Estudante de Medicina da USP denuncia racismo em evento esportivo

Alunos relataram que torcida fez sons imitando macaco e até exibiram cacho de bananas contra um estudante

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2017 | 14h31

SÃO PAULO - Um estudante do 4º ano de  Medicina da Universidade de São Paulo (Fmusp), de 24 anos, relatou ter sido vítima de racismo durante  a competição esportiva Intermed, entre alunos da medicina, realizada nesta semana. 

O aluno afirmou ao Estado que, durante uma das partidas de vôlei feitas em Barretos contra os cursos das Pontifícia Universidade Católica de Sorocaba (PUC Sorocaba) e PUC Campinas, na segunda-feira, 4, recebeu ofensas sobre sua cor. "Eu estava no aquecimento e ouvi alguém dizendo 'olha a sua cor, você é negro, com certeza passou por cotas'", contou. Ele não conseguiu identificar quem o ofendeu. Depois do episódio, o estudante publicou um texto em seu perfil no Facebook narrando o episódio.

Na quarta-feira, 6, em outro jogo, o aluno relatou novo ataque. Um vídeo que circula nas redes sociais mostra uma menina na torcida  com um cacho de banana nas mãos, que, de acordo com a vítima, seria uma referência racista. "Começaram a imitar sons de macaco", relatou. Em seguida, gritaram "textão de Facebook", em referência ao fato de o estudante ter denunciado o episódio de racismo no início da semana. A publicação dele teve 1,4 mil curtidas e mais de 200 compartilhamentos. 

Alunos de ambas as universidades repudiaram o ato. Em nota, os coletivos Semente e Feminista Maria, Maria, de alunos da PUC, lembraram que este tipo de prática já aconteceu em outros anos e cobraram posicionamento da atlética da Puc Campinas, a Associação Acadêmica Atlética Carlos Osvaldo Teixeira. O Estado ainda não conseguiu contato com a entidade.

Trotes e ações consideradas racistas já foram relatadas por alunos de universidades paulistas em outros anos. Em abril de 2015, por exemplo, a PUC Campinas abriu sindicância para investigar um episódio no curso de Direito. Em uma discussão na internet, um estudante negro foi alvo de uma montagem com a frase "a tocha da Klu Klux Klan (KKK, a seita racista americana) chega a tremer" depois de sair em defesa de uma colega. Em outra imagem, uma mulher negra posa para uma foto ao lado de três pessoas vestidas de membros da KKK, com a frase "nego perdeu a noção do perigo. Em março, calouros foram recebidos na Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) com roupas semelhantes à da KKK, embora os responsáveis neguem e digam que a fantasia era de "carrascos".

A reportagem tentou contato na quinta-feira, 7, com ambas as PUC de São Paulo, Campinas e Sorocaba, mas ainda não obteve retorno. 

CPI. Instaurada em 2014, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Trote apurou uma série de violação de direitos humanos em universidades paulistas. A maioria das denúncias vinham de cursos de Medicina. Além de trotes com ingestão de fezes, castigos físicos e humilhações, o relatório final da CPI apontou que, mesmo depois do período inicial do curso, práticas violentas continuavam a acontecer entre os alunos. A CPI recomendou que alunos com histórico "trotista" não pudessem participar de concurso público. 

Leia o relato completo do estudante:

Depois de cinco anos na treinando na Atlética da Faculdade de Medicina da USP eu finalmente tive a chance de jogar pela primeira vez pela faculdade na competição mais importante do ano. Por mais que a torcida da minha faculdade se esforce e consiga abafar os gritos de ódio da torcida adversária, algumas coisas ainda passam. Primeiro foi o jogo contra a faculdade de medicina da PUC Sorocaba, já no aquecimento começou: olha a sua cor, você é negro, com certeza passou por cotas né. Depois veio a PUC-Campinas: preto, negro, você é um lixo, seu preto. Na minha cabeça eu tentava me forçar para imaginar que na verdade eles estavam gritando Pedro, e não preto, mas na realidade eu sabia muito bem o que estavam gritando para mim. Isso não é esporte, isso não é certo, isso é inaceitável. Por mais que vitória nesses dois jogos tenham trazido algum relento, fica difícil esquecer. Vocês não vão me calar.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.