AMANDA PEROBELLI/ESTADÃO
AMANDA PEROBELLI/ESTADÃO

Bia Reis e Cristiane Rogerio, Especial para o Estado

08 Outubro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Nina Brondi de Andrade Zinsly, de 34 anos, é professora de leitura no Colégio Santo Américo, na zona sul de São Paulo. Na biblioteca da escola, vive cercada de livros e recebe diariamente visitas especiais: crianças de 1 a 7 anos ávidas por ler. Cada uma lê de um jeito e, para atraí-las, Nina precisou ao longo do tempo reinventar as estratégias.

“Fui percebendo que o vínculo com o livro tinha a ver com quem apresentava e como apresentava. Só deixá-lo disponível na sala era pouco. Hoje faço o que chamo de indicação literária: conto um pouco da história e não revelo o final, para eles ficarem com ‘gostinho de quero mais’ e levarem a obra”, diz Nina.

Parece simples, mas o trabalho não era somente uma relação professor/adulto e aluno/criança. Na dinâmica da atividade, a volta do livro emprestado rendia as indicações dos pequenos leitores, do jeito possível de comunicação de cada um. “Eles podem mostrar uma ilustração que mais gostaram ou até contar como e com quem leram em casa”, afirma Nina, revelando que qualquer memória criada com a prática de leitura fortalece a ligação com o livro. 

Da colaboração no processo da apropriação da escrita ao desenvolvimento emocional da criança, o livro passou, ao longos das últimas décadas, a ser presença necessária no mobiliário das escolas. Há 30 anos como educadora na Escola Vera Cruz, na zona oeste de São Paulo, Licia Breim Tavares Pedrosa, de 59 anos, viu isso na prática. “A leitura foi entrando cada vez mais como um lugar de compartilhar, sobretudo de diálogo mesmo”, conta Licia, hoje orientadora pedagógica da educação infantil do Vera Cruz. Lá, o lugar está na biblioteca e na sala de aula, com acesso fácil da criança de qualquer idade, sem a dependência do adulto. 

Na conquista dos leitores, o repertório é central. “Ao montar o acervo, tentamos garantir uma diversidade grande de gêneros: contos de fadas, lendas, poemas, livros sem imagem, livros sem texto, fábulas. E buscamos recontos de qualidade de autores clássicos, como os dos Irmãos Grimm, Charles Perrault e Hans Christian Andersen”, conta Vivian Alboz, de 35 anos, coordenadora pedagógica da educação infantil do Colégio Lourenço Castanho, na zona sul.

Entre a variedade de livros sempre há os hits, aqueles que nunca falham, principalmente os que trabalham as possibilidades de exercício de linguagem. “Entre as crianças menores, os livros que fazem mais sucesso são os contos cumulativos, como A Casa Sonolenta e A Bruxa Salomé (ambos de Audrey Wood e Don Wood). Os pequenos também adoram os da Suzy Lee e o Telefone sem Fio (de Ilan Brenman e Renato Moriconi).”

Muito além da leitura. No Vera Cruz, o livro também é meio para outro tipo de encontro: os alunos do ensino fundamental vão ler para os pequenos da educação infantil. “Esses dias foram ler o Você Troca, da Eva Furnari, que é um jogo de palavras bem divertido. Os pequenos adoram e os maiores ficam até nervosos, foi lindo: uma criança sendo mediada por outra.” 

Os livros também sugerem outras caminhadas. O Colégio Equipe, em Santa Cecília, na região central, fica perto da Biblioteca Municipal Infantil Monteiro Lobato, de 80 anos, única da cidade dedicada somente à literatura infantojuvenil. Por isso, os educadores de lá têm como parte do projeto pedagógico visitas ao espaço com os alunos, como complemento às práticas diárias com o livro na escola. “Quando entra no início do processo de alfabetização, fazemos sempre a visita. Vamos a pé, trabalhamos a apropriação do bairro, do espaço público que podemos frequentar”, diz Luciana Gamero, de 45 anos, coordenadora pedagógica da educação infantil e do 1.º ano do Equipe. 

Outra estratégia de alguns colégios é a presença do escritor ou do ilustrador na escola. “Conhecer o autor é um marco: sai do lugar do imaginário, as crianças se encantam de verdade”, diz Luciana. Tino Freitas, autor cearense com vários livros publicados e mediador de leitura, acredita que o encontro potencializa a leitura. “O contato valoriza o reconhecimento da obra e vai além: pode fazer com que a relação com a leitura ultrapasse as paredes da sala e alcance os pais e o próprio cotidiano.”

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‘Nós precisamos da formação visual’, diz escritora e ilustradora de livros infantis

Livro com ilustração impõe novo desafio para mediação pelo professor, afirma pesquisadora de literatura infantil

Bia Reis e Cristiane Rogerio, O Estado de S. Paulo

08 Outubro 2017 | 03h00

Escritora, ilustradora e pesquisadora de literatura infantil, Aline Abreu fala a seguir do desafio do professor de trabalhar em sala de aula com a produção contemporânea:

Nas últimas duas décadas, o mercado de livros infantojuvenis no Brasil mudou muito. As principais novidades foram a chegada de obras estrangeiras e a produção de livros de autores brasileiros que valorizam ainda mais o projeto gráfico e o papel das imagens nas narrativas. Aumentou, assim, o desafio para o professor mediar o livro na escola?

Sim. Todos nós precisamos entender que a leitura de imagens é um conceito a ser adquirido como o código da escrita – e isso não está claro ainda. É como se a leitura de uma ilustração estivesse sujeita à intuição e apenas à interpretação individual. É claro que a exposição a esses livros vai formando o olhar, mas o professor que tem o compromisso de fazer uma boa mediação deve saber que existe também uma formação na leitura de imagens. Da mesma maneira que temos de desenvolver uma competência para a leitura do texto verbal, precisamos da formação visual, para não se ater a uma leitura superficial das imagens e perder a potência de leitura do livro. 

E como fazer com as crianças?

Primeiro, tanto para si mesmo quanto para a criança, dar tempo para a leitura do livro por fruição. Depois, trabalhar a leitura de forma, digamos, mais consciente, assumindo que a imagem é uma linguagem a ser lida. Se aprendemos a ler os diferentes gêneros literários na palavra, como a poesia, por que com a imagem não?

Então os livros com imagens, ao contrário do que pensamos, exigem uma dedicação especial, um tempo para esta leitura...

O tempo da leitura das imagens é outro: é o tempo da contemplação. É muito importante para exercitarmos, pois é uma mudança de percepção de crianças e adultos. Não é o tempo da leitura de imagem rápida do dia a dia. 

E também um tempo para conversar sobre essa imagem...

Sim, o professor precisa disso. Vai ser como os livros clássicos de literatura que ele ama, que sente vontade de compartilhar com os alunos. Se eu amo Alice no País das Maravilhas (Lewis Carrol), por exemplo, vou fazer quantas leituras forem necessárias para ler melhor. Estou falando de um estudo do livro com imagens, essa leitura de forma mais investigativa para questionar a obra. E não é que os livros têm de ser todos altamente complexos, mas que sejam desafiantes. Cito na minha pesquisa duas obras que expõem o jogo e usam senso de humor. A primeira é Pato! Coelho! (de Amy Krouse Rosenthal e Tom Lichtenheld), em que dois narradores veem uma mesma imagem e dizem que ora parece um animal, ora outro; e a segunda, Aperte Aqui (de Hervé Tullet, que sugere que a criança interaja fisicamente com o livro). Os temas não são difíceis, mas eles são profundos no sentido da experiência de ler. O jogo que eles propõem é pela brincadeira, mas é sofisticado.

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