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Estudo de outras áreas para estar atualizado

Pagos ou gratuitos, curtos ou longos, cursos livres atraem até quem já tem experiência. Brasil registra cerca de 4 milhões de matrículas

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Ocimara Balmant ,
ESPECIAL PARA O ESTADO

31 Janeiro 2017 | 03h00

O que um profissional com mestrado e doutorado pode fazer para incrementar o currículo? Errou quem acredita que o próximo passo é só a matrícula no pós-doutorado. Num tempo como o nosso, em que até o conhecimento parece ficar velho de um dia para o outro, os cursos livres a distância surgem como uma oportunidade de atualização rápida e focada até para aqueles que têm a parede repleta de diplomas.

A tendência é confirmada pelos números da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed). No último censo da entidade, com dados de 2015, os cursos livres tiveram um aumento de alunos de 40% em relação ao ano anterior e chegaram à casa das 4 milhões de matrículas. O “boom” mostra que a modalidade, antes direcionada prioritariamente à iniciação profissional, tem ganhado adeptos cada dia mais especializados. Pagos ou gratuitos, com dias ou meses de duração, eles estão na moda.

“Tanto a graduação como a pós-graduação são construídas com base em matrizes curriculares chamadas de grade, o que demonstra uma rigidez que não atende mais aos anseios do profissional e do mercado de trabalho atuais”, afirma o pró-reitor acadêmico do Centro Universitário Belas Artes, Sidney Ferreira Leite.

“O que o indivíduo busca hoje é construir sua trajetória da maneira mais customizada possível.” Na Belas Artes, já são 14 cursos nesse formato, todos eles com foco em um público que já tem formação universitária e até pós-graduação, mas que busca se atualizar de acordo com o próprio calendário de vida e com uma velocidade mais próxima das exigências do mercado de trabalho. 

Uma “customização profissional” que fica ainda fácil com o surgimento e a proliferação dos cursos massivos, os Moocs, muitos deles em plataformas com muita credibilidade, como Coursera e EDX, que reúnem especialistas das melhores universidades do mundo, tais quais Stanford, Yale, Harvard e MIT. O economista Eleandro Custódio, de 34 anos, atuava como analista de crédito de um banco quando decidiu fazer, no Coursera, o curso online mais reconhecido sobre inteligência artificial. Com os conhecimentos adquiridos em 11 semanas de aulas, se tornou elegível a um novo cargo na instituição. Hoje, ocupa o posto de cientista de dados. “O que aprendi foi fundamental para a minha mudança. É uma área tão nova e com uma demanda de conhecimentos tão específicos e mutantes que sigo fazendo cursos livres, agora indicados pelo meu chefe.”

Escolha. Como o nome diz, no curso livre não existe a obrigatoriedade de carga horária, disciplinas, duração e diploma anterior. A oferta dos cursos também não depende de autorização e reconhecimento do Ministério da Educação. Fatores que permitem conteúdos e formatos ousados, mas que exigem que o interessado seja criterioso para não fazer uma escolha equivocada. “Antes da matrícula, é preciso ver se o curso atende a requisitos aparentemente simples, mas muito importantes, que podem determinar se vale ou não o tempo e o dinheiro investidos. Aliás, quanto mais longo o curso, mais é preciso ter certeza de que não é um esforço inútil”, diz a professora Ivete Palange, conselheira da Abed.

O primeiro ponto é conferir as estratégias didáticas. Um bom curso nunca estará elaborado com base em só uma técnica de ensino: deve mesclar vídeo, fóruns e textos. É preferível escolher aqueles com tutoria e checar, no caso do EAD, se há suporte técnico para o caso de problemas com ferramentas virtuais. Depois, é hora de avaliar o conteúdo com base em ao menos três parâmetros: quem desenvolveu a estrutura, como é o programa e quem está oferecendo. Para ver a credibilidade dos docentes, a busca na plataforma lattes é o caminho mais rápido e seguro.

Já a qualidade do programa, ensina Ivete, é percebida nos detalhes. “Quanto mais claras estão as habilidades que o aluno terá ao fim do curso, por exemplo, programar o robô X, mais fácil é de cobrar e mais seguro o estudante fica da competência de quem vai ensinar. Mas, se na ementa diz que o aluno vai ‘conhecer amplamente’ alguma coisa, já é para desconfiar. Como medir o que é ‘conhecer amplamente’?”

Mas o critério mais importante de escolha deve ser a credibilidade da instituição. E, em cursos livres, não é uma tarefa tão dedutiva. É óbvio que aqueles ligados a instituições que atuam no ensino superior ou técnico tendem a ser melhores que os sem vínculo institucional. Vale lembrar, no entanto, que autarquias e entidades do terceiro setor também podem ser fontes muito confiáveis e oportunas para cursos livres.

A professora universitária Valéria Trigueiro Adinolfi tinha graduação em Filosofia e mestrado em Educação, ambos pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), quando se candidatou em 2008 ao curso Bioética Clínica e Social, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - a Unesco, na modalidade a distância. “A Unesco faz esses cursos para toda a América Latina. São os melhores professores da área, e a diversidade de alunos traz uma riqueza incrível para as discussões. Imagina gente da Argentina, do Chile, do Brasil. É maravilhoso.”

Era só o primeiro dos cinco cursos livres que ela faria, três deles em organizações internacionais. Em 2009, Valéria foi aluna bolsista do curso de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, também da Unesco. Em 2016, já doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), participou de uma seleção que durou seis meses até ser aprovada no curso Risk Disaster Management, do Banco Mundial, com participantes do mundo todo. “O conteúdo é importante na minha atuação como voluntária na área de emergências humanitárias nas ONGs Visão Mundial e SOS Global e deve ser o tema do meu pós-doutorado.”

A história de Valéria, além de revelar como os cursos livres podem atrair a “nata da nata”, mostra que o terceiro setor e os órgãos internacionais podem atuar no segmento como formadores de rede de interesse. “Ao fazer um curso livre, eles fomentam relacionamentos e mapeiam interessados em assuntos nos quais são referência”, afirma Ivete, da Abed.

3 PERGUNTAS PARA... Patricia Schuindt, coach

A busca de atualização deve ser constante, mesmo para quem considera ter um emprego estável?

Sem dúvida. Até porque o que é um emprego estável? O mercado muda, as demandas mudam, as empresas mudam, até as ocupações mudam. Estar conectado às mudanças, bem como ao que permanece, é fundamental. O mundo está em transformação, o profissional também precisa estar. E a informação é o começo de tudo.

Vale a pena fazer cursos de outras áreas? Isso pode ser valorizado pelo empregador?

Tudo depende da mentalidade do empregador e da oportunidade em questão. Se for um empregador que busque um profissional “fora da caixa”, que tenha visões e abordagens diferentes para resolver problemas, cursos diferentes, menos focados na atuação específica, podem chamar a atenção. Cabe, em cada caso, avaliar a sensibilidade e o perfil de quem está contratando.

É bom citar, no momento da entrevista, cursos livres que porventura não estejam listados no currículo?

Sim. É o momento de compartilhar porque determinado curso faz diferença no desenvolvimento, contar aprendizados, dizer como aquele conhecimento colabora para uma atuação profissional mais completa. Mas é importante, sempre, saber que os empregadores procuram alguém para desempenhar uma função específica e, portanto, sempre é melhor priorizar cursos que possam fazer a diferença efetivamente para o trabalho. 

 

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