase de tudo pela própria internet. Na plataforma Coursera, fiz cursos online de psicologia e budismo, de economia comportamental e filosofia antiga, por exemplo. 

Já trabalhei no varejo, na indústria, no serviço de telecomunicações e no mercado financeiro. Tive cargos bem variados. Atualmente tenho uma start up de camisas sob medida online. Nesse tipo de negócio, você tem de fazer de tudo, então minha experiência anterior me ajuda bastante.

A cultura empresarial, a estrutura hierárquica e o tipo de governança diferem muito de uma área para outra. Mas o objetivo final de toda empresa é o mesmo: dar bons resultados para a sociedade, para o dono ou acionista, para o funcionário. 

O que também não muda são as pessoas. Tanto faz o tipo de negócio, seja para vender uma pizza ou uma camisa online, é preciso saber gerir uma equipe e conhecer seu cliente. As pessoas se comportam de forma parecida mesmo em situações diferentes. Mas o estudo do comportamento das pessoas está avançando muito – e é preciso acompanhar. Há dez anos, um consumidor tinha de ser exposto três vezes a uma campanha publicitária para ser afetado pela mensagem. Agora tem de ser sete vezes, porque as pessoas dão 2 ou 3 segundos de atenção a cada coisa. A gente está lidando com outra velocidade de informação. 

Sei que vou continuar aprendendo sempre. A tendência para o futuro é algo que chamam de “nanoaprendizado”. Não vamos mais precisar de um curso extenso, para saber tudo antes de começar a fazer algo. Conforme vou precisando de um conhecimento específico, vou buscar e aprender.

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Luciana Alvarez, Especial para o Estado

12 Setembro 2017 | 03h00

A possibilidade de novos produtos abre portas ao empreendedorismo, segundo o coordenador do curso de Administração do Insper, Guilherme Martins. E as mudanças agregam valor ao trabalho do gestor. Sistemas podem analisar grandes volumes de ligações, robôs podem atender ligações, mas é só o ser humano que pode ter uma visão sistêmica para tomar boas decisões, diz ele.

Como as novas tecnologias modificaram a carreira do administrador?

As tecnologias atuais dão mais possibilidades para uma gestão melhor, seja por trazer mais informações, seja na produção em si ao proporcionar ganhos de qualidade e redução de custos. Os requisitos do gestor estão mudando, mas o trabalho humano do administrador não vai ser substituído. A tecnologia facilita certos processos, há sistemas que fazem diversos tipos de análises. O trabalho do administrador ficou menos mecânico e exige uma inteligência humana que a máquina não consegue substituir. 

Além do mundo virtual, a tecnologia afeta os produtos em si?

É o que chamamos de indústria 4.0, com processos que permitem a uma manufatura customizar produtos, oferecer variedade. Um tênis de marca pode sair da fábrica com o meu nome bordado, sem agregar tanto custo. Em um mundo com impressoras 3D nas casas, vamos ter a democratização dos meios de produção, com as pessoas podendo fazer tudo o que quiserem elas mesmas.

E qual é o peso da grande quantidade de informações para os negócios?

Sobretudo no Marketing se discute o Big Data e como lidar com esse volume de informações. Temos de reconhecer não só os dados escritos, mas também vídeos e fotos – e juntar tudo na tomada de decisão. O gestor tem de saber selecionar informações, separar quais são as variáveis úteis. Uma análise de dados pode apontar uma tendência, mas quem avalia o impacto, vê se faz sentido dentro da estratégia da empresa, se está de acordo com momento atual, é uma pessoa. Isso tem uma complexidade humana. 

A tecnologia está fazendo características humanas serem mais relevantes?

Parece um paradoxo, mas a tecnologia faz com que o lado humano agregue valor, faça a diferença. Cada vez mais a capacidade de interação, o trabalho em equipe, a empatia e uma visão sistêmica contam. Um sistema de call center pode atender 200 ligações por hora, mas quem vai preparar o robô para atender como um humano precisa? Essa interface humana é insubstituível. 

Como a faculdade prepara esse profissional?

Na faculdade, o aluno tem de ser preparado para aprender a aprender. Para isso, precisa de uma independência assistida. O professor não dá a informação: o estudante tem de pesquisar, coletar, e depois discutir em sala de aula. Ele, por exemplo, leva um caso simples para casa, vai ler, pensar e quando chega à classe já sabe lidar com o problema, vai só sistematizar. No Insper temos também laboratórios em que os estudantes podem fabricar produtos, materializar, para não ficar só no campo das ideias. 

O perfil de quem busca uma faculdade de administração também está mudando?

Vejo nos estudantes uma vontade muito grande de empreender. Com o acesso rápido às informações e até à manufatura, fica mais fácil pensar em prestar um serviço, criar um produto. É mais fácil tirar as ideias do papel, porque os meios de produção estão mais acessíveis. 

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