Alunos veem 'manobra' e manterão ocupações de escolas

Líderes do movimento estudantil reivindicam revogação de decreto que cria a reorganização da rede e permite o fechamento de escolas

Rafael Italiani, O Estado de S. Paulo

04 Dezembro 2015 | 15h04

Atualizada às 22h21

SÃO PAULO - Alunos à frente das ocupações das escolas estaduais classificaram nesta sexta-feira, 4, a suspensão da reorganização da rede e a queda do secretário da Educação, Herman Voorwald, como uma “manobra” do governador Geraldo Alckmin (PSDB) para acabar com as invasões e enfraquecer o movimento. Eles exigem a revogação do decreto que estabelece a mudança - o que deve ser feito neste sábado - antes de desocupar as escolas e querem punição aos PMs que acusam de agir de forma violenta nos protestos. O governo informou que os casos serão discutidos individualmente. 

Um comunicado foi feito nesta sexta pelo comando das ocupações, que afirmou que o movimento será mantido até que a reorganização seja cancelada permanentemente pelo governo estadual. O anúncio foi realizado na noite desta sexta-feira, 4, na Escola Estadual Professor Antônio Alves Cruz, em Pinheiros

Antes do pronunciamento, os alunos cantaram músicas de protesto. Eles fizeram um jogral com posicionamento contrário à reorganização e cobraram um cronograma de audiências públicas para debater propostas para a rede estadual de educação.

"Só desocuparemos se a reorganização for cancelada oficial e permanentemente e se o governo garantir nenhuma punição aos manifestantes. Não feito isso, continuaremos ocupando e resistindo", informaram os estudantes.

Um ato para apoiar as ocupações será realizado na próxima quarta-feira, às 17h, no vão livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp).

A presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), Camila Lanes, afirmou que as invasões devem continuar - nesta sexta, 196 escolas estavam tomadas no Estado, de acordo com a Secretaria da Educação. “Não estamos convencidos dos argumentos do governo. Uma coisa é o Alckmin dizer para a mídia que vai suspender, outra é ele de fato revogar.”

Ela criticou o argumento de que 2,9 mil salas de aula estariam ociosas e, por isso, a reorganização seria necessária. “Não estamos convencidos. A ociosidade é resultado do abandono das escolas. Não vamos desistir ou nos retirar das ocupações.” 

A porta-voz dos estudantes da Escola Fernão Dias Paes, em Pinheiros, zona oeste, Mariah Alessandra, de 18 anos, diz que o governo quer desviar o foco das invasões que, para ela, devem continuar. “É uma manobra para enfraquecer o movimento.” Segundo ela, os estudantes vão participar das audiências públicas com o governo e querem que seja estabelecido um cronograma para elas. Eles decidiram ainda marcar um protesto para quarta-feira.

De acordo com ela, o entendimento dos estudantes é de participar dos diálogos nas audiências públicas promovidas pelo Palácio dos Bandeirantes entre os alunos, professores, entidades de classe, a Secretaria de Estado da Educação (SEE), o Ministério Público Estadual (MPE) e a população.

A professora universitária Regina Obata, de 24 anos, concorda com o posicionamento dos jovens em não recuar.  "Não se quer uma suspensão porque podem voltar atrás a qualquer hora. Revogar é preciso e é o que os alunos precisam", afirmou. Ela criticou a forma como a reorganização foi imposta. "Há um problema grave na fundamentação apresentada porque não tem uma sustentação firme", disse.

Para Vanessa Alves, de 16 anos, do grêmio estudantil da escola Brigadeiro Gavião Peixoto, a maior do Estado, em Perus, na zona oeste, Alckmin quer apenas parar o movimento, pois mais escolas seriam ocupadas. 

Na Praça Roosevelt, no centro da capital paulista,  Angela Meyer, da União Paulista dos Estudantes Secundaristas, comemorou a vitória dos estudantes. "Grande vitória do movimento estudantil. A gente sabe que ser professor em São Paulo não é fácil. Alckmin insistiu mesmo assim em não ouvir os professores. Os estudantes tomaram a luta. A gente não foi ouvido e por isso decidiu radicalizar. Ocupamos mais de 200 escolas para dizer que sem democracia a gente não ia sentar. De repente, depois do Ministério Público entrar com ação resolveram se tocar", disse Angela. 

Segundo ela, a mobilização continua. "A nossa luta é por uma nova escola pública. Em 2016, vamos participar de cada audiência pública e reunião que tiver porque achamos que a educação pública tem que melhorar", disse. 

"Não vamos parar por aqui. Dia 10 tem ato e a gente ainda não sabe se vai desocupar as escolas. Na quinta-feira, haverá uma assembleia para decidir os rumos do movimento. 

Sorocaba. Duas horas após o governador Geraldo Alckmin ter anunciado a decisão de suspender a reorganização da rede estadual, estudantes relutavam em deixar as escolas ocupadas em Sorocaba, na tarde desta sexta-feira, 4. Até as 15h30, pelo menos doze escolas continuavam ocupadas, assim como o prédio da Diretoria Regional de Ensino. 

De acordo com a coordenadora local do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeosp), Magda Souza, os alunos esperam que o governador confirme em documento a suspensão da reorganização e aceite debater as mudanças com alunos e professores. "Eles já se mobilizam para deixar as escolas, mas querem ter a certeza de que não haverá um novo recuo por parte do governo."

O diretor regional de Ensino, Marco Aurélio Bugni, também não tinha sido informado oficialmente da decisão de Alckmin. Com o prédio ocupado, ele alegou que está sem acesso às comunicações oficiais./ COLABORARAM PAULA FELIX E JOSÉ MARIA TOMAZELA

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